Se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vencer a eleição presidencial por uma margem apertada, há grandes chances de o presidente americano, Donald Trump, não reconhecer o resultado. Esse é o alerta de Nick Zimmerman, que foi o diretor para Brasil e Cone Sul do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca no governo do democrata Barack Obama e atualmente é pesquisador sênior do Inter-American Dialogue. Para Zimmerman, o nível de interferência de Trump nas eleições brasileiras não tem precedentes na história dos Estados Unidos. Em entrevista ao podcast "A Máquina", Zimmerman afirma que o mandatário americano pode usar o resultado do pleito para continuar pressionando o Brasil. Em caso de vitória de Lula, pode exigir contrapartidas ou impor sanções para reconhecer a apuração das urnas; já se Flávio Bolsonaro vencer, o americano pode demandar limites para acesso da China à infraestrutura e minerais críticos no Brasil. O senhor enxerga tentativas abertas do governo Trump de interferir na eleição brasileira? Enxergo, sim, não há dúvida de que há uma tentativa de interferir na eleição brasileira. O governo Trump já tem um histórico de interferir em eleições. Exemplos recentes incluem Argentina, com a promessa de US$ 20 bilhões na véspera das eleições legislativas; Honduras, quando Trump ameaçou cortar toda a ajuda externa caso seu candidato presidencial preferido não vencesse. Enxergo o tarifaço do ano passado, as sanções [da Lei] Magnitsky sobre [o ministro do STF] Alexandre de Moraes e a designação do CV e PCC como organizações terroristas como esforços para ajudar politicamente a família Bolsonaro. Esse tipo de tentativa de interferência tem precedentes na história americana? Na era pós-guerra fria, nos EUA antes de Trump, Washington via com maus olhos a possibilidade de seus presidentes apoiarem candidatos políticos em outros países. A ideia era defender um processo eleitoral livre e justo, a dignidade de processos democráticos como um valor e interesse maior dos EUA. Taticamente, a ideia era manter as relações em nível de Estado para Estado, não de partido para partido. Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama, nenhum desses três [ex-presidentes americanos] apoiou publicamente candidatos de outros países nem usou a política econômica como instrumento de pressão para ajudar candidatos estrangeiros. A postura de Trump de usar mecanismos do poder público e endossar outros candidatos é algo sem precedentes na história recente dos EUA. Quais são as prioridades dos Estados Unidos nas relações com o Brasil? No governo Trump, acredito que as prioridades são a derrota eleitoral de Lula, para seguir com o projeto político de ter as Américas alinhadas à direita e focadas cada vez mais em segurança pública, entre aspas. Querem um acesso maior aos minerais críticos e terras raras que o Brasil tem, como parte de uma estratégia maior de diversificar as fontes desses produtos no mundo inteiro. E querem proteger as big techs americanas de regulação que eles consideram subjetiva e negativa. Nas últimas eleições presidenciais, os EUA mandaram enviados para o Brasil, entre eles o assessor de Segurança Nacional, Jake Sullivan, para se reunir com Jair Bolsonaro e dizer que Washington confiava na integridade do sistema eleitoral brasileiro. O que podemos esperar do governo Trump? Ele vai reconhecer o resultado das eleições? Em um cenário no qual o presidente Lula ganha, mas por muito pouco, algo provável, não descarto a possibilidade de o governo Trump não reconhecer o resultado. Espero uma postura oposta à do governo Biden quanto à credibilidade do processo eleitoral brasileiro. Qual seria o impacto disso? Os danos na relação ficam cada vez maiores e menos reparáveis. Além disso, no curto prazo, Trump poderia usar esse não reconhecimento do resultado como uma base para novas sanções. Poderia vir a ser um novo instrumento de pressão em 2027. Poderia implicar novas sanções e outras pressões econômicas na relação bilateral a partir do ano que vem. Qual é o dano que as sanções e outras ações de Trump causaram nas relações bilaterais? Lamentavelmente, hoje temos o pior momento da relação entre os dois países desde o golpe de 1964. Eu compreendo por que tantos brasileiros estão com raiva dos EUA. É lamentável mesmo. Se os democratas conquistarem a maioria na Câmara e, menos provável, no Senado nas eleições de meio de mandato em novembro, isso mudará as relações bilaterais? Eu acho que foi feito um dano irreparável, pelo menos no