Eu disse na semana passada que os economistas não entendem de física, embora pensem que sim. Como sei disso? Afinal, não sou física nem matemática. Como sei que as duas ciências têm valores intelectuais muito diferentes —uma fascinada pelo mundo e a outra pelos mundos que imaginamos? Não tive aulas de física no ensino médio, muito menos nos cursos de nível universitário. O mais perto que cheguei do conhecimento direto de ciências físicas ou matemáticas foram um curso de geologia —antes que os geólogos de Harvard tivessem aceitado completamente a tectônica de placas— e alguns cursos de cálculo para os menos dotados em matemática. Bem, eu também tinha um amigo na universidade, David Bender, que era um engenheiro elétrico brilhante, interessado em explicar ao seu colega de quarto, um economista keynesiano, a análise de tensão na engenharia e o teorema de Gödel na matemática. E sempre adorei ler livros populares sobre a história da física e matemática. É verdade, embora eu me considere qualificada para avaliar boa economia e história, tudo isso não me qualifica muito para opinar sobre o que é boa ciência ou matemática em relação à economia. Mesmo a partir de estudos muito distantes dessas áreas, entretanto, reconheço alta inteligência e integridade científica quando as vejo. No estudo da literatura inglesa, por exemplo, poderia citar meus amigos Stanley Fish e Wayne Booth; em filosofia, meus amigos David Schmidtz e Richard Rorty; em antropologia/sociologia, meus amigos Clifford Geertz e Howard Becker (Becker aprendeu português para dar aulas no Brasil). Ter amigos assim é uma formação em pensamento de alto nível. A combinação de excelência intelectual com compromisso ético com a verdade é rara, mas se destaca. É tão fácil de identificar quanto os inúmeros casos de uma sem a outra. Meu conselho? Quando você encontrar um desses exemplos, independentemente da área ou crença, escute. Meu candidato para educação em física à distância é Richard Feynman (1918-1988), professor do Instituto de Tecnologia da Califórnia e ganhador do Prêmio Nobel (1965). Aconselho você a ler tudo o que puder de Feynman, seus livros populares como Surely You're Joking, Mr. Feynman [Você deve estar brincando, sr. Feynman], textos didáticos como seu famoso curso "elementar" de física em três volumes e todas as suas obras técnicas que conseguir, como as incríveis palestras sobre computação no início da era dos computadores. Em 1974, ele fez um discurso na cerimônia de formatura da Cal Tech, no qual falou de forma memorável sobre "ciência do culto à carga". Parece ciência, mas não tem a seriedade com a verdade que ele recomendava. "Relate tudo o que você acha que possa invalidar [sua teoria] —não apenas o que você acha que está certo nela: outras causas que poderiam possivelmente explicar seus resultados; e coisas que você pensou mas eliminou... e como elas funcionavam." E em seu livro What Do You Care What Other People Think? [O que lhe importa o que os outros pensam?] (1988), ele conta que seu pai lhe ensinou que saber os nomes dos pássaros, dos sistemas econômicos ou das épocas históricas não é a mesma coisa que saber como eles se comportam ou por quê. Palavras para guiar a vida. A ciência na física é a ciência na economia. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Feynman e a economia
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