Oiapoque |AFP O cacique indígena Wagner Karipuna observa com preocupação o rio tranquilo que passa por sua aldeia na Amazônia brasileira enquanto imagina o cenário de pesadelo em que um vazamento de petróleo seria levado pelas marés até ali. Sua aldeia, Manga, fica a cerca de 20 quilômetros do centro de Oiapoque, município que faz fronteira com a Guiana Francesa e que vive um movimento desde que a gigante brasileira do petróleo Petrobras iniciou a exploração em alto-mar na região, há um ano. Barcos ancorados às margens do Rio Oiapoque, em Oiapoque no estado do Amapá, na fronteira com a Guiana Francesa - Nelson Almeida - 17.set.26/AFP A estatal anunciou em agosto que havia identificado sinais de petróleo em um poço localizado a cerca de 175 quilômetros da costa do estado do Amapá, no norte do Brasil. O presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição em 4 de outubro, visitou a região pouco depois e chamou o petróleo de "passaporte para o futuro". Para chegar a Oiapoque, é preciso percorrer 600 quilômetros desde Macapá, capital do estado, parte deles por uma estrada de terra vermelha cheia de buracos. Pontes improvisadas de madeira são usadas para atravessar cursos d'água. Muitas ruas do município não têm calçadas e são ladeadas por prédios baixos com fachadas deterioradas, embora diversos projetos de construção estejam em andamento. "DESAPONTADO" COM LULA Enquanto muitos moradores estão animados com a possibilidade de uma bonança do petróleo em seu município pobre, Karipuna está longe de estar convencido. "Em caso de vazamento, inevitavelmente seremos afetados. A água não tem fronteiras", afirmou o cacique, de 57 anos. Ele teme um "desastre imenso" caso um vazamento de petróleo na costa seja levado até o rio Curipi, que passa ao lado de sua aldeia, onde vivem 1.800 pessoas. A Petrobras afirmou que suas análises "não indicam a probabilidade" de o petróleo "chegar à costa em caso de vazamento"."Não existe risco zero na exploração em alto-mar", disse à AFP Jean Paul Prates, que comandou a Petrobras entre 2023 e 2024 e atualmente preside o Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), um centro de estudos sobre energia e recursos naturais. "É um risco de baixa probabilidade, mas com consequências potencialmente graves." Karipuna afirma estar "desapontado" com Lula, que se apresenta como defensor do meio ambiente e dos povos indígenas. Lula já disse que é contrário aos combustíveis fósseis, mas considera que o mundo ainda não pode viver sem eles e que o petróleo pode financiar a transição para a energia limpa. Karipuna afirma que já sente os impactos da exploração de petróleo por causa "do barulho dos aviões e helicópteros", que, segundo ele, espanta aves e animais de caça. As preocupações são compartilhadas por Joelso Mendonça, vice-presidente de um grupo que reúne quase 400 pescadores tradicionais. "Se houver um vazamento de petróleo, ninguém vai querer comprar nosso peixe", disse o pescador, de 50 anos, enquanto consertava sua rede em um barraco sobre palafitas na margem do rio. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisõesA Petrobras disse à AFP que tem "mantido diálogo contínuo" com a sociedade civil e comunidades indígenas. Sobre o tráfego aéreo, a empresa afirmou ter feito "ajustes" após consultas com lideranças indígenas. COMEÇAR DO ZERO Enquanto alguns veem o possível petróleo como uma maldição, Jacqueline Cadete o considera um "sinal de Deus". A pastora evangélica, de 45 anos, mudou-se para Oiapoque no fim de 2025, atraída pelas "oportunidades" relacionadas ao petróleo, depois de viver durante muitos anos no exterior, na Guiana Francesa e na França metropolitana. Segundo um estudo do Observatório Nacional da Indústria, mais de 50 mil empregos poderiam ser criados no Amapá. Além disso, os royalties que a Petrobras terá de pagar quando a produção começar podem representar uma receita considerável para as autoridades locais. A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou em agosto, porém, que a produção não deve começar antes de "seis ou sete anos".Enquanto isso, o prefeito Inácio Monteiro Maciel está "muito otimista" com o futuro, embora reconheça que a cidade terá de "praticamente começar do zero" em termos de infraestrutura e políticas sociais. Mais da metade dos cerca de 28 mil habitantes registrados no Censo de 2022 recebe o Bolsa Família, benefício pago às famílias mais pobres do Brasil. Mas o município recebeu um fluxo de novos moradores nos últimos anos, movimento que se "intensificou" desde que a Petrobras começou a perfurar, segundo o prefeito. Ele estima que 40 mil a 45 mil pessoas já vivam em Oiapoque. "A NOVA DUBAI" O prefeito afirmou que o aumento da "especulação imobiliária" expulsou muitas famílias do centro da cidade para novos bairros periféricos, onde as condições são frequentemente precárias. No bairro Nova Conquista, Thais Pereira de Souza, de 32 anos, vive em uma pequena casa com telhado de metal, sem água ou eletricidade, ao lado do marido, dos dois filhos e da nora, que está grávida.Eles estão apertados em um único cômodo, com dois colchões e duas redes, depois de não conseguirem mais pagar pelo apartamento de um cômodo onde viviam no centro da cidade. Ela espera que a "vida melhore" graças ao petróleo. Lilma Campos, presidente da Associação Comercial e Industrial de Oiapoque, prevê uma "mudança radical", mas prefere manter os pés no chão. "Só porque encontraram petróleo, algumas pessoas acham que isso vai virar a nova Dubai, mas realmente não sabemos o que vai acontecer."
Explora��o de petr�leo no Amap� divide moradores entre esperan�a e temor
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