O ex-presidente do Paraguai Santiago Peña teve a prisão preventiva decretada neste sábado (7), após ser acusado de envolvimento em uma crise bancária que deixou milhões de correntistas sem acesso a seus depósitos e provocou uma onda de protestos no país. Ele sofreu impeachment na sexta-feira (6). O juiz responsável pelo caso considerou que há risco de fuga do ex-presidente. A defesa, porém, contesta essa avaliação e afirma que não há elementos que indiquem a possibilidade de ele deixar o país ou de obstruir as investigações. Argumenta também que Peña já não ocupa a Presidência. O ex-líder paraguaio é investigado por suposta lesão de confiança e administração em proveito próprio num inquérito sobre irregularidades no Ueno Bank, o principal banco digital do país e cujo grupo controlador teve o ex-presidente como acionista até 2025. Mais cedo, o Ministério Público havia pedido a prisão preventiva de Peña e o bloqueio de seus bens. Após audiência com o ex-presidente e seu advogado, o juiz Humberto Otazú acolheu o pedido e determinou a detenção. Segundo o magistrado, o político ficará detido no Regimento de Escolta Presidencial, em Assunção, onde já havia passado a noite de sexta. Na véspera, Peña havia sido detido em sua residência, nas imediações da capital paraguaia. Sua destituição coroou uma semana turbulenta, marcada pelo escândalo de fraudes envolvendo o Ueno Bank, que antes da crise tinha 2,9 milhões de clientes —o país tem cerca de 7 milhões de habitantes. Cercanías A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo Já na madrugada, manifestantes que se reuniam nas proximidades do imóvel em protesto levaram as autoridades do país a transferir o político para o Regimento Escola Presidencial, que fica em meio a outras unidades militares no bairro Ciudad Nueva. A advogada Macarena Chilavert, 38, protestava em frente ao prédio do Ministério Público enquanto Peña prestava depoimento. "Tenham medo do povo paraguaio, o povo precisa ter memória e castigar esses corruptos nas próximas eleições. Eu não votei nesse economista, que diziam que era um gênio e agora está detido", disse ela em um megafone. O funcionário público Carlos Sosa, 69, também saiu de sua casa, próximo do prédio do órgão público. Ele segurava um cartaz improvisado com a frase "Um por um, todos têm que cair". "Estou indignado e vim protestar, pois não é só Peña, são todos eles desse grupo", afirmou. "Tive depósitos no Ueno, saí por ter percebido que havia algo estranho ali. Era muito dinheiro que ninguém sabia de onde vinha", afirmou. Peña é acusado de favorecer o Grupo Vázquez, controlador do Ueno, e de se omitir na fiscalização da instituição pelo Banco Central. Segundo a investigação, ele também teria interferido de forma indevida no órgão responsável pela administração dos recursos destinados às aposentadorias e à saúde dos trabalhadores. O Ueno Bank mantinha quase R$ 4,5 bilhões em recursos públicos, incluindo verbas da Previdência. Além do bloqueio de contas bancárias, depósitos, investimentos e outros ativos financeiros, os promotores solicitaram diligências para localizar imóveis, veículos, participações societárias e outros bens registrados em nome de Peña. A destituição ocorreu depois que Peña perdeu o apoio de seus próprios correligionários do Partido Colorado. Foi a segunda vez desde o retorno da democracia que um presidente paraguaio foi afastado por impeachment. Com a saída de Peña, o então vice-presidente Pedro Alliana assumiu a Presidência na sexta. Também integrante do Partido Colorado, ele terá mandato até agosto de 2028. Ao assumir a Presidência, Alliana prometeu indenizar os impactados pelo que chamou de um "desastre financeiro", com prioridade para os clientes de menor renda. O Banco Central informou neste sábado que já havia devolvido parte dos depósitos a quase 1,2 milhão de clientes e que o processo continuaria ao longo da próxima semana. A instituição também divulgou uma lista de bancos que funcionariam durante o fim de semana. Em seu primeiro dia completo no cargo, Alliana fez reuniões com ministros e anunciou mudanças no gabinete. Entre elas, nomeou Ariel Martínez para o Ministério do Interior e designou um novo titular para a pasta de Obras Públicas. O novo presidente cobrou rapidez na resposta à crise. "Não quero ninguém hesitante à frente desta missão. Quero resultados", afirmou na sexta, durante a cerimônia de posse. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo A crise também provocou manifestações diplomáticas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) parabenizou Alliana e manifestou disposição para trabalhar com o novo governo de maneira aberta, franca e cooperativa. O líder brasileiro também manifestou o desejo de recebê-lo em breve em Brasília. A embaixada dos Estados Unidos classificou o Paraguai como um "parceiro estratégico regional" e defendeu a continuidade do trabalho conjunto com o governo de Alliana.
Justi�a do Paraguai decreta pris�o preventiva de Santiago Pe�a ap�s impeachment
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