Entenda os perigos de comer quantidades exageradas de comida, como no 'mukbang'

Entenda os perigos de comer quantidades exageradas de comida, como no 'mukbang'

Desafios de comer porções grandes de comida em minutos e transmissões ao vivo de pessoas fazendo refeições exageradas sozinhas são populares nas redes sociais. Comer demais em pouco tempo e com frequência, no entanto, coloca a saúde em risco. A influenciadora chinesa Ganfan Yingying, conhecida pelos vídeos de "mukbang", morreu aos 24 anos. A morte de Chen Ziyi (seu nome verdadeiro) ocorreu em 17 de agosto, mas foi confirmada pela familia à imprensa da China no último dia 4. A causa oficial não foi divulgada, mas dias antes ela havia relatado aos seguidores que tinha tido uma queda grande dos níveis de potássio no sangue. Ziyi tinha 1 milhão de seguidores em redes como o Douyin, versão chinesa do TikTok. Seus perfis foram desativados pelas plataformas. Os vídeos de "mukbang" surgiram na Coreia do Sul no fim dos anos 2000 e são populares ainda hoje, principalmente na Ásia. Neles, a pessoa come grandes quantidades de comida de uma vez só, diante da câmera, enquanto conversa com os espectadores. O termo é uma junção das palavras comer e transmissão, em coreano. Tanto a alimentação excessiva quanto a reduzida trazem problemas, afirma Maíra Brandão, endocrinologista do Grupo Santa Joana. "Temos quantidades corretas que devemos nos alimentar e que o corpo consegue dar conta", diz. O estômago é um órgão muscular que distende e volta ao seu tamanho original, mas há um limite para essa distensão, explica a médica. Ele tem, em média, capacidade de 200 mls a 250 mls. Quando comemos, ele se expande para acomodar de 1 l a 1,5 l. Em condições extremas, pode chegar a até 4 l. Segundo Brandão, é mito que o órgão cresce se comermos demais. O que muda é a sinalização da saciedade, ela diz. "Ter o costume de distender excessivamente o estômago vai fazer o alerta de saciedade demorar mais para soar." Segundo especialistas, comer em excesso, por si só, não provoca hipocalemia, a queda grave de potássio. As formas mais comuns são perder a substância pela urina ou pelo trato gastrointestinal, em situações como vômito e diarreia, e pelo uso de laxantes e diuréticos, explica Renato Zilli, endocrinologista do hospital Sírio-Libanês. Dietas muito restritivas, desnutrição e transtornos alimentares também podem contribuir para essa redução, diz Zilli. A endocrinologista do Santa Joana destaca como a influenciadora chinesa comia muito mas era extremamente magra. Para a médica, Ziyi devia ter transtornos alimentares e usava estratégias para não absorver os alimentos ingeridos, como indução ao vômito ou laxantes. O médico do Sírio-Libanês afirma que, em pacientes com transtornos alimentares, vômitos constantes podem causar a hipocalemia. Em períodos prolongados, podem causar lesões, rupturas e sangramentos no estômago e esôfago, acrescenta Brandão. O potássio é um eletrólito fundamental para o funcionamento das células e participa da contração muscular, da transmissão dos impulsos nervosos e da atividade elétrica do coração, explica Zilli. A quantidade normal de concentração de potássio no sangue é de 3,5 mEq/L a 5 mEq/L. Abaixo de 2,5 mEq/L —como é o caso de Ziyi, que afirmou estar com o nível em 2,3—, é considerada hipocalemia grave, diz o endocrinologista. A condição pode causar alterações do ritmo cardíaco, muscular e, em situações extremas, comprometer a musculatura respiratória, ele diz. Por isso, há risco de morte. A hiperalimentação, por si só, pode não ser a causa da morte de alguém, mas a prática provoca problemas de saúde que podem ser fatais. Ingerir uma quantidade exagerada de comida pode provocar uma perfuração estomacal ou esofágica, que pode levar à morte, cita a endocrinologista do Santa Joana. Em outro caso, pode haver a broncoaspiração: sem espaço para se alocar, a comida volta pelo esôfago e é aspirada pelo pulmão. Entre os efeitos a longo prazo estão obesidade, alterações metabólicas, aumento da pressão arterial, resistência insulínica, aumento dos colesteróis e do depósito de gordura em órgãos como rim, pâncreas e intestino. Além disso, comer muito afeta a evacuação. Há maior retenção de líquidos, o que leva a constipação. Isso prejudica o funcionamento do intestino e pode causar doenças como diverticulose, diverticulite e obstrução intestinal. Brandão afirma que qualquer tipo de comida em excesso é negativa, mas alimentos ultraprocessados e hiper palatáveis são piores porque são mais calóricos e têm quantidades exageradas de gordura, açúcar e sódio, que levam a alterações de eletrólitos. Além disso, alimentos como carne vermelha demoram até dias para serem digeridos completamente. Essa situação é pior quando a porção exagerada é ingerida em pouco tempo, como nos desafios de comida. Popular em países como os Estados Unidos, o objetivo é quebrar recordes. O ato força o trato gastrointestinal ao não dar tempo para o estômago se esvaziar e o alimento passar para o intestino, diz Brandão. O caso de Ziyi não é isolado. Em 2024, a criadora de conteúdo chinesa Pan Xiaoting, também de 24 anos, morreu após ingerir 10 kg de comida em um dia. Há outros casos, como o turco Efecan Kültür, morto em 2025, aos 24, por problemas associados ao excesso de peso. Desafios do tipo se intensificaram com as redes sociais, avalia Brandão. "O 'mukbang' nos leva a pensar sobre o quanto o ser humano tem levado o corpo ao extremo para ter likes e visualizações para chamar a atenção", conclui a médica. Cuide-se Ciência, hábitos e prevenção numa newsletter para a sua saúde e bem-estar

Original Source

Read the full article at Www1 →

KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.