Iara Renn� rev� 'Arco' e 'Flecha' e critica plataformas

Iara Renn� rev� 'Arco' e 'Flecha' e critica plataformas

Dez anos depois de lançar "Arco" e "Flecha", Iara Rennó reencontra nos dois discos questões que seguem presentes em sua música: corpo, desejo, liberdade e matrizes afro-brasileiras. Para a cantora e compositora, os trabalhos têm energias distintas, mas complementares, e uma sonoridade que continua a dialogar com o presente. A artista retoma os álbuns de 2016 nesta sexta-feira (30), às 20h30, no Sesc Belenzinho, em São Paulo. O show terá participação de Curumin, parceiro de Rennó há 18 anos e coprodutor de "Flecha". A apresentação será dividida em dois blocos. Em "Arco", Iara canta e toca guitarra ao lado de Laura Santos, no clarone, e Bianca Predieri, a Bibeats, na bateria. "Flecha" amplia a formação, com baixo, guitarra, sopros e percussão, reunindo antigos e novos parceiros. A retomada do repertório também abre uma discussão sobre as condições de criação e circulação da música. Na entrevista à coluna Música em Letras, Rennó fala do espaço conquistado pelas mulheres e contesta a ideia de que as plataformas facilitaram a vida de artistas independentes. "São muitos obstáculos", disse a cantora. A pesquisa afro-brasileira que atravessa sua obra aparece de forma mais concentrada em "Oríkì", álbum indicado ao Grammy Latino em 2022, na categoria de melhor álbum de música de raízes em língua portuguesa. O projeto, lembra a artista, começou em 2009, antes de "Arco" e "Flecha". Rennó também recorda os aprendizados com a mãe, Alzira E, e com Itamar Assumpção, além dos encontros com Elza Soares. Leia, a seguir, a entrevista exclusiva que a artista concedeu à coluna Música em Letras. Folha - Dez anos depois, o que mudou na sua percepção sobre a relação entre "Arco" e "Flecha"? Você ainda os considera trabalhos opostos ou complementares? Iara Rennó - Eles têm energias bem diferentes, não exatamente opostas, mas complementares. Na sonoridade, isso é bem evidente. Em "Arco", eu toco guitarra, há uma verve rock e a formação é um "power trio" feminino. Já em "Flecha", me sinto mais "cantorazona de MPB", "crooner", e o acompanhamento é uma bandona, com sopros e percussão. Em ambos os casos, sou a principal compositora, mas a temática e a abordagem de cada um também diferem bastante. O mais interessante que tenho observado na retomada desses trabalhos é o quanto eles são atuais: o som é contemporâneo, dialoga com tendências do pop e também do lado B. Surpreendeu-me ver como o público estima esses álbuns, se recorda dos shows e do lançamento no Auditório Ibirapuera, com o show duplo. Esse retorno é muito gratificante. Folha - Como decidiu quais canções pertenceriam a cada disco? Houve alguma que poderia ter entrado em qualquer um dos dois? Iara Rennó - O desenho de cada disco foi muito orgânico. As faixas de "Arco" eram as que eu já tinha composto e tocava na guitarra, além daquelas que tinham um eu lírico mais íntimo, abordando questões existenciais, o feminino e a sexualidade. Eram também as mais estranhas, tortas, fora da curva. Essas estranhezas seriam exploradas sonoramente pelo "power trio" que idealizei na época: bateria, guitarra e o clarone envenenado, com pedais de efeito, no lugar do baixo. Já as músicas de "Flecha" são aquelas que, desde que nasceram, parecem pertencer ao cancioneiro brasileiro. O interessante é que, se naquela época soavam mais como lugar-comum, enquanto "Arco" soava mais ousado, hoje "Flecha" encontra um lugar que está sendo retomado pelo pop brasileiro, de Marina Sena e Liniker, por exemplo, em direção à canção. Foi o que observou Ava Rocha [ filha dos cineastas Glauber Rocha e Paula Gaitán], minha comadre, artista e pensadora que acompanhou essa história toda de pertinho. Folha - "Arco" volta ao palco com um novo trio. O que você procura preservar dos arranjos originais e o que deixa aberto às contribuições das novas parceiras? Iara Rennó - Primeiro, vamos falar um pouco das instrumentistas originais. Na bateria, Mariá Portugal era a mais novinha da banda DonaZica. Depois, acompanhou grandes artistas, como Zélia Duncan, mas sempre teve sua pesquisa própria. Mora na Alemanha há oito anos e já lançou dois trabalhos solo. Conheci