O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entrou no segundo turno como azarão, por ter ficado atrás de Flávio Bolsonaro (PL) na primeira rodada, e saiu com uma vitória expressiva, dada a amplitude da vantagem que impôs sobre o seu adversário. A solidez de sua votação, contudo, não lhe garantirá trânsito fácil no Congresso Nacional. Ao contrário, o petista encontrará um Legislativo a princípio hostil. Os blocos que lhe farão oposição serão maiores do que os atuais tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado, em decorrência da expansão do PL, dono das maiores bancadas nas duas Casas. Penoso do ponto de vista do governo, esse contraste de forças não deixa de ser bem-vindo para a sociedade, já que obrigará o presidente a buscar pautas legislativas menos controversas e, sobretudo, nomes mais consensuais para a ocupação de vagas que dependem de aval do Senado. Propostas de emenda à Constituição, por exemplo, dificilmente avançarão com um DNA 100% petista, em especial no campo econômico. Indicações de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), por sua vez, encontrarão, logo de saída, a resistência de 29 senadores do PL e 3 do Novo —apenas 9 a menos do que o necessário para derrubar a nomeação. Esse entrechoque será negativo, contudo, se a agenda da oposição se converter em um esforço para bloquear o governo; se, em vez de contribuir para uma resultante moderada do encontro de vetores à esquerda e à direita, essa situação levar a uma paralisia perniciosa para o país. Lula, com a experiência acumulada em três mandatos presidenciais, deveria saber disso melhor do que ninguém. E, como nas demais vezes que se instalou no Palácio do Planalto, precisará compor alianças a fim de conquistar um mínimo de governabilidade. As movimentações nesse sentido já começaram e se intensificarão nas próximas semanas, graças a uma confluência de interesses: partidos do centrão perderam espaço com o crescimento do PL nestas eleições e esperam que, aliando-se ao Executivo, possam preservar influência e poder. Siglas como PP, Republicanos e União Brasil consideram que, por não terem apoiado Flávio no primeiro turno, poderão ingressar no governo desde o começo, sem constrangimentos. Para isso, negociam, como contrapartida, o controle de alguns ministérios. Nada haverá de errado se as tratativas avançarem nessa toada: partidos compõem a base governista no Congresso e, em troca, exercem o comando de algumas políticas públicas do Executivo. O histórico do PT e do centrão, porém, recomenda doses máximas de ceticismo diante dessas promessas e de vigilância quanto aos próximos passos. É um mau sinal, assim, que Lula queira condicionar o espaço nos ministérios a uma fidelidade canina às pautas governistas. Se é verdade que a base deve apoiar o Executivo, este deveria se mostrar aberto a debater sua agenda, e não ávido por fazê-la prevalecer. editoriais@grupofolha.com.br
Lula 4 precisa moderar pautas diante de Congresso hostil
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