médio prazo, mas, ao mesmo tempo, acho que tem condições de melhorar. O que mais me preocupa, no longo prazo, é que entramos em um contexto polarizado na relação bilateral. Temos democratas defendendo o PT, republicanos defendendo os Bolsonaros, o presidente Lula, por exemplo, endossando a candidatura da Kamala [Harris, que disputou a presidência com Trump em 2024]. Isso afeta a possibilidade de ter políticas sustentáveis de Estado para Estado. Eleições Hoje Receba no seu email destaques das campanhas, pesquisas e disputas nos estados Como será o relacionamento com o governo Trump no caso de vitória de Flávio Bolsonaro? Em caso de vitória de Flávio, acho que haverá o começo de uma negociação de acordo de comércio recíproco, os ARTs, do presidente Trump. Ele está usando isso no mundo inteiro, faz pressão com tarifas para forçar negociação desses acordos. Com Flávio, eu acho que isso vai pegar. Isso poderia reduzir um pouco das tarifas impostas sobre o Brasil. Além disso, acho que haveria uma cooperação em segurança pública, entre aspas. Mas acho que há uma expectativa do governo Trump com Flávio em relação à China que não vai se concretizar. O governo Trump está esperando um alinhamento total, e não vai acontecer, e isso poderia causar uma tensão. Que tipo de exigências Trump poderia fazer a Flávio em relação à China? Precisamos lembrar a pressão que o primeiro governo do Trump colocou em cima do governo do Jair Bolsonaro quanto à tecnologia de comunicações chinesa Huawei. Eu acho que vai seguir este modelo. Mas terá mais a ver com infraestrutura, os investimentos no Brasil, e principalmente os minerais críticos. Vão tentar negociar com Flávio limites ao acesso que a China tem neste setor, considerado crucial para o futuro dos EUA. Ele vai tentar limitar a entrada da China em setores chaves, a critério dos EUA. No governo Bolsonaro, os EUA não conseguiram vetar a Huawei da infraestrutura de 5G no Brasil… Acho que essa pressão [do Trump] tem pouca chance de sucesso, porque, por mais que exista alinhamento ideológico, isso só funciona até certo ponto sem um projeto econômico. E a economia americana funciona de uma maneira bem diferente da economia chinesa, não tem como concorrer. O governo americano não tem como mandar as empresas lucrarem menos por não sei quantos anos para ter acesso a um mercado que Washington considera estratégico. E Jair Bolsonaro entendeu isso e não barrou a Huawei. Eu acho que o interesse nacional do Brasil é não escolher um lado. O senhor acredita que a designação de PCC e CV como organizações narcoterroristas pode levar a operações militares dos EUA em território brasileiro? Acho muito difícil. Posso entender a preocupação com essa possibilidade, dada a guerra no Irã, dado tudo que tá acontecendo na fronteira dos EUA com México, como operações militares já acontecendo na região com governos que querem esse tipo de cooperação com os EUA, por exemplo, como o Equador. Mas o que acho provável é que essas designações do CV e PCC gerem problemas de compliance do setor financeiro brasileiro de uma maneira que poderia impactar a economia do país. Se o PCC lavar dinheiro usando um banco no Brasil e as autoridades americanas decidirem que a instituição não fez seu dever de casa de se proteger contra essa possibilidade, poderá sofrer sanções. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Já tem 25 organizações classificadas como terroristas e a tendência é crescer. Na medida em que isso crescer, é mais provável que o setor financeiro brasileiro e o de outros países sejam impactados. Não sei se um governo Flávio Bolsonaro toparia uma cooperação diferente, que poderia incluir inclusive operações conjuntas com as nossas Forças Armadas, mas, nos dias de hoje eu não vejo como muito viável, não. O senhor acredita que a interferência de Trump na eleição ajuda ou atrapalha o candidato Flávio Bolsonaro? Não acredito que Donald Trump seja um fator super importante na eleição brasileira. Acho que essa eleição, no fim das contas, será sobre os problemas e desafios no dia a dia brasileiro. Mas, em uma eleição tão concorrida como essa é, qualquer coisa poderia ter um impacto. Raio-x | Nick Zimmerman Foi o diretor para Brasil e Cone Sul do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca no governo do democrata Barack Obama e atualmente é pesquisador sênior do Inter-American Dialogue.
Ex-assessor da Casa Branca v� risco de Trump n�o reconhecer resultado de elei��o se Lula vencer
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