Interven��o do governo no mercado de carbono deve ser m�nima, diz CEO da Mombak

Interven��o do governo no mercado de carbono deve ser m�nima, diz CEO da Mombak

São Paulo O governo federal deve interferir o mínimo possível no mercado regulado de créditos de carbono, diz Gabriel Haddad Silva, CEO e cofundador da Mombak, uma das principais empresas do ramo no país, em entrevista ao C-Level. Criada em 2021, a companhia atua com reflorestamento de pastos degradados na amazônia e planeja alcançar 27 mil hectares sob gestão até o final deste ano, com a compra da 14ª fazenda no Pará. A empresa declara ter alocado cerca de R$ 1,5 bilhão para a remoção de carbono da atmosfera e plantado quase 15 milhões de árvores. "Quanto mais intervenção do governo, mais incerteza a gente vai passar para os investidores, maior o preço vai ser para os clientes, menor o desenvolvimento do setor no Brasil e pior para o país", afirma Silva, que é ex-diretor financeiro do Nubank. "O ideal para a gente seria participar de um mercado que seja o mais livre e com a menor intervenção possível do governo." Gabriel Haddad Silva, CEO da Mombak, empresa brasileira de remoção de carbono - Edme Neto/Divulgação Mombak O Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões, nome do mercado de carbono no país, foi criado por lei em 2024 e depende de regulamentação para entrar em vigor. O mecanismo precifica as emissões de gases de efeito estufa de empresas com operações no Brasil, e o texto estabeleceu até cinco anos para o início da operação. Será preciso definir quantos créditos o país poderá vender a outras nações, conforme as regras do Acordo de Paris, tratado internacional de combate às mudanças climáticas. Esse é um dos pontos mais sensíveis para as empresas do setor, que dizem depender de grandes investimentos estrangeiros para financiar projetos. Em julho, o governo Lula (PT) apresentou consulta pública de uma resolução para restringir a exportação a 50 milhões de toneladas de CO2e (dióxido de carbono equivalente) de 2031 a 2035, além de um teto de 50% dos certificados gerados por projeto. A preocupação do governo é evitar uma "fuga" de créditos ao exterior, uma vez que os certificados vendidos não contarão para a meta climática doméstica, e sim para a da nação que os comprar. A proposta provocou uma onda de críticas das empresas, que afirmaram temer perda de competitividade com os limites sugeridos. A versão final do texto ainda não foi divulgada. "Poucos países estão tão bem posicionados quanto o Brasil para conseguir acessar o mercado, criar uma indústria local, exportar créditos de remoção de carbono, de diversas soluções de alta qualidade, com preços atrativos para atender à demanda global", afirma o executivo. Silva diz apoiar regras de exportação definidas caso a caso. "O ideal seria não olhar para o setor como um todo, de forma única, mas entender quais são as soluções e as empresas que vão precisar de mais capital", disse. "Hoje a gente não tem nenhum cliente brasileiro, eu espero ter um dia e acho que teremos, obviamente, mas o nosso mercado está majoritariamente lá fora. Se só pudermos exportar um percentual limitado, não vai ser inteligente para ninguém, nem para a empresa, nem para o país." No mercado regulado, empresas que emitirem carbono acima do nível permitido precisarão compensar o excedente por meio da compra de créditos, o que deve destravar grandes investimentos. Atualmente, as vendas acontecem de forma voluntária. "A gente não precisa de centenas de milhões de dólares, a gente precisa de bilhões de dólares. E não vamos conseguir captar esses recursos dependendo apenas do mercado voluntário", afirma o CEO. Silva diz que a gestão Lula já identificou o potencial do mercado de carbono. "Estamos em um momento crítico de entender como vai ser o estabelecimento dos mercados regulados, quais serão as regras e qual o prazo", afirma. "Essa urgência demanda do governo mais clareza e velocidade para entender como que a gente vai poder atuar dentro do mercado regulado, que é o grande mercado pelo qual a gente montou a empresa. Não montamos a empresa para conviver no mercado voluntário pelo resto da vida." O próximo presidente terá papel importante na continuidade da regulamentação do mercado, que prevê etapas em 2027, 2029 e 2031. O executivo diz acreditar que qualquer administração futura vá entender o caráter estratégico do assunto. "Já passamos por mudanças de governo no passado, não acho que uma mudança dessa vez vá impactar negativamente a importância do setor e como ele é visto dentro das prioridades do país", afirma. "O que a gente precisa é continuar o diálogo, seja com quem for." Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes.No último mês, a Mombak confirmou seus primeiros 21,7 mil créditos de carbono, com validação da certificadora britânica Isometric. Os títulos foram entregues dois anos antes do previsto a um grupo de compradores, incluindo Google, McKinsey, Bain, Climeworks, Commons, McLaren Racing e Union Square Ventures. O momento também marcou a primeira vez em que a Isometric emitiu certificados baseados em remoção natural. Os créditos seguiram o novo protocolo de reflorestamento da certificadora, que exige o plantio de espécies nativas. Para Silva, a emissão foi um dos acontecimentos mais importantes do ano para a Mombak e o setor. "Foi uma surpresa muito positiva quando emitimos os primeiros créditos e vimos que tinha uma demanda enorme por eles", afirma. "Descobrimos que existe um mercado muito grande para créditos já emitidos e certificados. Até então, o nosso mercado era de empresas que assinavam compromissos de compra com pagamento futuro." O executivo diz que o fato de a remoção do CO2 já ter sido validada ajuda a atrair novos clientes. "Infelizmente, muitas empresas assinaram contratos há anos e hoje não estão entregando", diz. "Existe uma demanda muito grande para ativos que já não têm mais risco de execução." O CEO avalia que o abalo na confiança no mercado de carbono nos últimos anos, com denúncias de fraudes, impactou os ativos a nível global, mas que os negócios da Mombak estão mais protegidos. "A gente tem se beneficiado dessa crise, porque os compradores estão cada vez mais entendendo a diferença de qualidade entre produtos e buscando algo mais confiável." Silva diz que a empresa se prepara para captar mais recursos e deve anunciar novos clientes até o final do ano, incluindo empresas de fora do setor de tecnologia, que hoje predominam entre os compradores. Diversificar os clientes é uma estratégia para reduzir a dependência das compras de big techs no mercado voluntário —com guerras e instabilidades globais, as companhias revisam investimentos. "Mesmo esse mercado volátil, pequeno e concentrado, com algumas empresas saindo, já é muito maior do que toda a oferta de créditos de remoção de carbono, juntando a Mombak e todas as empresas do setor. Essa é a triste notícia para o planeta", afirma.

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