[RESUMO] Principal nome da atual onda de escritoras latino-americanas ligadas ao horror, a argentina Mariana Enriquez comenta o processo de adaptar seus contos para a minissérie "Meus Mortos Tristes", dirigida por Pablo Larraín. Produção sobre uma médica que pode ver e ouvir os mortos escancara, pela via do insólito, as feridas políticas e sociais da região, em que o horror brota mais do que a sociedade esconde do que de fantasmas. Quando os mortos começam a circular pelo bairro de Piedrabuena, na periferia de Buenos Aires, eles não são aparições distantes ou etéreas. Conservam marcas de tiros, repetem hábitos de quando estavam vivos e cobram dos vizinhos aquilo que lhes foi negado. Na minissérie "Meus Mortos Tristes", o sobrenatural não apaga a realidade que o produziu. Adolescentes assassinados continuam pelas calçadas com os rostos destruídos pelas balas, e um jovem passa a assombrar os moradores que lhe recusaram ajuda quando ainda podia ser salvo. O fantasma dá forma à culpa coletiva e permanece ligado a um corpo e a um lugar. A convivência entre mortos e vivos, não exatamente de forma natural, mas no mínimo com um assombro de mais amedronto do que estranhamento, é o princípio de "Meus Mortos Tristes", cujos quatro episódios foram dirigidos pelo chileno Pablo Larraín e estrearam na Netflix. O grande chamariz da produção, porém, tem sido menos Larraín, cineasta prestigiado e com passagens por Hollywood, e mais a autora dos contos adaptados na série, a argentina Mariana Enriquez. A escritora de 52 anos está em seu terceiro livro de contos, "Um Lugar Ensolarado para Gente Sombria", publicado na Argentina em 2024 e com edição brasileira lançada em junho, traduzida por Elisa Menezes para a Intrínseca, sua casa editorial no país. É dessa coletânea que saíram as três histórias integradas e adaptadas em "Meus Mortos Tristes" como um único grande drama. "Foi Pablo Larraín quem teve a ideia da fusão, e eu a aceitei como um desafio para encontrar um texto maior, um texto novo", conta Enriquez, em entrevista por email à Folha. Embora reconheça continuidade entre seus contos, a autora sempre os enxerga como unidades separadas. "As decisões (de adaptação) tiveram a ver com imaginar, ajustar, pensar uma nova narrativa. Nada muito estranho a um processo criativo", diz. Enriquez assina o roteiro da série com Larraín, Guillermo Calderón e Anastasia Ayazi. Diante da tarefa, viu-se como "coautora de uma obra nova". "Eles pensaram muito mais nos aspectos especificamente formais da obra para a tela. Se alguma sugestão minha não funcionava, era descartada." Protagonizada por Mercedes Morán, "Meus Mortos Tristes" acompanha Ema, médica recém-aposentada que pode ver e ouvir os mortos. Ela passou a vida tentando manter distância dessas presenças, até que a visita da sobrinha Julie e o assassinato de três adolescentes desarranjam o limite entre os dois mundos. Como diz a própria Enriquez sobre a série, "o terrorífico não está nos fantasmas, mas naquilo que a sociedade esconde". Uma semana antes da estreia no streaming, a minissérie foi exibida como longa-metragem de 187 minutos no Festival de San Sebastián, na Espanha. Em 74 anos de evento, foi a primeira vez que uma série competiu pela Concha de Ouro, o troféu mais importante da mostra. "Foi o festival que propôs fazer isso. O conteúdo da série e do filme é o mesmo. A única coisa que fizemos foi agrupar os capítulos", disse Larraín a jornalistas, em coletiva de imprensa após exibição da série-filme, no último dia 20. Para o diretor, a mudança de formato não alterou a natureza do projeto, construído desde o início pela aproximação entre contos que pareciam pedir uma vida comum. "O universo de Mariana é fantástico, e são materiais que fazem nossas mãos coçarem de vontade de adaptá-los", exaltou. Presente na coletiva de imprensa do festival, Mariana Enriquez relacionou a atmosfera da série à arquitetura do bairro de Piedrabuena, onde grandes conjuntos habitacionais dividem a paisagem com o hospital e a universidade pública. "Esses projetos de urbanismo social dão um ar um pouco de gótico urbano", disse ela, que identifica o fenômeno com vestígios de uma ideia de democracia social que perdeu força com o afastamento do Estado nos cuidados