Para ter uma ideia de como a crise no Oriente Médio pôs à prova o boom imobiliário de Dubai, basta uma viagem de barco de 30 minutos da orla da cidade até o Côte d’Azur. O resort inspirado na Riviera Francesa faz parte do The Heart of Europe, um projeto de US$ 6 bilhões (R$ 30,8 bi) nas The World Islands, um arquipélago artificial no formato de um mapa-múndi. A incorporadora demitiu funcionários, segundo pessoas a par do assunto, e enfrenta processos judiciais movidos por investidores e ex-empregados. A cadeia de ilhas já enfrentava anos de atrasos por desafios técnicos, logísticos e regulatórios. Agora, precisa lidar com a queda acentuada de visitantes internacionais e com a disparada do diesel que abastece os geradores do empreendimento, que não está conectado à rede elétrica. "É um projeto muito glamouroso, e entendo por que recebe tanta atenção", disse Euan Lloyd, que lidera a área de construção e infraestrutura do escritório de advocacia local Al Tamimi & Co. "Mas executá-lo e concretizá-lo é bastante desafiador." Em Dubai, a guerra começou a separar as incorporadoras mais fortes das mais vulneráveis. Pouco depois do início do conflito, o DLD (Departamento de Terras de Dubai) começou a se preparar para a possibilidade de uma consolidação no setor. O órgão alertou informalmente os grupos maiores de que talvez precisassem assumir rivais menores e com dificuldades de caixa, segundo pessoas a par do assunto. As The World Islands simbolizam a febre de construções que marcou Dubai há mais de 20 anos. Quando foram lançadas, eram o mais recente de uma série de projetos extravagantes em terrenos aterrados que atraíram a atenção mundial. Após a crise de 2008, foram na maioria engavetadas e viraram símbolo da ambição excessiva do emirado. Outras partes do arquipélago foram ainda mais afetadas neste ano. O resort Anantara, inspirado nas Maldivas, fechou em abril. Ele foi desenvolvido por uma empresa fundada pelo ex-chefe da DP World, Sultan Ahmed bin Sulayem. A operadora, a Minor Hotels, disse que o fechamento foi "resultado de uma combinação de fatores externos". O The Heart of Europe, assim como muitos outros hotéis da região, teve de recorrer aos moradores locais, atraindo-os com ofertas como vales para alimentos e bebidas no mesmo valor da diária do quarto. Josef Kleindienst, cujo Kleindienst Group é o responsável pelo empreendimento, disse ao FT que o projeto previa originalmente uma divisão equilibrada entre hóspedes internacionais e locais. Após o início da guerra, passou a se concentrar no mercado de férias perto de casa. A ocupação subiu de 27% em março para 36% em abril e 56% em maio, afirmou ele, acrescentando que a meta era chegar a 80% nas semanas seguintes. Ele também prometeu inaugurar cinco hotéis até 2027, com obras avançando durante a noite para concluir etapas do projeto. Kleindienst rejeitou a ideia de que o Heart of Europe não fosse viável. Afirmou que ele foi concebido como um empreendimento turístico de longo prazo, e não como um projeto imobiliário convencional. Kleindienst acrescentou que muitas de suas atrações exigiam tecnologias e aprovações que não estavam disponíveis quando as obras começaram. Os desafios provocaram tensões com trabalhadores e compradores. A Kleindienst Group demitiu dezenas de funcionários ou colocou parte da equipe em licença não remunerada nos últimos meses, disseram fontes. Alguns ex-funcionários estavam processando a companhia por salários não pagos, acrescentaram. A incorporadora também enfrentou vários processos de investidores que alegam problemas nas entregas e no pagamento dos retornos prometidos, segundo pessoas com conhecimento da situação e documentos judiciais consultados pelo FT. Kleindienst afirmou que a empresa continuava comprometida com suas obrigações e que qualquer pessoa com reclamações poderia procurar diretamente o grupo. As pressões também são sentidas na parte continental de Dubai, onde o volume de transações residenciais em maio ficou em cerca da metade do registrado um ano antes, segundo dados da empresa local de pesquisa e consultoria ValuStrat. As vendas melhoraram em junho e o ritmo de queda dos preços diminuiu, mas o mercado residencial de Dubai ainda acumula retração de 10% desde o início da guerra. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. "O que diferencia o ciclo atual dos anteriores é o perfil dos compradores e dos atuais proprietários, o que talvez tenha protegido o mercado, até certo ponto, do nível acentuado de correções observado em crises anteriores", disse Faisal Durrani, chefe de pesquisa da Knight Frank para o Oriente Médio e o norte da África. Grandes incorporadoras, entre elas Sobha e Azizi, cortaram centenas de postos de trabalho cada uma desde o início da guerra para reduzir custos, segundo pessoas a par do assunto. O Departamento de Terras de Dubai disse ao FT que apoiava o mercado "por meio de regulamentação proativa e monitoramento contínuo" e mantinha perspectivas "altamente promissoras" para o setor. Mais de 2.000 incorporadoras imobiliárias atuam no mercado, segundo o órgão. Novos participantes "entraram no desenvolvimento imobiliário porque viram esse boom, achando que se tratava de um negócio fácil —e são essas pessoas que sofrerão agora", disse Ziad El Chaar, presidente-executivo da DarGlobal, incorporadora de luxo conhecida por suas parcerias com a Trump Organization. Ainda assim, as maiores incorporadoras do emirado mantêm novos lançamentos, em uma aparente demonstração de confiança na capacidade de Dubai de continuar atraindo investidores estrangeiros. Os projetos locais da DarGlobal incluem uma torre de 80 andares com a marca Trump. A conclusão da torre está prevista para daqui a cinco anos, e entre 80% e 90% das unidades já foram vendidas, segundo El Chaar. A Emaar, grupo que construiu a torre Burj Khalifa, revelou em junho planos para um vasto novo distrito urbano de US$ 55 bilhões (R$ 282,9 bi), com capacidade para 150 mil moradores. Em maio, a canadense Brookfield anunciou sua mais recente joint venture de investimento imobiliário em Dubai. Hussain Sajwani, fundador da Damac Properties e outro parceiro de negócios de Trump, que em 2019 alertou para um desastre iminente no mercado imobiliário de Dubai devido ao excesso de oferta, também adota um tom menos pessimista desta vez. "Temos caixa suficiente, os recebimentos vão bem e continuamos lançando projetos. Há muita confiança e credibilidade", disse. Mesmo nas The World Islands, o cenário não é uniformemente sombrio. Um dos empreendimentos, o Zuhha Islands by Zaya, vendeu suas 30 vilas de luxo antes do início da guerra, com imóveis individuais alcançando até US$ 24 milhões (R$ 123,4 mi).
Guerra no Oriente M�dio p�e � prova sonho de ilhas artificiais luxuosas de Dubai
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.