O chefe do Executivo de Hong Kong, John Lee, pediu perdão nesta quinta-feira (29) por um incêndio fatal ocorrido no ano passado e anunciou a renúncia de sua secretária de Habitação, Winnie Ho, em uma tentativa de prestar contas por uma tragédia que provocou indignação e criou um desafio político para seu governo, apoiado pela China. "O incêndio nos trouxe tristeza e sofrimento", disse Lee em uma entrevista coletiva. Ao lado de outros sete integrantes do governo, Lee fez uma reverência à imprensa presente e acrescentou: "Peço desculpas". O gesto chamou a atenção por partir de um governo que rapidamente reprimiu manifestações de opinião nas semanas seguintes ao incêndio, que matou 168 pessoas no conjunto habitacional Wang Fuk Court, no norte de Hong Kong, em novembro do ano passado. O líder, contudo, também defendeu enfaticamente o governo durante uma tensa sessão de perguntas e respostas nesta quinta-feira, ao ser questionado várias vezes sobre sua própria responsabilidade. A renúncia da secretária de Habitação foi a primeira de uma alta autoridade após meses de questionamentos sobre a responsabilidade dos líderes de Hong Kong. Lee evitou culpá-la diretamente, acrescentando que "o incêndio não envolveu nenhuma conduta imprópria pessoal por parte da secretária", mas afirmou que ela deveria "assumir a responsabilidade política". Ele atribuiu o incêndio sobretudo ao conluio e à corrupção no setor da construção civil, afirmando que pessoas do ramo ligadas a grupos do crime organizado conhecidos como tríades haviam sido responsáveis por obras de reparo de má qualidade que antecederam a tragédia. Lee disse que o governo responsabilizaria criminalmente qualquer pessoa considerada culpada de fraudar uma licitação de obras. Os sete edifícios atingidos pelas chamas passavam por reparos exigidos pelo governo e estavam cobertos por telas de proteção que, posteriormente, se constatou serem de qualidade inferior à exigida. As autoridades disseram que essas telas e a espuma de poliestireno usada para proteger as janelas foram responsáveis pela rápida propagação do fogo, que ardeu com tamanha intensidade que milhares de bombeiros levaram dois dias para extingui-lo. China, terra do meio Receba no seu email os grandes temas da China explicados e contextualizados Durante meses antes do incêndio, moradores haviam manifestado preocupação com a segurança das telas e de outros materiais, além de reclamar de trabalhadores que fumavam perto dos entulhos da obra. Na entrevista coletiva desta quinta-feira, Lee prometeu reformular e alterar as normas de manutenção predial e anunciou uma força-tarefa interdepartamental para combater fraudes em licitações, com a participação de autoridades da polícia e da agência anticorrupção da cidade. Durante uma hora, Lee respondeu a perguntas de veículos de imprensa locais sobre se deveria ser responsabilizado e se deveria ter se desculpado um ano antes, logo após o incêndio. A situação evidenciou a pressão sobre Lee para demonstrar que seu governo continua no controle de uma crise dessa dimensão, mesmo com Hong Kong submetida a uma supervisão maior de Pequim após uma reestruturação política. Lee também divulgou nesta quinta-feira o primeiro relatório oficial de uma investigação sobre a tragédia. O documento, compilado em dois volumes com mais de 1.100 páginas, resultou de uma investigação conduzida por uma comissão nomeada pelo governo. O painel apresentou seu relatório final a Lee na semana passada, após meses de audiências e deliberações que revelaram graves falhas de supervisão e omissões por parte dos órgãos encarregados de fiscalizar o setor da construção civil. O relatório mencionou a descoberta de consultores e empreiteiras com "antecedentes duvidosos", incluindo vínculos com tríades, e uma "prática disseminada, sistêmica e de longa data" no setor da construção para "manipular o resultado" de licitações públicas. Segundo o documento, muitos proprietários "não têm o conhecimento técnico" necessário para tomar decisões bem fundamentadas, o que os torna vulneráveis à manipulação de licitações. O relatório do governo destacou quatro órgãos públicos por sua falta de fiscalização: o Departamento de Serviços de Incêndio, o Departamento de Edificações, o Departamento do Trabalho e a Unidade Independente de Verificação, que Ho supervisionava como chefe da autoridade habitacional. Embora algumas reclamações anteriores de proprietários do Wang Fuk Court tenham levado as autoridades a inspecionar o local e até a emitir advertências e autuações à empreiteira, os órgãos governamentais não promoveram mudanças que poderiam ter evitado o incêndio devastador. Em determinado momento antes da tragédia, uma autoridade disse aos moradores que o risco de incêndio decorrente das telas ao redor dos andaimes era "relativamente baixo". Em junho, o governo acusou sete pessoas e duas empresas de 25 crimes, incluindo homicídio culposo, conspiração para fraudar, lavagem de dinheiro, tentativa de obstruir o curso da Justiça e evasão fiscal. Foram as primeiras acusações apresentadas após a investigação. O Wang Fuk Court, construído em 1983, abrigava mais de 4.900 moradores, muitos deles de famílias da classe trabalhadora que haviam comprado seus apartamentos subsidiados por meio de um programa habitacional do governo. Em 2016, o governo determinou que os proprietários consertassem as fachadas dos edifícios e substituíssem portas e equipamentos antigos para adequar tudo às normas, como parte de um programa municipal que exigia que prédios mais antigos passassem por inspeções e reparos. Mas o programa também se mostrou permeado pela corrupção. Segundo o relatório, empreiteiras e consultorias se organizaram em cartéis para conquistar contratos lucrativos. O governo já tinha conhecimento do potencial de corrupção quando os moradores receberam a notificação oficial para a realização das amplas obras de reparo. Para algumas das pessoas da comunidade afetada pelo incêndio, o pedido de desculpas de Lee e os esforços para evitar uma tragédia semelhante não foram suficientes. "O governo ainda precisa explicar as responsabilidades em cada nível, como as conclusões da investigação serão divulgadas e como as reformas serão implementadas", disse Herman Yiu Kwan-Ho, ex-conselheiro distrital. "O que importa para mim é se os moradores acabarão recebendo respostas claras, apoio concreto e salvaguardas que funcionem na prática."
L�der de Hong Kong pede desculpas e admite falha do governo ap�s um ano do inc�ndio que matou 168 pessoas
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