Maria Beraldo, do clarone, na banda do Arrigo. Ela é uma instrumentista virtuose. Chamei as duas para formar esse trio. Algum tempo depois da nossa experiência, Maria também se lançou na carreira artística. Como elas estavam indisponíveis para o reencontro, tive que quebrar a cabeça. Chamei a multiartista Rubi Assumpção para a bateria e Laura Santos para o clarone, de novo duas artistas com trabalhos autorais. As duas têm menos da metade da minha idade, e dá para ver como curtem aprender esse repertório. Tem sido instigante para nós três, mas, para elas, é um desafio, pois esses arranjos apontam para um caminho bastante diverso de suas pesquisas até então. Para este show no Sesc Belenzinho, porém, por uma incompatibilidade de agenda, quem vai tocar bateria é Bibeats [Bianca Predieri], uma instrumentista que vem despontando na cena paulista e toca com Jadsa, Ana Cañas e Assucena, entre outras. Folha - A apresentação de "Flecha" reúne antigos e novos parceiros. Como esse encontro transforma o repertório? Há alguma canção que tenha ganhado outro sentido nos ensaios? Iara Rennó - Curumin, Lucas Martins, Cuca Ferreira e Daniel Verano, na bateria, no baixo, no saxofone barítono e no trompete, respectivamente, fazem parte da formação original. Badé também é da formação original, mas não tinha a data disponível e, por isso, será substituído por Victória dos Santos, percussionista, cantora e compositora que também integra outros projetos meus. Na guitarra, no lugar de Gustavo Cabelo, entrou Marcelo Dworecki, que já tinha feito algumas substituições na época do lançamento. Como a banda permanece quase a mesma, podemos dizer o mesmo da essência, talvez com o acréscimo do molho que a maturidade nos deu. Folha - Curumin dividiu com você a produção de "Flecha" e participa do show. Como vocês tomaram as decisões de produção do disco e o que essa parceria traz agora para o palco? Iara Rennó - Curumin é um gênio: toca tudo, compõe, canta e, como baterista, tem um suingue único. Trabalhamos juntos há 18 anos. Olha aí a maioridade dessa parceria! Começou quando o chamei para tocar no show de "Macunaíma". De lá para cá, esse encontro gerou diversos frutos, do álbum "Oríkì", em que ele gravou a maioria das baterias, às três músicas no álbum mais recente dele: "Estado de Choque", "Cigana Cigarra" e "Oh Mãe". Em "Flecha", antes de tudo, ele me ajudou na seleção das músicas —havia outras que ficaram de fora. Depois, escolhi o time, o que já deu a direção da sonoridade. No estúdio, ele foi fundamental para selecionar as melhores gravações de instrumentos e vozes, escolher timbres, tocar, adicionar "samplers" e texturas. Gosto muito de trabalhar em dupla na produção, porque tenho com quem bater a bola. Uma segunda opinião, um concordar ou discordar fazem toda a diferença no resultado final. Tem dia em que o ouvido está mais cansado, e o outro responde melhor, e por aí vai. O que trazemos para o palco agora é a prova dessa cumplicidade, dessa parceria madura e da sonoridade original do álbum que estamos celebrando. Sem ele na bateria e na voz, seria totalmente diferente. É um grande privilégio para mim e, creio, para todos que estiverem presentes. Folha - As canções de "Arco" abordam corpo, desejo e liberdade. Há versos que você interpreta de outra maneira hoje, depois das experiências vividas nesses 10 anos? Iara Rennó - Acho que tudo continua bastante atual. Em "Arco", a maioria das músicas resulta de poemas eróticos meus, publicados no livro "Língua Brasa Carne Flor", que lancei em 2015, numa pequena edição já esgotada. É o caso de "Mama-me", "No Silêncio" e "Meus Vãos". Temos também um poema de Alice Ruiz que deu origem à música "Vulva Viva". Já "Corpo Selvagem", apesar do título, não tem uma abordagem erótica, e sim mais antropológica, existencialista. Surgiu a partir de trechos de um texto do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. "Sonâmbula" é só uma provocação bem-humorada. Folha - Desde a gravação de "Arco", o que mudou nas condições de trabalho e no reconhecimento das mulheres como instrumentistas e produtoras? Que barreiras você ainda identifica? Iara Rennó - Vou até mais para trás, quando comecei na música autoral com a banda DonaZica, que