'Meu Ant�nio' revisita uma hist�ria de amor e milit�ncia durante a ditadura militar

'Meu Ant�nio' revisita uma hist�ria de amor e milit�ncia durante a ditadura militar

Raimundo Antônio Jinkings foi livreiro, militante, pai e marido. Durante a ditadura militar, foi líder da resistência no Pará, sua casa era alvo de batidas policiais frequentes e sua livraria, de fuzilamento e censura. Mesmo preso mais de uma vez, Jinkings nunca se intimidou. Ao lado dele —"ombro a ombro", como ela diz— estava Isa Jinkings, sua companheira na política e na vida, que agora reúne suas lembranças em "Meu Antônio", uma crônica memorialística e bibliográfica. Hoje com 92 anos, Isa começou a escrever sobre o marido nos meses seguintes à morte dele, em 1995. Não havia, de início, a intenção de publicar. Seus escritos nasciam da emoção e se acumulavam em cadernos guardados na gaveta. "Escrevi inclusive uma carta —nunca entregue— de despedida aos meus filhos, já que eu tinha certeza de que não sobreviveria à partida dele", conta a autora. Antônio era maranhense e conheceu a paraense Isa em Belém, quando ela tinha 15 anos e ele, 21. Trocaram olhares em um arraial, dançaram em um clube e não se desgrudaram mais pelos próximos 46 anos. Mas a ideia de registrar a trajetória do casal vinha de antes. Antônio e Isa cogitaram escrever um livro juntos. Após a morte dele, a família tentou fazer uma biografia, encomendada a uma jornalista —mas Isa não gostou do resultado. "Minha mãe lia e dizia: ‘Mas não foi isso que eu disse. Não foi assim’. Até que eu falei: ‘Mãe, por que tu não escreves esse livro?’. E ela adorou a ideia." Quem conta isso é Ivana Jinkings, filha mais nova do casal e responsável por publicar "Meu Antônio" na sua editora, Boitempo. A mãe então produziu o manuscrito, que ficou 20 anos parado, dessa vez na gaveta de Ivana. "É preciso muita terapia para publicar um livro da minha mãe sobre meu pai." Tudo a Ler Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias A filha adiou o trabalho até ser intimada por seus irmãos neste ano, brinca. Com a data de lançamento marcada por eles, teve que terminar a tarefa. Além da hesitação em publicar uma história tão íntima, a caçula também encontrou dificuldade em separar as trajetórias política e pessoal de Antônio. O problema só foi resolvido quando Ivana aceitou que o pai e marido Antônio era a mesma pessoa que o comunista Jinkings. "Todas essas facetas compõem um ser único. A militância e a livraria nasceram dentro da nossa casa." No livro, a narrativa é complementada com um mosaico de fotos de família, testemunhos de todos os filhos e textos de Antônio. Para Ivana, é o relato amoroso de uma existência compartilhada, valioso também por registrar a história política do Pará e do Brasil a partir de quem a viveu. Antônio foi um dos principais dirigentes do Partido Comunista Brasileiro no Pará. Após o golpe de 1964, passou a ser perseguido pelas autoridades. Ficou preso por meses na 5ª Companhia de Guardas, hoje transformada no restaurante onde aconteceu o lançamento de "Meu Antônio". "Dividíamos as tarefas e os projetos políticos e culturais. Fundamos juntos a Livraria Jinkings, militamos no mesmo partido e criamos juntos nossos cinco filhos e alguns netos", conta Isa. O casal teve ainda uma editora, a Boitempo, dirigida ao lado do também comunista Carlos Sampaio. "O selo teve vida curta porque os livros eram apreendidos quando mal tinham saído", conta Ivana. A empresa foi encerrada ainda durante a ditadura. O que continuou foi a Livraria Jinkings, que permaneceu aberta por 50 anos na rua dos Mundurucus. Em seu primeiro mês, a loja teve sua fachada estilhaçada por grupos armados que se diziam caçadores de comunistas. Mas o estabelecimento resistiu. Também dona de editora, a filha se viu seguindo o legado do pai sem que esse fosse seu plano. Em São Paulo, ela trabalhou em algumas editoras até decidir abrir a sua. O nome Boitempo foi retomado como uma homenagem quando o pai adoeceu, e a aproximação com a literatura política veio aos poucos, até se tornar parte central do catálogo. Ler o livro foi ao mesmo tempo confirmação e redescoberta para Ivana —que encontrou o pai amoroso que já conhecia, mas também confrontou lembranças da infância com novos olhos. "As histórias que eu já conhecia ficaram maiores", conta Ivana, lembrando quando, ainda criança, era ensinada a contornar a perseguição escondendo livros e o pai. "Depois de tanto tempo, elas ficam quase engraçadas. Mas a época era de muita tensão."

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