A consultora de gestão de mudanças organizacionais Mayara Abreu Dias, 35, guarda no celular a foto com o marido, Fernando, ao lado do carro novo comprado em maio, ainda na loja. O Fiat tinha um laço vermelho no capô e entrou para as estatísticas. Em 2026, a frota na cidade de São Paulo atingiu 10 milhões de veículos registrados. A marca emblemática foi alcançada no mês de março. Em 20 anos, a quantidade de carros, motos, ônibus e caminhões, entre outros, mais que dobrou nas ruas da maior cidade do país. Em julho, a frota tinha 10,1 milhões de veículos contra 4,3 milhões no mesmo mês de 2006, de acordo com a Senatran (Secretaria Nacional de Trânsito). É como se cada paulistano praticamente tivesse um desses veículos na garagem —conforme o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a população estimada da capital paulista é atualmente de 12 milhões de habitantes. Nos últimos três anos, o emplacamento de utilitários, categoria que inclui os SUVs, cresceu seguidamente, enquanto automóveis e motos oscilaram, aponta o Detran-SP (Departamento de Trânsito de São Paulo). "Estamos vendo que a cidade não tem mais capacidade para tanto carro nas ruas. Há trânsito em qualquer dia da semana, inclusive aos sábados e domingos. Não tem mais horário", diz Viviane Manzione Rubio, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. A urbanista se baseia em seu olhar nas ruas e em estatísticas. São Paulo tem batido recordes de congestionamentos. No início da noite de 24 de junho, o índice de lentidão chegou a 1.690 km. A marca é a maior desde março de 2023, quando a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), em parceria com o aplicativo Waze, passou a calcular o trânsito em 20 mil km de vias na capital. O maior registro na história foi em 5 de setembro de 2019, uma quinta-feira. Às 18h30 daquele dia, houve 1.902 km de lentidão. Entretanto, a medição era outra. A cidade vem se aproximando dos patamares de antes de Covid ter esvaziado as ruas e avenidas devido ao distanciamento social. Em agosto, a média de congestionamento foi de 460 km, a maior desde o mesmo mês de 2019, quando houve o registro de 475 km, mostra levantamento da CET. Proporcionalmente, a frota por habitante é muito maior em São Paulo do que em metrópoles como Nova York, com 2,2 milhões de veículos para 8,8 milhões de moradores, e Pequim, com 7,8 milhões de veículos para 21 milhões de habitantes. "O pulo do gato é fazer integrações e no transporte público e dar mais opções aos usuários", diz a professora. "Faltam alternativas para quem mora nos extremos da cidade chegar no sistema de alta capacidade, como metrô." A docente vai na contramão da história —ela vendeu seu automóvel em 2019. Viviane mora próxima de uma estação de metrô na região do Ipiranga, zona sul. Por isso, se desloca principalmente de transporte público, recorrendo a carros de aplicativo quando há necessidade. Ela usa trem, ônibus e metrô, às vezes tudo junto, e nem sempre é fácil. No dia da entrevista à reportagem, estava apressada, pois iria a uma formatura em Jurubatuba (também na zona sul), a cerca de 20 km de casa. Pegou as linhas 3-verde e 5-lilás, e um carro de aplicativo a partir da estação Adolfo Pinheiro. Levou 1h40 para chegar ao local —de carro, o tempo de viagem é estimado em aproximadamente uma hora. Ônibus e trens ainda não recuperaram os passageiros perdidos desde 2020, quando houve o distanciamento social por causa da pandemia. A última edição da pesquisa Origem e Destino do Metrô, de 2025, apontou que pela primeira vez o número de usuários de transporte individual era superior ao do público na região metropolitana de São Paulo. Em nota, a Prefeitura de São Paulo lista uma série de investimentos em infraestrutura, ações de trânsito e transporte. A gestão Ricardo Nunes (MDB) lembra que o Plano Diretor orienta o crescimento urbano para áreas próximas ao transporte público e estabelece diretrizes para ampliar a infraestrutura cicloviária, qualificar calçadas e espaços públicos e estimular deslocamentos a pé e de bicicleta, reduzindo a necessidade de grandes usos de automóvel. É a facilidade, mesmo com risco de trânsito, que levou o casal Mayara e Fernando a comprar o primeiro carro em 2022, e trocá-lo por um zero-quilômetro em maio passado. "Se tivéssemos que pegar ônibus ou Uber para poder levar nossa filha para escola, não seria um problema, mas a praticidade do carro faz muita diferença", afirma Mayara. Moradores na Lapa (na zona oeste), o casal concentra a rotina do dia a dia no próprio bairro. "Usamos o carro para pequenas distâncias. Rodo menos de dez quilômetros por dia." O arquiteto e urbanista Diogo Lemos, coordenador-executivo da Iniciativa Bloomberg para Segurança Viária Global, afirma que a chegada de São Paulo aos 10 milhões de veículos deve ser tratada como um um sinal de que o modelo de mobilidade da cidade precisa ser repensado. Para ele, políticas públicas deveriam permitir que os cerca de 12 milhões de moradores do município e os 21 milhões da região metropolitana se deslocassem de forma segura e sustentável sem aumentar e reduzindo a quantidade de carros e motos. "A escolha pelo transporte individual envolve fatores como preço, tempo, previsibilidade, conforto, segurança e conveniência", diz. "Mas também é influenciada por políticas públicas e pelos investimentos feitos na cidade." Rafaella Basile, coordenadora de Mobilidade e Vias Seguras da Iniciativa Bloomberg para Segurança Viária Global, afirma que melhorias realizadas em São Paulo, como faixas exclusivas de ônibus, ciclovias e redução de velocidades, mostraram que mudanças na infraestrutura podem alterar o comportamento da população e tornar outros meios de transporte mais atraentes. A pandemia, porém, interrompeu parte desse processo ao afastar pessoas do transporte coletivo. A especialista também defende uma mudança na maneira de organizar as ruas. Em vez de simplesmente separar cada modal, ela propõe pensar em espaços compartilhados, com velocidades mais baixas que permitam a convivência entre pedestres, bicicletas e outros veículos. "A rua do futuro é uma rua compartilhada." Na nota, a prefeitura diz adotar medidas para melhorar a fluidez do trânsito e ampliar as alternativas ao transporte individual. A gestão municipal também afirma que a CET tem modernizado a rede semafórica com sistemas inteligentes, que ajustam os tempos dos sinais conforme o fluxo em tempo real, e mantém o rodízio de veículos. "Mais de 1.700 cruzamentos já contam com a nova tecnologia dentro do mini anel viário", diz. A prefeitura cita ainda projetos estruturais em andamento, como a ligação Pirituba-Lapa, a ponte do Grajaú sobre a represa Billings, o Complexo Viário Roberto Marinho, o Complexo Sena Madureira e a duplicação da ponte Jurubatuba. "Também avançam os BRTs Aricanduva e Radial Leste e a requalificação de corredores de ônibus", diz a nota.
Frota em S�o Paulo supera 10 milh�es de ve�culos e pressiona tr�nsito
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