Mortes: Herdou o dom das artes e construiu uma obra singular

Mortes: Herdou o dom das artes e construiu uma obra singular

As artes estiveram presentes em toda a vida de Ramiro Bernabó. Não tinha como ser diferente. Era filho do pintor Carybé e tinha uma família toda envolvida nas artes. Em casa, convivia com grandes nomes, de Calasans Neto a Jorge Amado. Diziam que o menino que começou a desenhar cedo já nasceu artista. Apesar de ter passado quase toda a vida na Bahia, era argentino, nascido em 1947. A família se mudou de navio quando ele tinha 3 anos. Contava das memórias de se impressionar com o mar e ter um choque de cultura com as festas populares. Chegou a tentar outras carreiras. Fez vestibular para arquitetura —que também envolve os traçados—, passou, mas terminou não cursando. Tinha por volta dos 20 anos quando passou a dedicar-se totalmente à arte. Foi autodidata experimentando diversas técnicas. Além do desenho, também construiu obras na pintura, gravura e escultura. "Apesar de ser filho de artista, o trabalho dele é completamente diferente do nosso pai. Não é um segmento, ele tem uma obra muito personalista, muito dele", diz a irmã Solange Bernabó, 73. Sua primeira exposição foi em 1967, em Aracaju (SE). Ao longo da carreira, o trabalho foi projetado para outros estados, como São Paulo e Rio de Janeiro, e para o exterior, como o Peru. Durante um período, na década de 1970, morou no Rio de Janeiro, onde estudou gravura em metal na Escolinha de Arte do Brasil. Sua formação também passou pela cerâmica no Museu de Arte da Bahia, em 1984. Em 1988, ganhou o prêmio Copene de Cultura e Arte. Ramiro tinha forte interesse pela natureza, o que refletiu em suas criações. Quando pequeno, fazia coleção de insetos, incentivado pelos cientistas que visitavam a família. Ele sempre gostou muito do mar e passou boa parte da vida como mergulhador. A irmã lembra de um episódio em que ele e um amigo pegaram um tubarão próximo a uma das principais praias de Salvador, Ondina. Pode-se dizer que essa visceralidade era também o tom de sua arte. Na madeira, fazia cortes profundos e irregulares, sempre com muita energia. "São obras que são grosseiras, aparentemente inacabadas, mas com uma expressão realmente que comove e deixa o espectador pensar. É a verdadeira arte contemporânea, que cria questionamentos ao público, indaga e provoca", afirma o amigo e também artista visual Leonel Mattos, 71. Em sua "casa-ateliê", localizada em uma região de muita vegetação, fez seu mundo particular. Saía pouco, pois passava horas e horas criando. Há algum tempo enfrentava problemas de saúde. Morreu no dia 17 de julho, aos 79 anos, de insuficiência respiratória. Deixa uma filha, Juliana, que seguiu seus passos nas artes, e dois netos. coluna.obituario@grupofolha.com.br Veja os anúncios de mortes Veja os anúncios de missas

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