O Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) determinou nesta sexta-feira (23) a musealização integral de novos achados arqueológicos durante a implantação da estação 14 Bis-Saracura, da linha 6-laranja de metrô, no Bixiga, região central de São Paulo. A decisão está em ofício à Linha Uni, responsável pela obra e liderada pela multinacional espanhola Acciona. Especialistas apontaram indícios de que as estruturas e os objetos encontrados em junho no local sejam de um antigo local de culto de religião afro, possivelmente de um terreiro de candomblé. Desse modo, a concessionária deverá apresentar proposta que viabilize a musealização integral das estruturas. Ou seja, uma eventual incorporação à obra ou retirada para remontagem em outro local dependerá de aval do instituto, por exemplo. A deliberação ocorreu após reunião com o MPF (Ministério Público Federal), na qual também foi determinada a paralisação da remoção de achados arqueológicos na área das estruturas —o que havia sido autorizado pelo instituto em setembro, mediante o registro e a coleta de amostras. Procurada pela Folha, a Linha Uni respondeu que acompanha os desdobramentos e que segue rigorosamente as determinações do Iphan. Também reforçou manter diálogo com os órgãos envolvidos, respeitando as decisões técnicas e administrativas necessárias à preservação. A incorporação do sítio arqueológico à estação é reivindicada há anos pela Mobiliza Saracura/Vai-Vai. O grupo tem destacado experiências semelhantes em diversos países, como na Grécia, na Argélia, na Espanha, na Itália e no México. Em recente manifestação sobre o tema, o movimento defendeu que as novas descobertas reafirmam a importância de implantar a primeira estação metroferroviária musealizada no Brasil. "A população tem direito tanto ao transporte quanto à memória, e um não deve sobrepor ao outro", diz o grupo. Concessionária apontou retirada de estruturas como essencial para obra Os achados do possível espaço de culto ocorreram na chamada "área 6" da obra, a qual a Linha Uni havia apontado como essencial para a continuidade dos trabalhos. Portanto, não haveria a possibilidade de flexibilização da etapa atual para outro dos sete trechos. Em material enviado ao Iphan em setembro, a concessionária apontava que o prosseguimento depende da conclusão da pesquisa e da remoção das estruturas da área 6. "A adoção de uma sequência distinta poderá comprometer as frentes de trabalho e aumentar significativamente os riscos construtivos, incluindo alagamentos no interior da escavação, instabilidade do terreno, erosões, carreamento de solos e materiais, assoreamento das redes de drenagem e impactos sobre as edificações e infraestruturas lindeiras", justificou. Segundo a documentação, os trabalhos deveriam ocorrer a partir da área 6 por suas características geológicas e por ser a mais elevada. Logo, a construção teria função de contenção e estabilização da vala, assim como para controle do escoamento da chuva. No documento, a concessionária havia se comprometido a realizar as remoções com a presença de autoridade religiosa, para orientações sobre coleta, armazenamento e identificação. Desse modo, no momento de novos achados, haveria paralisação temporária até a chegada da ialorixá. O Iphan tem destacado, contudo, que atrasos no empreendimento não podem ser atribuídos ao instituto, visto que o Bixiga é historicamente reconhecido por seu elevado potencial arqueológico. Em nota de setembro, salientou que a identificação de vestígios arqueológicos durante implantação de obra de grande porte não constitui fato inesperado, mas possibilidade que deve ser considerada no planejamento. O que foi encontrado Os vestígios estavam em um cômodo a 2,2 metros de profundidade, onde havia montinhos de anil, cavidade para deposição de objetos, feixe de gravetos amarrados e outros elementos tradicionalmente utilizados em algumas religiões de matriz africana, como no candomblé. A descoberta foi feita em junho, durante o acompanhamento da obra pela A Lasca, consultoria contratada pela concessionária. Consultora especializada em religiões afro-brasileiras que havia visitado o local apontou que o martelo e um artefato semelhante a prego encontrados chumbados no chão são possivelmente referências às divindades Ogum e Exu. Isto é, sinalizam que se trataria de um espaço de culto. Os achados podem ter relação com quilombo que teria existido às margens do córrego Saracura Grande desde o século 19. No cômodo, também foram identificados ossos bovinos e suínos, ovo de galinha fragmentado e conta de vidro verde. O anil é tradicionalmente utilizado para purificação e proteção no candomblé, enquanto o feixe de gravetos poderia ser um atori, uma vara sagrada utilizada em rituais. Até março de 2026, foram encontradas cerca de 110 mil peças no sítio, como fragmentos de metais, ossos e cerâmicas. "As pesquisas estão revelando materialmente parte da história que já se sabia existir naquele território", completou o Iphan no comunicado. A estação 14 Bis-Saracura é a mais atrasada no cronograma das obras da parcialmente inaugurada linha 6-laranja, com 15,55% dos trabalhos em último balanço público da concessionária. O espaço deve alcançar 38,33 metros de profundidade.
Iphan manda preservar estrutura de poss�vel terreiro afro encontrada em obra de metr� de SP
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.