sociais. "Há um desamparo, porque esses edifícios protegiam e agora já não protegem ninguém. Isso também fala de fantasmas", completa. Na mesma conversa com jornalistas em San Sebastián, Enriquez rejeitou a leitura de medo social percebida em "Meus Mortos Tristes" como simples resposta à conjuntura imediata de seu país ou do continente. Para ela, a paranoia que atravessa os personagens pertence a uma experiência histórica mais longa na América Latina. "Eu cresci nos anos 1970, e existia o temor de que os militares poderiam bater na sua casa ou de que seu vizinho poderia te denunciar por ser um militante social", disse. Embora reconheça no presente novas formas de contágio do medo e o avanço das políticas de direita, a escritora aponta existir continuidade de processos anteriores. "O problema de pensar as coisas o tempo todo como resposta ao presente absoluto é não conseguir pensar na história, no contexto e em como chegamos a este presente. Os fantasmas de ‘Meus Mortos Tristes’ não representam só o que passou, mas o que nunca deixou de agir." Transmídia A minissérie marca a segunda incursão da literatura de Mariana Enriquez no audiovisual. Em janeiro de 2025, "A Virgem da Pedreira", produção argentina dirigida por Laura Casabé a partir de roteiro de Benjamín Naishtat, foi exibida no Festival de Sundance. O filme, disponível na HBO Max, adapta dois contos da autora presentes na coletânea "Os Perigos de Fumar na Cama". O enredo se ambienta na Buenos Aires de 2001, quando a Argentina se aproximava do colapso econômico daquele começo de século, e mostra Natalia, adolescente que, apaixonada por um amigo, sente ciúmes por uma garota mais velha. Esse "coming of age" latino logo esbarra em elementos de bruxaria e paganismo, a se misturarem às mazelas sociais e ressentimentos afetivos, bem o tipo de conteúdo das invenções de Enriquez. Na conversa com a Folha, a autora diz ter sido "algo inesperado" ver circularem duas adaptações de contos seus num espaço de pouco mais de um ano e se diz "muito grata" por isso. Jornalista de formação e carreira, ela atua desde os anos 1990 no periódico Pagina/12 e nunca pensou em transposições de linguagem quando escreve suas ficções. "Sei que é algo muito próprio dos escritores contemporâneos, e é lógico que seja assim, mas, quando escrevo, não enxergo imagens ou adaptação pra outras mídias. Penso em vozes, personagens e numa espécie de universo paralelo onde meus contos acontecem." A exemplo de "Meus Mortos Tristes", "A Virgem da Pedreira" parte de contos distintos e independentes que se costuram em tramas únicas nas telas, liberdade que encontra respaldo na própria escritora, para quem é impossível existir qualquer adaptação fiel. "Quando uma obra é adaptada, prefiro que a nova linguagem seja usada em sua totalidade e a reinvente", afirma. Na sua visão, o fracasso de alguma adaptação não está na distância em relação ao original, o que para ela parece irrelevante, mas na incapacidade da nova criação se sustentar como conteúdo único e especial. Para o escritor e crítico literário Cristhiano Aguiar, autor da coletânea de contos "Gótico Nordestino", que saiu em 2022 pela Alfaguara, o interesse recente de produtores em levarem histórias de Mariana Enriquez para as telas se deve a três fatores essenciais presentes na literatura dela. "Ela é uma ótima cronista da vida latino-americana. Também é uma excelente criadora de personagens femininas e as coloca diante de dilemas muito contemporâneos. Por fim, há o horror, sempre uma tradição muito forte em filmes e séries." Na escrita das 12 histórias de "Um Lugar Ensolarado para Gente Sombria", de onde saem os três contos mesclados em "Meus Mortos Tristes", Mariana Enriquez foi movida muito mais por questões existenciais a perturbarem sua mente do que por acontecimentos globais citados em parte das tramas, como a pandemia, as crises econômicas e o sensacionalismo da mídia. "O livro veio da consciência muito clara e vívida do corpo e da morte. Tenho 52 anos e não sou velha, mas já vivi mais anos do que os que me restam. Na menopausa, o corpo da mulher torna isso muito claro", pondera. "Meu próprio corpo e a ansiedade mundial provocada pela pandemia criaram terreno fértil para esses contos, que, ainda