Em um hotel de beira de estrada, uma descoberta pode lan�ar luz sobre as origens da vida

Em um hotel de beira de estrada, uma descoberta pode lan�ar luz sobre as origens da vida

Em um dia de primavera do ano passado, Andrew Willoughby dirigiu por três horas e meia até um hotel barato em Nags Head, na Carolina do Norte. Do estacionamento, enviou uma mensagem de texto a uma desconhecida que havia conhecido pela internet. Julia Van Etten apareceu e o conduziu, passando por uma placa de "Não perturbe", até um dos quartos de US$ 80 do hotel, que ela havia transformado secretamente em um laboratório improvisado. Galões de água salobra se alinhavam junto às paredes. Baldes transbordavam com pedaços de vegetação de pântano. Mesas de cabeceira serviam de suporte para microscópios. "Meu Deus, esse pessoal é sério mesmo", pensou Willoughby, um biólogo que estuda genomas de plantas, enquanto encontrava um lugar para se sentar na ponta da cama. Nos dias seguintes, um pequeno grupo de cientistas liderado por Van Etten, bióloga evolucionista, vasculhou gotas de água em busca de algas de pântano. A equipe —reunida, em parte, pelas perturbações e pelo desalento provocados pelos congelamentos do financiamento federal à ciência durante o governo Trump— fez então uma descoberta empolgante. No Journal of Phycology, Van Etten e seus colegas descrevem o que encontraram no quarto do hotel: duas novas espécies de um organismo unicelular chamado Paulinella, um micróbio escamoso, em forma de granada, com estruturas verdes alongadas semelhantes a salsichas em seu interior. A descoberta eleva para seis o número de espécies fotossintéticas de Paulinella conhecidas no mundo. O que torna a Paulinella importante para os biólogos? Quase toda a vida fotossintética complexa da Terra, das sequoias às samambaias e às algas, remonta a um acontecimento ocorrido há 1,5 bilhão de anos. Foi quando um organismo unicelular engolfou uma bactéria fotossintética, transformando-a em uma espécie de compartimento gerador de energia —o que os cientistas chamam de "organela". Mas, há duas décadas, biólogos descobriram que essa fusão fotossintética havia ocorrido uma segunda vez, na Paulinella, cerca de 100 milhões de anos atrás. Como isso aconteceu muito recentemente, em termos evolutivos, a biologia da Paulinella pode oferecer uma janela para aquele primeiro acontecimento, tão improvável quanto profundo: o momento em que o planeta começou a florescer, tornando-se um oásis de vida na vasta e escura imensidão do espaço. O acontecimento decisivo que está na origem da vida vegetal na Terra é difícil de estudar por ser tão antigo, disse Angela Oliverio, bióloga da Universidade de Syracuse que não participou do estudo. Mas, na Paulinella, o processo não está completo —é como ver um instantâneo dele pela metade. "Para mim, isso é realmente extraordinário", disse Oliverio. Isso "representa o único outro caso conhecido atualmente em que esse acontecimento evolutivo fortuito ocorreu". Ao estudar a Paulinella, os cientistas esperam elucidar uma das transições mais fundamentais da história da vida em nosso planeta —e talvez obter pistas sobre como ela poderia ocorrer em outros lugares do universo. O estudo também pode fornecer conhecimentos práticos sobre como criar organismos fotossintéticos do zero. No mínimo, essa busca ilustra a curiosidade, a tenacidade e as relações humanas que fazem o conhecimento avançar. Uma "microscopista de sofá" A primeira espécie de Paulinella foi descoberta em 24 de dezembro de 1894, nos sedimentos de um braço represado do rio Reno, pelo biólogo alemão Robert Lauterborn. Ele batizou o gênero em homenagem à madrasta, Pauline. Mas foi somente em 2005, com o uso de análises genéticas, que os cientistas descobriram que o acontecimento supostamente único que moldou a vida vegetal na Terra não era, na verdade, único. Desde então, os cientistas haviam documentado apenas outras três espécies. De certa forma, isso não surpreende. O planeta está repleto de uma biodiversidade oculta que nunca foi formalmente catalogada. E a Paulinella não facilita a tarefa de encontrá-la. Ela é escassa, superada em número por outros micróbios nas amostras de água. É pequena. Em laboratório, cresce lentamente — quando cresce. "Nenhum estudante de pós-graduação quer trabalhar com um organismo que leva de quatro a cinco dias para dobrar de número —você vai levar dez anos para obter o doutorado", disse Arthur Grossman, biólogo vegetal da Carnegie Science, uma instituição de pesquisa. A jornada de descoberta da própria Van Etten começou quando ela se viu presa durante férias chuvosas em família na Carolina do Norte. Na época, era estudante de pós-graduação na Universidade Rutgers e se definia como uma "microscopista de sofá", passando grande parte do tempo livre debruçada sobre um microscópio de US$ 300 em seu sofá, à procura de vida em gotas d’água. Van Etten não esperava grande coisa da água que havia recolhido em um cais qualquer ao lado da rodovia. Mas, em meio a uma massa de plâncton marrom-amarelado, avistou um pequeno ponto verde. Ampliou a imagem e soltou um grito. "MEU DEUS", escreveu em uma mensagem para seu orientador de doutorado na Rutgers. Era uma esquiva célula de Paulinella —como encontrar uma agulha em mil palheiros. Para ter certeza do que exatamente estava vendo, Van Etten precisava encontrar mais espécimes e isolá-los. Nos quatro anos seguintes, fez algumas viagens de volta à Carolina do Norte para coletar mais amostras, mas foi somente em 2025 que realizou sua expedição mais produtiva —justo quando a carreira