tinha cinco mulheres, enquanto o número de homens variava de três a cinco. Era uma banda com forte presença feminina, sobretudo de compositoras e líderes de banda. Naquela época, no início dos anos 2000, isso era bem mais raro. De lá para cá, viemos conquistando cada vez mais espaço. Acho que, nos últimos 10 anos, houve uma grande expansão. Essa é uma conquista que celebro muito, pois tenho plena consciência de quanto minha trajetória contribuiu para criar referências para essas novas gerações de compositoras, instrumentistas e produtoras musicais. O que mudou foi que as mulheres não se intimidam nem se apequenam mais tão facilmente diante dos homens nesse meio. Com certeza, nossa voz está mais forte. O patriarcado, porém, é teimoso e ainda se manifesta em atitudes e falas dos homens, num ciclo vicioso. Mas a gente vai ficando mais forte, colocando limites, apontando quando eles estão errando. Sem dúvida, as mais jovens já estão muito mais bem preparadas! Folha - De "Flecha" a "Oríkì", como mudou sua maneira de pesquisar e trabalhar com as matrizes afro-brasileiras? Pode explicar essa transformação a partir de uma canção? Iara Rennó - Essa pergunta é bem interessante, até porque o projeto "Oríkì" foi criado, na verdade, em 2009, sete anos antes de "Flecha". Antes de existir "Querer Cantar", essa faixa de sucesso para Oxóssi, já existia, por exemplo, "Uma Flecha", composta com trechos da tradução de uma poesia iorubá milenar. "Querer Cantar" nasceu de um poema de Gustavo Galo que musiquei. Então, não é exatamente uma transformação, mas uma continuidade. O tema sempre esteve presente ao longo da minha obra: em "Flecha", mais diluído; em "Oríkì" e "Orí Okàn", mais concentrado. Folha - Você começou a cantar com Alzira E e integrou a banda de Itamar Assumpção. O que aprendeu nesses encontros que permanece na sua maneira de compor, interpretar e dirigir uma banda? Iara Rennó - Muita coisa! Esses são provavelmente os meus principais professores musicais. Com Alzira, não aprendi apenas a cantar, mas, principalmente, a tocar. Desde que nasci, vejo minha mãe tocando violão de maneira totalmente única e autodidata. Também aprendi a compor, pois ela é uma das compositoras brasileiras vivas mais prolíficas. Com Itamar, posso destacar a importância da performance no palco —tanto ele quanto eu temos uma forte ligação com o teatro— e da busca por uma linguagem nos arranjos e na sonoridade. Essa talvez seja a maior lição que aprendi com ele. Itamar dizia que as possibilidades de criação harmônica já tinham sido esgotadas por Tom Jobim e Chico Buarque e que era preciso encontrar outros caminhos a explorar, criando arranjos com contrapontos rítmicos e melódicos, numa busca por uma linguagem estética mais radical dentro da música brasileira. Folha - Que lembrança você guarda do encontro com Elza Soares nas apresentações desse repertório? Algo daquela troca mudou sua maneira de cantar essas músicas? Iara Rennó - Elza Soares salvou minha vida algumas vezes. É no sentido figurado, mas é sério, artisticamente falando. Uma delas foi quando interpretou "Mandingueira", uma composição minha para uma produção do Bid, que ficou bastante conhecida na voz dela. Outra foi num evento no início dos anos 2000, quando, após uma apresentação minha frustrada, ela me acenou e subi ao palco para improvisar com ela. Minha admiração por Elza é imensa, a ponto de ter composto duas músicas para ela, em sua homenagem. Elza acabou não gravando as canções, que entraram em "Arco" e "Flecha": "Invento" e "O Que Me Arde". Esta última tem letra da minha mãe, Alzira E, e foi composta por nós depois de vermos Elza cantar num show em Salvador. Para mim, Elza é a maior referência entre as cantoras negras brasileiras. Ligada ao candomblé, é certamente uma das maiores cantoras do mundo. Tive a grande honra de recebê-la num show de "Arco" e "Flecha" no Sesc Pompeia, em 2017. Já idosa, ela estava em uma cadeira de rodas e se apresentou com toda a sua força, depois do lançamento de "A Mulher do Fim do Mundo". Foi um grande presente para mim e para todos que puderam compartilhar aquela noite. Folha - O que chama sua atenção ao rever os bastidores de "Flecha" registrados no documentário "Afiando a Flecha", de