Quem conviveu com Sérgio Augusto Queiroz Norte percebia rapidamente: ele seria professor para sempre. Antes de passar no concurso da Unesp, deu aulas de inglês em cursinhos pré-universitários e montou um curso completo, com fitas cassete e material mimeografado baseado em músicas dos Beatles e dos Rolling Stones. Aprovado, tornou-se professor do curso de história na Unesp de Assis (SP), especializando-se na história dos movimentos sociais, sobretudo o anarquismo. Uma de suas paixões era a breve gestão anarquista de Barcelona durante a Guerra Civil Espanhola, cidade que amava e visitou algumas vezes. Anarquista, libertário e adepto da autogestão das pessoas e da sociedade, vivia de acordo com o que pregava, mesmo que isso significasse renunciar a muitas coisas em prol do coletivo. Leitor onívoro, guardava em seu apartamento milhares de livros em diferentes idiomas. Colecionava vinis que iam de Racionais MC's a Erik Satie, passando por muito rock, jazz, samba e MPB. Tinha conexão magnética com jovens e crianças, que sempre tratou como iguais, e adorava cachorros, afeto devidamente retribuído. Influenciou gerações de alunos em Assis e companheiros em encontros e congressos anarquistas no Brasil e em diversos países. Nascido em Mogi das Cruzes, mudou-se jovem para Santos, cidade que adotou e para onde voltou após se aposentar. Antes de entrar na faculdade em São Paulo, morou nos Estados Unidos como intercambista e se apaixonou pela contracultura lisérgica. Depois, foi aluno da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, militou no movimento estudantil contra a ditadura, foi preso arbitrariamente e torturado após a invasão da PUC-SP, em 1977 —ano em que esteve no Morumbi para ver o seu Corinthians sair da fila depois de 23 anos. Na Unesp, foi chefe do Departamento de História, orientou dezenas de trabalhos de pós-graduação, organizou e publicou livros e artigos. Ganhou a prestigiosa bolsa Fulbright e passou dois anos como professor visitante na Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos. Nas últimas décadas, envolveu-se com o movimento negro —sua mãe, Maria Isabel, era negra—, frequentou os Filhos de Gandhi, no Rio, e terreiros de candomblé e umbanda. Orador habilidoso, eletrizava plateias. Numa de suas últimas palestras, no Centro de Cultura Social, em São Paulo, afirmou que "o anarquismo brasileiro precisa se aquilombar" para prosperar. Respeitava todas as religiões, mas não seguia nenhuma, e agora descansa na "sopa cósmica", imagem de energias primordiais que sempre evocava e que retratou em quadros. Pai amoroso, era amigo dos filhos e dos amigos deles. Tornou-se avô atencioso e muito querido. Sérgio morreu em 12 de setembro, aos 72 anos. Deixa a ex-companheira Ângela, os filhos Janaina, Diego e Carolina, e seis netos. coluna.obituario@grupofolha.com.br Veja os anúncios de mortes Veja os anúncios de missas
Mortes: Foi professor e anarquista durante toda uma vida
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