Enquanto embalava válvulas cardíacas em uma fábrica em Contagem, na grande Belo Horizonte, Cecília Olliveira ouvia no rádio de pilha o programa Polícia e Notícia, da Rádio Itatiaia. "Eu comecei a ser repórter ali, ávida por histórias", relata a jornalista investigativa que bancou seus estudos como operária dos 16 aos 22 anos. O salário mínimo se somava a cestas básicas da Igreja Batista Nova Aliança, fundada e liderada pela mãe. Adolescente, Cecília emprestou seu nome para a constituição do CNPJ da congregação. Seu cotidiano era ditado pela dureza financeira e pela conversão materna após a morte do pai em um acidente de carro, aos 39 anos. "Lembro da gente contando moeda para conseguir comprar o pão." Os churrascos e as festas de fim de semana cederam lugar a regras severas: "Não podia mais beber, dançar nem se misturar com quem não era crente". Essas vivências na periferia, no universo evangélico e na desigualdade moldaram sua trajetória e sua leitura do Brasil. Aos 46 anos, ela é uma das vozes mais potentes sobre segurança pública no país, como fundadora da Fogo Cruzado, maior plataforma de dados abertos sobre violência armada da América Latina. Uma jornada que exigiu resiliência e ousadia. Para cursar a faculdade na Uni-BH, Cecília rodava cerca de 50 quilômetros diários. "Era tudo muito longe, horas e horas de ônibus. Ia ao banheiro no trabalho para cochilar." Seu primeiro estágio em jornal foi na Igreja Batista da Lagoinha, que décadas depois ganharia manchetes devido a investigações sobre transações milionárias envolvendo círculos próximos ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. "Eu almoçava lá com minha mãe, que fazia um curso para lideranças religiosas, e me indicaram para escrever no jornalzinho deles." Formada, fez pós em Criminalidade e Segurança Pública na Universidade Federal de Minas Gerais e em Teologia, ao lado da mãe. Enquanto morava com a família, a jovem vivia no entra e sai da igreja, sempre em choque com os dogmas. "Só saí 100% quando fui para o Rio", diz. "Hoje, sou agnóstica." Seu diploma como teóloga foi obtido com uma tese sobre perdão. Pregou diante da banca usando como exemplo o caso Champinha, menor condenado pelos assassinatos de Liana Friedenbach (16 anos) e Felipe Caffé (19 anos) em 2003. Após ser demitida de uma assessoria de imprensa, a mineira se muda para o Rio com a cara e a coragem, decidida a mergulhar na cobertura policial e de direitos humanos. Conseguiu emprego no Observatório de Favelas e na cobertura da UPP Social. Começa a escrever o blog "Arma Branca", que entrou no radar do jornalista Andrew Fishmann, 38. O americano estava no Brasil pesquisando sobre segurança pública. "Ele não falava português nem eu, inglês. A gente se virou no 'mimiquez'." O inglês melhorou depois de uma temporada de cinco meses em Nova York mergulhada das 8h às 20h em cursos gratuitos em igrejas e centros comunitários. Já o papo inicial com o gringo rendeu. "Desde então são 15 anos juntos", diz ela sobre o casamento sem filhos, mas com quatro gatos. O casal cofundou o Intercept Brasil, braço local da agência criada por Glenn Greenwald. Na mesma época, Cecília lançava as bases do que seria o seu principal cartão de visitas, como idealizadora da Fogo Cruzado. Se não existisse o Fogo Cruzado, não teríamos informação sobre balas perdidas e chacinas policiais no Brasil. E a produção de dados de segurança pública pela sociedade civil é decisiva A faísca para criar a plataforma que viraria referência no debate sobre violência armada surgiu em 2015, quando ela se deparou com uma manchete do jornal Voz das Comunidades: "O Alemão está há 100 dias sob tiroteio". Cecília já havia constatado a ausência de informações confiáveis sobre o fenômeno quando o britânico Misha Glenny a contratou para fazer a pesquisa para o livro "O Dono do Morro", que usa a ascensão e queda do traficante Nem da Rocinha para ilustrar um Rio de Janeiro conflagrado. Diante do apagão de dados oficiais, Cecília começou em 2016 a computar manualmente em seu perfil no Facebook relatos das rotineiras trocas de tiros na Cidade Maravilhosa disputada por crime organizado e milícia. "É preciso ser um pouco louca para acreditar em coisas que outras pessoas nem tentariam. E foi assim que Cecília conseguiu fazer esse projeto ganhar escala e se tornar algo grandioso", avalia o marido, diante da "loucura" de computar sozinha os números dessa guerra. Meses depois, a persistência resultou no primeiro aporte financeiro da Anistia Internacional. Nascia ali o Instituto Fogo Cruzado. O que começou como uma contagem informal se converteu em uma infraestrutura cívica robusta presente em quatro estados (Rio, Bahia, Pará e Pernambuco) e 57 municípios. "Não é só contar tiros. É dar consistência técnica para que o dado se reverta em mudança estrutural e na proteção de vidas", resume Mariana Araújo, diretora de comunicação e primeira funcionária do instituto. A plataforma processa dezenas de indicadores, como 5.846 tiroteios em 2025, com 3.781 mortos e 1.684 feridos, e sustenta incidência política. "Cecília tem uma visão muito adiantada de como contribuir para a construção de políticas públicas e de mobilizar pessoas", diz Mariana. "Se não existisse o Fogo Cruzado, não teríamos informação sobre balas perdidas e chacinas policiais no Brasil. E a produção de dados de segurança pública pela sociedade civil é decisiva." Dados da plataforma respaldaram a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 635, a "ADPF das Favelas", contra a letalidade policial no Rio. O resultado foi a redução em 70% de mortes em operações policiais no estado e a recomendação do Ministério Público Federal que reconheceu a violência armada como violação do direito à educação. A medida impulsionou diretrizes nacionais para proteger escolas e estudantes durante confrontos armados. Com 50 funcionários e parcerias universitárias, o instituto desenvolve o Mapa Histórico dos Grupos Armados do RJ, sobre o controle territorial de facções e milícias. O Fogo Cruzado ganhou destaque no debate público. Vídeo de Cecília sobre a operação na Penha e no Alemão, com 121 mortos em outubro de 2025, teve 4 milhões de visualizações. Ela navega o fogo cruzado ideológico e dirige mensagens a bolsonaristas favoráveis ao armamento. Na linha de frente literalmente, ela precisa se preocupar com segurança pessoal. "É complicado sendo mulher e morando no Rio", admite Cecília. Ameaças de morte chegam pelas redes sociais e por email. "Já recebi ameaça de estupro, que registrei na delegacia e não deu em nada." Ao final de uma reunião com agentes da inteligência do Governo do Rio de Janeiro, um delegado lhe disse: "Você é muito corajosa". "Não sei se foi um elogio ou um alerta. Pode ser uma coisa ou outra", pondera. "Minha visibilidade é um escudo." Fogo Cruzado em Números 22 milhões de pessoas são cobertas pelo serviço de mapeamento de dados e alertas de tiros em tempo real 57 municípios são monitorados pelo Fogo Cruzado nas regiões metropolitanas de Rio de Janeiro, Recife, Salvador e Belém 70% dos homicídios no país são assassinatos com uso de armas de fogo; em 2024, foram 29.773 mortes desta forma no Brasil 300 mil downloads foram realizados do aplicativo colaborativo para notificação de tiroteios R$ 4 milhões é o orçamento projetado pela organização para manutenção das atividades de dados abertos em 2026
Jornalista traduz em dados a viol�ncia armada e seus impactos no Brasil
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