É inegável o sucesso do "Exército do Lula", a estratégia digital de articulação política que teve papel decisivo na reeleição do presidente e já inspira cópias em outras democracias. Mas, encerrado o pleito, o desafio é entender como essa mobilização pode se encaixar nas complexas estruturas de comunicação de governo, servindo a mandatos progressistas, fortalecendo a relação entre representantes e representados e aprimorando a prestação de contas. Estudiosos do assunto observam que a mobilização digital, eficaz no curto prazo, pode ter dificuldades para dar direção a um movimento perene. Bennett e Segerberg, que formularam o conceito de ação conectiva, por sua vez, avaliam que essas redes podem perdurar desde que tenham um núcleo estável de organização ou laços densos entre seus membros. O próprio artífice do formato, o deputado André Janones, disse aos participantes da "tropa" que quer manter a mobilização fora do período eleitoral. Pediu que permaneçam no canal, almeja chegar a 13 milhões de seguidores e planeja frentes temáticas —a serem detalhadas futuramente, em lives. Uma saída para esse desafio pode ser inserir a base mobilizada nas eleições em um ecossistema organizado de comunicação — um sinal foi dado na quinta-feira (29), quando Lula anunciou, em áudio, que fará um pronunciamento e uma live nesta semana. Uma base tende a se manter organizada quando recebe informações confiáveis, tem acesso às justificativas das ações do Estado e encontra espaço para debater as decisões. Por isso, um modelo estruturado a partir dessas três dimensões de accountability pode ser uma alternativa viável para mantê-la mobilizada e aproveitar seu potencial. Do ponto de vista da informação, isso implica que o governo reestruture seus modelos de produção de conteúdo. O ponto de partida é o domínio da narrativa, que deve nascer de uma ação estratégica na imprensa tradicional e ser repercutida nos canais digitais e nos perfis de redes sociais. O desafio é enorme porque exige absorver as diversas correntes de pensamento do campo progressista e fazer com que a base trabalhe em conjunto na disseminação dessa narrativa. Outra exigência é criar esse repertório sem recorrer à desinformação e a práticas populistas reducionistas. Narrativa forte, porém, não significa mensagem única. O repertório da produção de conteúdo permite várias formas de disseminar a informação, como memes, cortes e vídeos emocionais, que devem ser explorados em torno de uma narrativa comum. O próprio Janones ensinou à sua "tropa" que "memes furam a bolha". Pesquisadores já chegaram a essa conclusão, mas a persistência do deputado não só ajudou a ecoar essa e outras mensagens como possibilitou colocar os recursos em prática. Do ponto de vista da justificação pública, a questão está em encontrar um equilíbrio entre a ação política em massa e a convivência com as diferenças dentro do próprio campo. Isso inclui aceitar pensamentos discordantes, o que não combina com um modelo em que é necessário fingir que o outro não existe e evitar o debate com ele. O problema está na lógica algorítmica que simplifica o desacordo, transformando diferenças de ideias em combate. Essa lógica, porém, também se reproduz na vida prática. Por fim, para que a justificativa pública do governo tenha legitimidade junto a esses agentes de mobilização, será preciso criar fóruns em que a narrativa e as justificativas apresentadas sejam debatidas entre os membros da comunidade. É o oposto de uma fórmula em que um "general" decide tudo e se comunica em transmissões, sem direito à fala. Dividir o "exército" em grupos menores, com lideranças intermediárias, pode ser uma boa forma de tornar isso viável. Outro ponto diz respeito à utilização de recursos que convoquem à mobilização pública em outros canais além do WhatsApp. Com cópias surgindo na França, na Espanha e na Argentina, o que o Brasil fizer agora com o "Exército do Lula" servirá de referência fora daqui. Se o canal se esgotar com a campanha, o mundo terá aprendido apenas uma tática eleitoral. Se ele ganhar fóruns, regras e espaços de escuta, o país exportará algo mais raro: um modelo de mobilização digital que fortalece a democracia em vez de apenas disputar eleições. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
'Ex�rcito do Lula' pode sobreviver como comunica��o de governo?
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