Na próxima sexta-feira (4), salvo alguma intercorrência, Giorgia Meloni se tornará a mais longeva líder de um governo italiano em 80 anos. Só por isso, a romana de 49 anos já marcará a turbulenta história política de seu país. Desde o fim da Segunda Guerra, a Itália teve estonteantes 68 governos —média de cerca de 14 meses para cada um. Com 1.413 dias a serem completados na sexta, Meloni ultrapassa em tempo o segundo governo de Silvio Berlusconi, encerrado em 2005. Ambos os líderes vêm do mesmo ramo da árvore política italiana, a direita populista que no passado deu ao mundo o fascismo de Benito Mussolini. Por óbvio, são pessoas de outra era, mas a genealogia ideológica é reconhecível. Meloni, primeira mulher a governar a Itália, apresentava credenciais preocupantes. Seu entorno era formado por radicais xenófobos, e ela mesma já havia elogiado Mussolini em público. No poder, o discurso se amainou. É certo que mantém itens retóricos da ultradireita, como uma agenda de costumes retrógrada e visões anti-imigratórias, mas pouco disso se tornou práxis. Meloni se afastou dos que defendiam a invasão russa da Ucrânia e, pela negativa em apoiar a guerra do aliado Donald Trump no Irã, incorreu na ira do americano —houve oportunismo dela no rompimento, mas nem sempre isso é condenável. Quando tentou avançar temas controversos, teve dificuldade. Em março, sofreu sua pior derrota política ao ver rejeitada em referendo uma reforma judicial apontada como um ataque à separação entre os Poderes. Além disso, a limitação à concessão de cidadania italiana prevista em lei está suspensa, sob análise da União Europeia. Economicamente, a Itália vive um momento ambíguo. Sob Meloni, o crescimento arrefeceu, e a previsão do FMI para este ano é de alta de 0,5% no PIB. A inflação reflete de forma moderada as pressões do mundo em guerra e, segundo projeções, deverá cair de 3% neste ano para 2% em 2027. Ao mesmo tempo, o déficit fiscal da terceira maior economia do bloco europeu chegou ao menor nível desde 2019, com redução de 8,1% do PIB para 3,1% entre 2022, quando a primeira-ministra assumiu o poder, e 2025. O cenário à frente é complexo. Meloni tem boa aprovação pessoal e seu governo é razoavelmente bem avaliado, mas aproxima-se da eleição do ano que vem em queda entre os jovens. A derrota no referendo mostrou força da centro-esquerda e há fissuras na sua coalizão, o que sugere um desafio duro para a líder italiana. editoriais@grupofolha.com.br
Estabilidade marca governo recorde de Meloni na It�lia
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