Mostra na Cinemateca rev� filmes de 1976, marcados por utopias desbotadas

Mostra na Cinemateca rev� filmes de 1976, marcados por utopias desbotadas

Em 1976, o filme que Jean-Luc Godard apresentou no Festival de Cannes chamava-se "Comment Ça Va", ou, traduzindo bem livremente: como vão indo as coisas? É mais ou menos essa a questão central que parecem colocar os filmes —ou a maior parte deles— que formam a mostra "1976 – 50 Anos Depois", que abre na quarta-feira, dia 9, na Cinemateca Brasileira. Como vão as coisas oito anos depois de 1968? De 68, ou seja: de uma rebelião juvenil feita para acabar com as discriminações e injustiças da sociedade, para combater a repressão sexual. Bem, o filme que abre a mostra nesta quarta-feira, exibido a céu aberto, é "Carrie, a Estranha", notável peça de horror em que Brian de Palma nos joga num grupo de jovens estudantes que fazem da sexualidade pretexto para discriminar e humilhar uma colega, Carrie, cuja mãe é uma fanática religiosa. No filme, a fé se radicaliza, enquanto a liberdade sexual adquirida há menos de uma década já parece se confrontar consigo mesma e caminhar para a perversidade. Certamente, esses jogos de adolescentes sempre existiram no nosso mundo, mas a intensidade que se pode ver em "Carrie" parece mais essa, implacável, que alguns jovens exercem contra outros hoje, via redes sociais. A atualidade atroz desse filme o aproxima de outro: "Taxi Driver". Mas no filme de Martin Scorsese não são tanto as utopias que atormentam, e sim os fantasmas da guerra no Vietnã. Aqui, um chofer de táxi meio desocupado procura instaurar no mundo —ou em Nova York, pelo menos— uma espécie de perfeita pureza. Para tanto, decide salvar uma precoce prostituta de 12 anos, que não tem a menor intenção de ser salva. A tensão entre sexualidade e puritanismo frequenta a tela, enquanto Travis —esse o nome do homem— afunda-se num mundo quase tão sórdido quanto as ideias que cultiva. A paixão explode em "Império dos Sentidos", de Nagisa Oshima, um dos mais ousados da história do cinema. O casal de amantes faz amor todo o tempo, ignorando os alarmantes sinais de ascensão do militarismo nipônico às vésperas da Segunda Guerra. No entanto, o sexo, aprisionado em si mesmo, não pode levar senão à tragédia. Essa amostragem parece, desde já, mostrar que, em 1976, as utopias de 1968 já pareciam um tanto desbotadas. Se existe alguma dúvida, basta atentar aos personagens perplexos, perdidos no mundo, de "Jonas, que Terá 25 Anos no Ano 2000", do suíço Alain Tanner, outro dos pontos fortes da série. Talvez seja possível ver hoje nesta mesma chave o "Deserto dos Tártaros", de Valerio Zurlini, em que um oficial espera, anos a fio, num forte distante, a eclosão de uma guerra que nunca acontece. Ou o "1900" de Bertolucci: ambientado na Itália e usando personagens como alegorias das lutas de classe ao longo da primeira metade do século 20. Ao mesmo tempo, o cineasta leva sua reflexão ao problema das chances perdidas pela esquerda. Embora possa parecer um tanto esquemático em suas conclusões, aqui também o fantasma da chance que passou em 1968 e seus arredores volta à cena. Esse sentimento de fim de festa ressurge de forma resplandecente em dois filmes hollywoodianos de 1976, embora sem relação seja com os sonhos esquerdistas de 68, seja com a derrota dos Estados Unidos no Vietnã: o melancólico "O Último Pistoleiro", de Don Siegel, nos leva a um Oeste já da virada para o século 20, onde um velho cowboy (John Wayne, no caso) vive seus últimos dias. Já em "O Último Magnata", Elia Kazan evoca a figura de Irving Thalberg sob o nome de Monroe Stahr, a partir do romance incompleto que Scott Fitzgerald lhe dedicou. Aqui, algumas cenas são antológicas, como o diálogo entre Monroe Stahr (Robert DeNiro) e Brimmer (Jack Nicholson), líder dos roteiristas e rival profundo de Stahr. Também notável é a cena em que Stahr explica a um escritor o que é o cinema —segundo sua concepção, naturalmente. Há filmes que nem de longe sugerem elo profundo com esse momento, como "O Inquilino", belo suspense de Polanski, em que o deslocamento, o sentir-se estranho em um país ou cidade é um aspecto central. O mesmo se pode dizer do notável "Coração de Vidro", de Werner Herzog, em que a obsessão de fabricantes de cristal pela perfeição é um fio condutor decisivo. No Brasil, enquanto isso, o Ato Institucional 5, do final de 1968, era o mais importante: desde então a censura caíra pesada, ao mesmo tempo em que os movimentos de resistência armada eram esmagados. Em 1976, Sylvio Back aproximava o regime militar brasileiro do nazismo ao trazer para a tela a saga de imigrantes alemães no Sul do país em "Aleluia Gretchen", de longe seu melhor filme. No mesmo ano, Luís Rozemberg abria seu "A$suntina das Amérikas" com uma mulher com o rosto ensanguentado discutindo a ideia de imagem. O filme é um manifesto com momentos de imaginação marcantes sobre o estado de alienação produzido, entre outros, pelo cinema e pela publicidade. Em outra chave, o cinema produzido pela Embrafilme tenta romper a censura pelas beiradas, como se diz. "Xica da Silva", de Cacá Diegues, a própria Xica (Zezé Motta), personagem da era colonial, que impõe sua beleza e personalidade sobre o ambiente e, com isso, subverte o sistema escravocrata em vigor na época. Quase ao mesmo tempo, "Dona Flor e Seus Dois Maridos" tornava-se o maior sucesso do cinema brasileiro de todos os tempos até então, ao narrar o triângulo amoroso entre a viúva Flor (Sonia Braga), seu novo marido (o farmacêutico da cidade) e o finado Vadinho (o primeiro marido), cujo espírito retorna para o leito de dona Flor. A adaptação do romance de Jorge Amado, dirigida por Bruno Barreto, era um sutil apelo à liberdade, não apenas sexual, embora impusesse a beleza de Sônia Braga como atributo central. Que dizer de "Inferno Carnal", o filme de José Mojica Marins com seu Zé do Caixão, proibidíssimo? Ele se voltava a outro triângulo amoroso, este envolvendo um cientista cuja mulher tenta assassiná-lo com ajuda do amante (e melhor amigo do cientista). Do fracasso relativo desse plano virá a vingança do cientista —o terror estará em toda parte. Nesse momento, a pornochanchada, que marcou a produção paulista dos anos 1970 ao início dos 1980 do século passado, estava a toda, e não foi esquecida pelo curador do ciclo, Paulo Sacramento. "Bacalhau", de Adriano Stuart, impõe-se como paródia do "Tubarão" de Spielberg, ressuscitando assim um procedimento característico das velhas chanchadas. Obviamente, o bacalhau em questão terá características peculiares e, obviamente, sexuais. Adrano Stuart está longe de ser um cineasta desprezível, mas, para ter o melhor dele, será preciso esperar mais uns anos, até que a mostra anual da Cinemateca chegue aos filmes de Ugo Giorgetti, que revelaram em toda extensão o magnífico ator que ele foi. Em poucas palavras: do começo ao fim, a mostra dedicada aos filmes de 1976 é um dos pontos altos do cinema de 2026.

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