Juros altos e economia mais fraca pressionam balan�os do 3� trimestre

Juros altos e economia mais fraca pressionam balan�os do 3� trimestre

São Paulo A temporada de balanços do terceiro trimestre das empresas brasileiras que começa nesta terça-feira (20) deve mostrar os desafios enfrentados por elas em um ambiente de juros altos e de desaceleração da economia, segundo analistas consultados pela Folha. Para a maioria das companhias, a expectativa é de desempenho fraco ou com viés negativo, misturando números bons com outros ruins. Não há projeção de melhora generalizada de lucros na comparação com igual período do ano passado, exceto para algumas das maiores empresas do Ibovespa, como Petrobras e Sabesp e alguns bancos. A Selic em queda, mas ainda na casa dos dois dígitos, deve continuar pressionando o endividamento e as margens de lucro das companhias voltadas ao mercado doméstico e afetar setores cíclicos como o varejo. Para os bancos, a inadimplência e a restrição de crédito podem impactar, também, o desempenho. Cerimônia de batismo da plataforma FPSO P-80, da Petrobras, em Singapura; companhia deve reportar lucro acima de R$ 42 bilhões no terceiro trimestre, segundo consenso da Bloomberg - Edgar Su - 27.ago.26/Reuters Empresas de petróleo, energia e infraestrutura devem se destacar positivamente pela maior resiliência de seus resultados e pelo preço do barril do Brent, que terminou o trimestre acima dos US$ 100 e impulsionou o setor de óleo e gás. O lucro líquido acumulado das dez empresas com maior peso na carteira teórica do Ibovespa deve crescer 16% no terceiro trimestre de 2026, em comparação com igual período do ano passado, segundo levantamento da Folha com base em dados da consultoria Elos Ayta e estimativas colhidas pela Bloomberg. Na comparação com o segundo trimestre os ganhos devem recuar 10%. O cálculo considera os lucros líquidos contábeis das empresas que compunham o top 10 do Ibovespa no fechamento do trimestre analisado, excluindo a Itaúsa, holding que controla o Itaú Unibanco. No caso da temporada de balanços que se inicia neste mês, considera-se a carteira do Ibovespa em 30 de setembro de 2026, com as seguintes empresas no top 10: Vale, Itaú Unibanco, Petrobras, Axia Energia (ex-Eletrobras), Sabesp, Bradesco, B3, BTG Pactual, Weg e Embraer. A comparação com o terceiro trimestre de 2025 é afetada pelo prejuízo de R$ 5,45 bilhões reportado pela Axia Energia naquele período, relacionado ao reconhecimento contábil de despesas e perdas com vendas de ativos, especialmente a participação na Eletronuclear. Sem esse efeito, a Axia teria registrado lucro líquido de R$ 2,2 bilhões. Ainda assim, a projeção com base nos consensos da Bloomberg apontaria para um lucro 5% maior do top 10 do Ibovespa (excluindo Itaúsa) neste terceiro trimestre de 2026. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisõesEFEITO DOS JUROS A redução na taxa de juros, que foi de 14% para 13,75% na última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) não deve ter efeito imediato sobre os resultados das companhias. Os especialistas afirmam que o impacto da política econômica sobre os balanços ocorre com maior defasagem. "É preciso compreender que o efeito da queda de juros é gradual e exige melhores condições financeiras gerais —não apenas o alívio nas taxas, mas um ambiente com inflação controlada, previsibilidade e atividade econômica estável", diz Raphael Figueiredo, estrategista de renda variável da XP Investimentos. Além disso, a taxa de juros acima de 13% mantém pressionados o custo das dívidas e as despesas financeiras das companhias. O impacto disso deverá ser visto principalmente nos resultados dos chamados setores cíclicos —aqueles cujo desempenho financeiro está mais atrelado às oscilações econômicas e ao poder de compra—, como o varejo. Relatório do Itaú BBA sobre varejistas, publicado em 15 de outubro, mostrou aumento de 0,1% das vendas no varejo ampliado em agosto, se comparado ao mesmo mês em 2025. Apesar de positiva, a oscilação é bem menor do que os 2,3% projetados pelo banco. Em um momento de retração do poder de compra, as companhias do chamado varejo discricionário, isto é, o que vende produtos não essenciais, tendem a sofrer mais em relação a quem comercializa itens indispensáveis. O analista Ruy Hungria, da Empiricus, cita as farmacêuticas como exemplo de varejo mais resiliente. Segundo ele, esse setor tende a ser menos cíclico do que uma empresa de vestuário, por exemplo, por vender itens cuja restrição do consumo é mais difícil. "Mesmo em períodos difíceis de retração econômica, juros elevados, as pessoas continuam precisando tomar remédio", diz. Além disso, Hungria vê a popularização das canetas emagrecedoras como um vento favorável às empresas de farmácia. Conforme o relatório do Itaú, a venda de artigos farmacêuticos em agosto de 2026 foi 4,8% superior à do ano anterior, 0,4 ponto percentual acima do previsto pelo banco. IMPULSO DO PETRÓLEO O desempenho mais positivo da temporada deve vir das empresas de energia e infraestrutura. O consenso de estimativas da Bloomberg colhido nesta segunda-feira (19) aponta que a Petrobras deve registrar lucro líquido de R$ 42,5 bilhões no trimestre, quase R$ 10 bilhões acima dos R$ 32,7 bilhões registrados no período homólogo de 2025. O setor petroleiro, da produção à distribuição, tem se beneficiado da alta do petróleo causada pela guerra no Irã. Com o preço elevado do barril, as companhias têm aumento na margem de lucro. Além disso, é uma área que apresenta estabilidade de consumo. Gustavo Bertotti, head de renda variável na Fami Capital, demonstra preocupação caso o barril de petróleo siga com valor elevado no mercado estrangeiro. "Por mais que o Brasil exporte petróleo e tenha um ponto positivo pela balança comercial, ele importa muita inflação", afirma. A dependência de tecnologia e o custo logístico alto são citados por ele como pontos de atenção.

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