Renato Carvalho? Há algo no filme que os ouvintes dificilmente perceberiam apenas escutando o disco? Iara Rennó - É muito legal assistir a esse tipo de registro porque acho que revela camadas que não são percebidas ouvindo o álbum. Mostra minha atuação como produtora musical, ativa e presente no estúdio, e a harmonia que tivemos nesse trabalho. Havia pessoas presentes, com vontade, trocando ideias. Não era um simples processo burocrático. Revela curiosidades que não vou contar aqui para não estragar a surpresa! Folha - O que mudou desde 2016 para uma artista independente financiar um trabalho e fazê-lo chegar ao público? Como as plataformas digitais interferem na circulação de um repertório como o seu? Iara Rennó - O mercado mudou muito. Naquela época, lançamos CDs. Hoje em dia, perdemos o físico: o trabalho vai direto para as plataformas, para a nuvem. A produção de "Arco" e "Flecha" foi possível graças à associação de dois selos, a YB Music e o Selo Circus, a um financiamento coletivo e à disponibilidade de cada um que participou, que entrou como parceiro mesmo. Embora muitos digam que ficou cada vez mais fácil lançar um disco, discordo. Você pode gravar um disco todo em casa e simplesmente colocá-lo na plataforma. Mas são milhares de músicas lançadas por dia no mundo todo, nessas redes. Estamos lutando contra a dança dos algoritmos —que, como fica cada vez mais evidente, não respondem apenas a estímulos orgânicos e são muito manipuláveis— para conseguir alcançar as pessoas. Esse novo mundo virtual em que vivemos, num primeiro momento, aproxima, faz tudo parecer mais ao nosso alcance, mas pode ser uma grande bolha de ilusão. Acho que está cada vez mais difícil para quem trabalha com arte de maneira mais orgânica fazer o trabalho chegar às pessoas. São muitos obstáculos. A gente precisa encontrar maneiras mais eficazes de chegar ao nosso público e estruturar melhor essa rede orgânica. Precisamos, urgentemente, criar nossas próprias redes, redes brasileiras, para não ter que ficar pagando em dólar para todas essas multinacionais que comem nosso dinheiro e nossos direitos. No fim, é isso: antigamente, existiam as gravadoras, que selecionavam alguns em detrimento de outros. Hoje, os serviços de música, as distribuidoras e as agregadoras, por vezes, fazem o mesmo papel. É quase um ciclo vicioso difícil de quebrar, porque o capitalismo coopta e corrompe tudo. Se nos recusamos a fazer parte disso, vamos sendo cada vez mais sucateados. Sinuca total! Sempre guerrilha! Folha - Essa volta a "Arco" e "Flecha" trouxe ideias para novos trabalhos? Que caminhos você pretende explorar depois dessa revisão? Iara Rennó - Tenho novos trabalhos em processo. Eles avançam lentamente, pois está muito difícil conseguir verba para produzir e lançar álbuns no mercado hoje em dia. Estou sempre compondo e escrevendo projetos, não só de música, mas também de performance, teatro e instalações. Para ser sincera, essa volta de "Arco" e "Flecha" trouxe também uma vontade de revisitar outros álbuns, como "Iara" e "Macunaíma Ópera Tupi". Acho que tudo cabe no menu de projetos dos próximos anos, para explorar diferentes temáticas, públicos e contextos. É muito comum artistas muito criativos circularem com mais de um projeto ao mesmo tempo. Folha - O que as pessoas devem esperar deste show? Iara Rennó - As pessoas podem esperar um espetáculo refinado que revisita não só os repertórios dos discos, mas também as memórias afetivas de um passado recente. Cada detalhe artístico foi pensado e desenhado em parceria com uma equipe técnica e criativa incrível, que inclui as artistas Gabriela Luiza e Cyntia e os engenheiros de som Volpi e Martché. Porque, sim, a gente entrega tudo! Venham brindar com a gente, que vai ser uma noite única! Iara Rennó — Arco e Flecha 10 Anos Quando: sexta-feira, 30 de outubro de 2026, às 20h30. Onde: teatro do Sesc Belenzinho, rua Padre Adelino, 1.000, Belenzinho, São Paulo. Ingressos: R$ 60 (inteira), R$ 30 (meia-entrada) e R$ 18 (Credencial Sesc). Classificação: 12 anos. Duração: 90 minutos. Informações e ingressos: sescsp.org.br e bilheterias das unidades. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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