científica com que sonhava havia tanto tempo parecia estar em risco. Naquele mês de janeiro, uma semana depois da posse do presidente Donald Trump, o escritório de orçamento da Casa Branca emitiu um memorando anunciando o congelamento dos recursos federais, enquanto se avaliava se o dinheiro financiava atividades que entravam em conflito com as prioridades do novo governo, entre elas o fim dos programas de diversidade, equidade e inclusão. A Fundação Nacional da Ciência tirou seu sistema de pagamentos do ar. Van Etten —então pesquisadora bolsista da Instituição Oceanográfica de Woods Hole, em Cape Cod, Massachusetts— foi uma das pessoas privadas de sua prestigiosa bolsa de US$ 60 mil anuais concedida pela Fundação Nacional da Ciência. Van Etten continuou trabalhando sem receber, sob uma nuvem de incerteza. Um grupo de conversa com cerca de 300 cientistas, usado principalmente para trocar orientações durante o período de declaração do imposto de renda, transformou-se em uma tábua de salvação profissional. Os cientistas —em início de carreira e muitas vezes sem reserva financeira suficiente para suportar sequer a falta de um salário— compartilhavam informações, traçavam estratégias e desabafavam. Certo dia, Van Etten contou que estava passando por um momento particularmente difícil. Pouco depois, Willoughby apareceu em suas mensagens diretas. Assim como ocorreu com tantos congelamentos de recursos federais, aquele foi perturbador e confuso, mas temporário. Um juiz interveio, o governo Trump revogou o memorando e a Fundação Nacional da Ciência reativou seu sistema de pagamentos uma semana depois. Alguns cientistas de fato perderam recursos porque se considerou que seus projetos "não estavam alinhados aos objetivos do programa". Muitos, como Van Etten e Willoughby, ficaram abalados, mas conseguiram retomar o trabalho. A história poderia ter terminado ali. Em vez disso, o episódio catalisou uma nova colaboração científica. Uma pipeta bucal e uma escova de dentes steampunk Van Etten e Willoughby são biólogos, mas poderiam muito bem estar trabalhando em mundos diferentes. Van Etten se dedicava aos micróbios. Willoughby, pesquisador de pós-doutorado na Universidade Duke, concentrava-se em um grupo de plantas com flores chamado Streptocarpus, que inclui plantas de interior como a prímula-do-cabo. Unidos pelo desespero e pelo medo, Van Etten e Willoughby começaram a conversar sobre ciência. Ela lhe falou sobre sua próxima viagem em busca de Paulinella. "Você devia vir mesmo", disse ela. Foi assim que, na primavera de 2025, Willoughby se viu espremido em um laboratório improvisado com Van Etten e John Burns, pesquisador sênior do Laboratório Bigelow de Ciências Oceânicas, no Maine. Poucos minutos depois da chegada de Willoughby ao hotel, Burns começou a usar um instrumento científico steampunk, montado de forma improvisada com materiais encontrados na loja 7-Eleven local. Ele havia colado com supercola cerdas de uma escova de dentes em um lápis de cor e usava o dispositivo para empurrar os micróbios de um lado para outro. Em seguida, sacou uma ferramenta que fez Willoughby ficar boquiaberto: uma pipeta bucal. Burns sugava a ponta de um tubo, como se fosse um canudo, para separar os raros espécimes de Paulinella do caldo de vida ao redor. "À moda antiga", disse Willoughby. "Esse é um tipo de biologia que eu não faço." Enquanto Van Etten e Burns atualizavam Willoughby sobre o trabalho de campo realizado até então, explicaram que algumas Paulinella eram mais curtas e tendiam a flutuar livremente, enquanto outras eram mais longas e ficavam aderidas às plantas. Willoughby fazia esboços como parte de seu processo científico e pegou o laptop para começar a desenhar. Ele percebeu que as escamas se sobrepunham em direções diferentes —em uma, sobrepunham-se no sentido horário; na outra, no sentido inverso. O olhar renovado de alguém que não passara horas encarando Paulinella identificou uma característica curiosa e distintiva. Estariam diante de duas espécies diferentes? No fim de semana, Willoughby voltou de carro para casa, e Van Etten e Burns seguiram de carro até o laboratório dele no Maine. Lá, colocaram os espécimes em um microscópio eletrônico. Sob uma resolução tão alta, as diferenças eram marcantes. A empolgação aumentou —aquele projeto científico paralelo e quixotesco poderia, de fato, produzir novos conhecimentos científicos. Duas novas espécies entram em foco Todas as plantas da Terra contêm plastídios, um mecanismo fotossintético básico. E os plastídios remontam àquele acontecimento ocorrido há cerca de 1,5 bilhão de anos, quando um organismo unicelular se fundiu com uma bactéria fotossintética. Na Paulinella, o mecanismo fotossintético é chamado de cromatóforo —uma bactéria que já viveu de forma independente e ainda conserva seu próprio DNA. A equipe extraiu esse DNA e enviou as amostras a um laboratório na Coreia do Sul, chefiado por Hwan Su Yoon, biólogo evolucionista da Universidade Sungkyunkwan que já havia descoberto outra espécie de Paulinella. Ele também estuda uma possível nova espécie que recolheu em um lago de sua cidade. Yoon realizou o sequenciamento do DNA e confirmou que se tratava, de fato, de duas novas espécies. Estudar mais espécies de Paulinella pode orientar cientistas como Yoon, que sonha em um dia criar um novo organismo fotossintético —reproduzindo em laboratório "o mesmo truque que a natureza só conseguiu realizar duas vezes", disse ele. Isso também pode lançar luz sobre a questão fundamental

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