assim, são bem mais fantásticos do que os de livros anteriores. É como se o paranormal já não irrompesse na vida, mas algo que está ali, prestes a ser despertado." Na visão de Cristhiano Aguiar, "Um Lugar Ensolarado para Gente Sombria" consolida Enriquez no universo que ela constrói desde seus primeiros contos. "Ela está no pleno domínio das suas capacidades criativas, está no auge, é alguém que já entendeu qual é seu mundo e construiu uma linguagem através da voz que estava buscando", exalta. Aguiar percebe, inclusive, que Enriquez consegue o feito de se afastar da herança incontornável do conterrâneo Jorge Luis Borges (1899-1986). "Temos grandes autores na Argentina que fazem muita sombra sobre as gerações que os sucederam. A maior sombra de todas é a de Borges. Como narrar depois de Borges? Acho que ela encontrou um caminho próprio dentro da arte do conto, distinguindo-se do fantástico argentino e do fantástico latino-americano clássico", defende. O escritor acredita que ela faz isso ao manejar com brilhantismo a poética do horror em conjunto a referências vindas da literatura, do audiovisual, da cultura pop e da expressão gótica. Para Maria Luiza Staut, pesquisadora e cineasta que estuda a literatura insólita latino-americana em sua tese de doutorado, Mariana Enriquez é pioneira de um movimento marcante já há dez anos. "Ela deu visibilidade e oportunidade a outras autoras que compartilham do mesmo fôlego e interesse pelo horror, particularmente a partir do sucesso de ‘As Coisas que Perdemos no Fogo’, que lançou em 2016." De fato, a autora argentina publicou seu primeiro romance, "Bajar Es lo Peor", em 1995, chamou a atenção com os contos de "Os Perigos de Fumar na Cama", em 2009, para então chegar ao burburinho mundial em "As Coisas que Perdemos no Fogo". Em 2019, o romance "Nossa Parte de Noite" venceu o prestigioso Prêmio Herralde e notabilizou-a ainda mais como o principal nome contemporâneo ligado ao gênero do horror na literatura da América Latina. Isso inclusive motivou o interesse de editoras por autoras de poéticas similares. "Acredito que o mercado editorial tenha se movimentado a partir da repercussão de livros dela", diz Staut. Mariana Enriquez encabeça o atual cenário de escritoras latino-americanas a conectar experiências íntimas, de vidas e de países, a manifestações do insólito, trafegando pelo horror, pelo suspense e pelo estranho. Integram essa corrente a também argentina Samanta Schweblin, de "Pássaros na Boca", de 2008, e "O Bom Mal", de 2025; a mexicana Fernanda Melchor, de "Temporada de Furacões", de 2017; a equatoriana Mónica Ojeda, do romance "Mandíbula", de 2018; a boliviana Giovanna Rivero, de "Terra Fresca da sua Tumba", de 2021; e a cubana Elaine Vilar Madruga, com "O Céu da Selva"; de 2023. Todos esses títulos foram publicados no Brasil, país que pode se incluir nesse cenário com, entre outras, Verena Cavalcante, que lançou "Como Nascem os Fantasmas" em 2025, e Ana Paula Maia, cujo recém-publicado "O Tenebroso Brilho do Sol" chega no embalo de sua indicação ao Booker Prize Internacional por "Assim na Terra como Embaixo da Terra" alguns meses atrás. "As mulheres encontraram no horror, de maneira mais escrachada, formas de denunciar as opressões que sofriam e que são próximas daquilo que sentimos de verdade", comenta Maria Luiza Staut. "Isso contribuiu para que se perceba que experiências da vivência feminina, embora atravessadas por contextos geográficos específicos, têm eco universal." A visão é confirmada pela própria Mariana Enriquez. "Acho que vivemos num momento em que as mulheres, em geral, têm mais visibilidade, e isso se relaciona com os feminismos e com a conversa global sobre elas. Há muito mais interesse no que as mulheres fazem hoje do que já houve em qualquer outra época", diz a autora. Muitas dessas reflexões devem estar em "Conversación con la Oscuridad" (ainda sem previsão no Brasil), livro de ensaios que Enriquez lança em outubro sobre a escrita de terror na América Latina e como o gênero se vincula à política, à história e aos traumas sociais. Justamente a seara em que ela se tornou mestra moderna.
Mariana Enriquez transporta terror de seus livros para s�rie na Netflix
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