Felicidade Interna Bruta (FIB)

Felicidade Interna Bruta (FIB)

Um working paper recém-publicado pelo FMI (Balasubramanian e Cashin, WP 2026/192) revisita a Felicidade Interna Bruta (FIB), conceito adotado pelo Butão nos anos 1970 como alternativa ao PIB para orientar políticas públicas. Com quatro décadas de dados, os autores constatam que o rápido crescimento da renda butanesa foi apenas fracamente associado à felicidade medida —algo alinhado ao chamado "paradoxo de Easterlin"—, ainda que o índice de bem-estar tenha seguido avançando. A lição é antiga: renda é condição necessária, porém não suficiente, para o bem-estar. O Brasil ilustra bem isso. O indicador de satisfação com a vida do World Happiness Report, que é medido em uma escala de 0 a 10, atingiu em 2022 o valor de 6,11, o mínimo da série histórica iniciada em 2011. Desde então, avançou cerca de 8%, para 6,63 em 2025. Ainda assim, segue cerca de 5% abaixo do pico de 2014 (6,98). Vale notar que esses números refletem médias móveis de três anos. Esse indicador, mais subjetivo, não tem se correlacionado muito bem com o chamado "índice de miséria" (ou de "infelicidade"), que é calculado pela soma da taxa de desemprego com a inflação. Com a desocupação em torno de 5,5% e o IPCA em 4,2% em 12 meses, o índice está ao redor de 9,7 pontos, nas mínimas de uma série que remonta a 1996. Em 2014, quando a satisfação com a vida atingiu o pico, ele superava 13 pontos. Nunca fomos tão "pouco miseráveis" na métrica macroeconômica —e, ainda assim, os brasileiros se declaram menos satisfeitos que há uma década. Isso revela que o bem-estar, embora dependa bastante do quadro econômico, reflete outros fatores. A segurança é o mais evidente. As taxas de homicídio vêm recuando expressivamente desde 2018, assim como outros delitos: as mortes violentas intencionais caíram para 19,1 por 100 mil habitantes em 2025, menor patamar da série do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (eram 27,7 em 2012). Não obstante, pesquisas recentes da Quaest apontam a segurança/violência como o principal problema do país para cerca de 30% dos brasileiros. A percepção não é irracional: o patamar de homicídios segue elevado para padrões internacionais e, sobretudo, houve uma explosão dos crimes de estelionato, em boa medida virtuais –foram 2,3 milhões de registros em 2025, alta de 430% desde 2018. Como notou a revista The Economist em reportagem recente, as facções brasileiras migraram do tráfico para negócios mais lucrativos e menos violentos: menos assassinatos, mais dinheiro –e muito mais vítimas.As bets são outro fator. Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg publicada nesta semana mostra que 88,5% dos brasileiros consideram que as apostas online trazem somente prejuízos ou mais prejuízos do que benefícios à sociedade. A percepção tem respaldo empírico. Estudo recente de Carvalho, Firpo, Freitas e Scatimburgo, que cruza transações bancárias com o registro de crédito do BC, estimou que começar a apostar eleva em 20% a probabilidade de inadimplência (39% no cartão), reduz o limite de crédito em 16% e derruba em 43% a variação mensal do saldo em conta. Há também causalidade reversa: a dificuldade financeira prévia eleva a chance de começar a apostar. Em suma, as políticas públicas devem buscar maximizar o bem-estar intertemporal da sociedade, o que implica olhar para a dimensão econômica, mas também para segurança, saúde, educação e regulação de atividades que geram externalidades negativas (como poluição e mudanças climáticas). E é preciso que haja sustentabilidade nisso –que o bem-estar de hoje não seja comprado às custas do de amanhã–, daí a necessidade de contas públicas equilibradas e de um endividamento público não explosivo. Não há FIB duradoura sem PIB e sem responsabilidade fiscal. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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