A Lei Maria da Penha é um marco civilizatório no Brasil. Mudou crenças, atitudes e comportamentos e tornou visível uma violência historicamente escondida pelo silêncio dos lares, pela vulnerabilidade das vítimas e pela indiferença da sociedade. Lamentavelmente, a frieza dos dados demonstra que, sozinha, a lei não basta. Em 2025, segundo dados do Ministério da Justiça, 1.470 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil. Há, porém, uma desigualdade ainda mais avassaladora nessa tragédia: 62,6% das vítimas eram mulheres negras. Diante dessa realidade, é imprescindível ampliar a questão. Além de punir o agressor e proteger legalmente a vítima, quais condições concretas podem ajudar uma mulher negra e periférica a romper definitivamente com o ciclo da violência e reconstruir sua vida com segurança? A autonomia econômica e financeira é, certamente, uma delas. Para muitas mulheres, deixar uma relação violenta significa também enfrentar a possibilidade de não ter renda, trabalho, moradia ou condições de sustentar a si mesmas e aos seus filhos. A dependência econômica pode funcionar como uma prisão silenciosa. Ignorá-la significa desconsiderar uma dimensão fundamental do problema e perpetuar uma realidade que precisa urgentemente ser transformada. Por isso, educação, qualificação profissional, geração de emprego e renda e estímulo ao empreendedorismo podem e devem integrar as ações e políticas de enfrentamento à violência contra as mulheres. São instrumentos capazes de criar alternativas concretas para a conquista da autonomia econômica e social. Foi diante desse desafio que a Universidade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, criou um programa de extensão comunitária voltado à formação de mulheres negras e periféricas na profissão de trancista. Em três anos, capacitamos gratuitamente 3.500 mulheres que, além da formação profissional, passaram a ter a possibilidade de ingressar em um mercado em expansão, no qual um serviço de tranças pode alcançar, em média, R$ 300. Para aquelas que desejam empreender, o projeto também oferece orientação para a formalização como microempreendedora individual (MEI), condição que permite acesso a direitos previdenciários, como aposentadoria, salário-maternidade, auxílio por incapacidade temporária e pensão por morte. As participantes recebem ainda instrumentos para iniciar a atividade profissional, acesso a uma plataforma para oferta de seus serviços e apoio financeiro inicial para colocar o negócio em funcionamento. Neste último sábado (22), entregamos à sociedade paulistana mais mil mulheres formadas para atuar como trancistas, em uma parceria pioneira com o Ministério do Empreendedorismo e com apoio da Unifesp. Além do diploma, elas receberão um kit profissional e terão à disposição um crédito inicial de R$ 150 para começar a operar seus negócios. É pouco diante da dimensão do problema, sabemos. Mas é uma demonstração concreta de que a violência doméstica não pode ser tratada como destino inevitável das mulheres negras e periféricas. Educação, qualificação profissional, acesso à renda e empreendedorismo podem abrir caminhos para que essas mulheres façam escolhas com maior autonomia e construam novas perspectivas para si e suas famílias. Combater a violência também significa criar condições para que uma mulher possa partir sem que, ao fechar a porta de uma relação abusiva, encontre do outro lado uma nova prisão: a dependência econômica. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Empreendedorismo � liberta��o para a mulher negra perif�rica
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