O Brasil se despediu ontem, terça-feira (22), de um dos seus mais importantes profissionais de imprensa: ninguém menos do que o jornalista Zuenir Ventura. Conheci o "Mestre Zu" na redação do Jornal do Brasil, na década de 1990. Ao longo dos anos, tive a honra de conviver com ele em diversas oportunidades, em encontros em que falávamos sobre jornalismo e literatura, ou em conversas sobre a ABL (Academia Brasileira de Letras), para a qual foi eleito em 2014. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Chegamos, por um breve período, a ser vizinhos no Rio de Janeiro. Nos encontros fortuitos pelas ruas de Ipanema, sempre o via na companhia de Mary, sua aguerrida companheira da vida toda. Fora isso, trocávamos mensagens pelo WhatsApp. Sempre muito gentil e bem-humorado, compartilhávamos convites futuros sobre livros ou leituras, além de algumas particularidades. Em agosto de 2023, por exemplo, ele me confidenciou que estava "convalescendo de uma fratura de vértebra", em decorrência de uma "queda em casa". Prometi uma visita que acabou não ocorrendo. Em 2019, ao lado do escritor Vagner Fernandes, dividimos uma mesa no FliAraxá, em Minas Gerais, evento literário organizado por Afonso Borges, onde tratamos do tema "Biografia e Memória: Narrativas". Quando conheci Zuenir, eu falava tanto no poeta Cruz e Sousa (morto em 1898) que ele acabou associando o nome do catarinense ao meu. Seu lado piadista, sereno e amigo é o que guardo entre as minhas melhores lembranças. Com Zuenir aprendi que, para ser profissional de jornal, é preciso ter senso de oportunidade e, acima de tudo, saber escutar. Zuenir sabia escutar e, quando dizia alguma coisa, era sempre aquilo que eu, novato e muito afoito, precisava ouvir. Seu lado professoral me guiou pelas horas incertas da minha formação jornalística; nunca me negou atenção. "Diga, Cruz e Sousa!", assim me tratava, sorrindo e com olhar atento, me dando o braço ou segurando a minha mão. Com sua partida, não é só um amigo que me deixa; é um ser generoso que, mesmo na idade avançada, não se negava a atender aos apelos que fazíamos. Partilhou com todos sua família, me aproximando de Mauro e Elisa, com quem estive no mês passado. Em junho, mês do seu aniversário, enviei por Elisa uma gravação de vídeo com desejos de saúde e fé. A vida jornalística de Zuenir era altamente improvável. Nascido em Além Paraíba, interior de Minas Gerais, morou em Nova Friburgo (RJ), onde chegou menino. Trabalhou com o pai, um pintor de paredes, foi office-boy e balconista. Anos depois, cursou letras na atual UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e se tornou professor. Em 1960, a pedido de Carlos Lacerda, dono da Tribuna da Imprensa, escreve seu primeiro texto para jornal, sobre a morte de Albert Camus. Jamais abandonou a redação. E esteve ao lado das oportunidades, como o "assessoramento" a João Goulart, em Paris, no ano seguinte, em função da renúncia do presidente Jânio Quadros. Zuenir, falante de francês —ao contrário de Goulart—, foi seu tradutor nas entrevistas do futuro presidente, alcançando seus "15 minutos de fama", como certa vez me disse. Deixo aqui esse texto como minha forma de despedida, mas com o desejo de reencontrar o amigo em alguma eternidade. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Na despedida do Mestre Zu, fica a lembran�a do amigo que soube me guiar e ouvir
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