Espa�o para queda dos juros vai se esgotando

Espa�o para queda dos juros vai se esgotando

A ata da reunião do Banco Central que cortou a taxa básica de juros de 14% para 13,75% ao ano mostrou sinais de preocupação com o cenário à frente, depois reforçados pelo Relatório de Política Monetária. A favor da queda da Selic, a economia mostrou enfraquecimento no segundo trimestre, e o indicador da atividade de julho voltou a dar sinais de piora adicional. Este será um terceiro trimestre com o PIB tateando o zero. A projeção de crescimento para este ano foi reduzida de 2% para 1,8%; para 2027, espera-se 1,4%. Juros nas alturas inibem o crédito privado e fazem seu trabalho de controle da inflação. Mas as demais variáveis, ao menos por ora, vão no sentido oposto. As contas do governo são, de longe, o maior fator de atenção, agora somadas à aceleração do crédito público direcionado. Espera-se, no início do próximo governo, de quem quer que seja, um mínimo de austeridade e a diminuição do forte impulso fiscal observado no ano eleitoral. Contudo o déficit fiscal estrutural tem sido uma constante desde o governo Dilma Rousseff (PT), como aponta a Instituição Fiscal Independente (IFI, ligada ao Senado), e encabeça os motivos pelos quais a Selic está tão elevada. Não temos garantia de que quem vencer a eleição fará, de fato, um ajuste relevante. Os problemas, porém, não se limitam ao Orçamento público. A guerra entre Estados Unidos e Irã não dá sinais de arrefecimento, e o preço do petróleo pode subir ainda mais nas próximas semanas; o do diesel tem subido com maior intensidade e já se começa a falar em falta do produto. O fenômeno climático El Niño se consolida como um dos mais fortes da história e trará consequências relevantes para a agricultura brasileira, em um momento de crise de endividamento no setor e de encarecimento dos fertilizantes importados, também devido à guerra. O resultado deve ser uma inflação de alimentos elevada no próximo ano. Tanto a guerra quanto o impacto do El Niño são choques aos quais o BC usualmente não reage com juros, por serem temporários. Mas há preocupação com o que se chama de efeitos inflacionários de segunda ordem, ou seja, no restante da economia. Há, por fim, a PEC destinada a eliminar a escala de trabalho 6x1, que, se aprovada, poderá gerar alguma pressão inflacionária. Há espaço para uma nova queda da Selic? Talvez apenas para mais uma, como apontam as previsões de mercado coletadas pelo BC, mas há riscos de sobra pela frente que demandam cautela do órgão neste momento. editoriais@grupofolha.com.br

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