É costurando o "mito" do bolsonarismo ao mito do 7 de Setembro, com o brado heróico que retumbava "independência ou morte", que Miguel Antunes Ramos constrói a narrativa de um dos filmes mais atuais deste Festival do Rio. Apresentado em pleno fim de semana de eleições presidenciais, "Dragões" recupera a campanha de Jair Bolsonaro de 2022 para investigar a ascensão de um dos principais rostos da direita no país, e ganha novos contornos ao vir à público, pela primeira vez, durante o pleito que viu o filho do ex-presidente, Flávio Bolsonaro, arrematar 47,03% dos votos contra 45,16% de Lula. "É inacreditável a coincidência de estrear esse filme no dia das eleições. Fazer um filme é sempre um gesto de longo prazo. No caso, foram oito anos lidando com essas imagens —vendo, organizando, pensando, desmontando", diz o diretor, que já produziu uma autópsia do Brasil contemporâneo nos documentários "Operações de Garantia da Lei e da Ordem", sobre os protestos que tomaram o país entre 2013 e 2014, e "A Voz de Deus", que acompanhou pregadores mirins. "Dragões", que embarca ainda para a Mostra de São Paulo antes de chegar ao circuito no ano que vem, toma o nome emprestado da cavalaria que é responsável pela guarda da Presidência da República. Suas origens são anteriores à proclamação da independência, capítulo da história do qual participaram e que ficou registrado no quadro "Independência ou Morte", que hoje adorna o Museu do Ipiranga. É com um frame da tela de Pedro Américo que Antunes Ramos abre seu novo documentário, lembrando que muito da mitologia em torno do grito de Dom Pedro não passou de invenção, floreios para deixar o momento mais heróico. Da mesma forma, o diretor questiona o que é verdade na ascensão de Bolsonaro na última década e o que foi pensado para alavancá-lo como um dos protagonistas da história do Brasil. Ele analisa, por exemplo, vídeos de bastidores que mostram as táticas do ex-mandatário, hoje preso por tentativa de golpe de Estado, para se projetar nacionalmente. Numa das gravações reproduzidas no longa está um bate-boca com um grupo de jovens LGBTQIA+. Bolsonaro começa a subir o tom de voz e a usar palavras mais agressivas assim que nota a presença de jornalistas por perto, manda um assessor filmá-lo e, em poucos minutos, tem várias câmeras de foto e vídeo voltadas para si. Narrativas como essa, acredita o diretor, ajudaram Bolsonaro a ir de deputado federal para presidente da República. "Eu acho que o Bolsonaro se criou como figura política a partir de uma relação muito particular com as imagens, da compreensão do poder de uma estética supostamente amadora, que constrói um político no parlamento há 30 anos como um homem comum contra o sistema. Acho que essa produção imagética tem forma, tem conceito, tem efetividade. Ela é produtora de poder. Por isso, precisam ser levadas a sério, analisadas, refletidas." Antunes Ramos analisou cerca de 500 horas de vídeos publicados em plataformas como o YouTube para montar "Dragões". O filme é uma grande colagem de trechos dessas gravações, publicadas pelo próprio Bolsonaro e seu clã, bem como de prints de telas que mostram a popularização do "mito" nas redes sociais. "Esse filme nasceu da insônia do que foi viver sob um governo de extrema direita. Ele nasceu, também, da percepção de que essas imagens eram parte central de uma nova produção de poder. Aparentemente toscas ou amadoras, elas têm pensamento, estratégia, estética", diz o diretor sobre o peso da internet em eleições como a de 2022 e a de agora. Em seu documentário, ele disseca a construção da imagem de Bolsonaro como dissecaria a de um herói de filme americano. Usa termos típicos do audiovisual, como plano-sequência e enquadramento, e uma narração em off que decreta começo, meio e fim do que chama de "cinema de Bolsonaro". Só que pode haver uma cena pós-créditos, como a votação deste domingo (4) deixou claro. "Acho que o campo progressista, por muito tempo, subestimou as formas de organização e de produção simbólicas da direita, como se fossem apenas toscas, ridículas ou frágeis. E não são", diz Antunes Ramos. "Ao longo de todos esses anos, eu achei que estava fazendo um filme sobre o passado, sobre como chegamos aqui. Assistindo a ele ontem, parecia um filme sobre o futuro." O jornalista viajou a convite do Festival do Rio
Filme volta a Bolsonaro em 2022 para investigar papel das redes nas elei��es
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