Em crise e sob reforma, ONU � mais aprovada do que reprovada, indica pesquisa

Em crise e sob reforma, ONU � mais aprovada do que reprovada, indica pesquisa

A ideia de que as Nações Unidas vivem grave crise de eficiência e legitimidade fez parte de praticamente todos os discursos de líderes na Assembleia Geral em Nova York na última semana. O aparente consenso de que a ONU não funciona não se traduz, contudo, em uma desaprovação generalizada da organização. Pelo contrário, pesquisas recentes sobre a percepção pública da ONU mostram que a entidade maior de cooperação internacional é, na mediana global, mais aprovada do que reprovada pela população de países-membros. Pesquisa Gallup divulgada durante a Assembleia Geral deste ano ouviu adultos de 137 países de março a dezembro do ano passado. O resultado indica que a taxa mediana de aprovação nos 137 países foi de 50%; 26% desaprovam. Além disso, 15% afirmam não saber avaliar, e 2%, que a resposta depende de outros fatores. Foram cerca de mil adultos ouvidos em cada país, com margem de erro amostral de 2,2 a 5,5 pontos percentuais. Dados agregados por regiões mostram que, com exceção de uma delas, todas seguem a tendência global, ainda que com amplitudes muito diferentes. A pesquisa indica que o Sudeste Asiático é a região que mais aprova a ONU (69% de aprovação contra 18% de desaprovação), seguida pela África Subsaariana (61% contra 18%) e pela Europa fora da União Europeia (57% a 30%). Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo A América Latina é a região em que aprovação e desaprovação são mais equilibradas, registrando 38% que aprovam a ONU e 34% que desaprovam. A única região pesquisada com mais desaprovação do que aprovação é Oriente Médio e Norte da África, com 46% de desaprovação e 23% de aprovação. Os resultados acompanham o que outros levantamentos sobre o tema têm registrado, segundo Albert Trithart, chefe de publicações do Instituto Internacional da Paz (IPI, na sigla em inglês), que estuda o tema. Pesquisa do Pew Research Center com 37 países mostra mediana de 55% de aprovação contra 37% de desaprovação, por exemplo. "É importante lembrar que a maioria das pessoas não sabe muito sobre a ONU. Nem sempre é claro o que elas têm em mente quando se fala do assunto. Pensam no Conselho de Segurança, em alguma operação de paz? Ou de forma geral, na cooperação internacional?, diz Trithart. O especialista indica, por exemplo, que uma possível hipótese para os dados é a forte correlação encontrada em estudos entre confiança geral nas instituições e a avaliação da ONU, como uma extrapolação da aprovação ou desaprovação das instituições domésticas para o cenário internacional. Ou seja: países em que a população deposita mais confiança em suas próprias instituições tendem a ver as Nações Unidas de maneira mais positiva. Para ele, a nova pesquisa Gallup é notável porque consegue cobrir muitos países e, em particular, regiões e nações que costumam apresentar as maiores lacunas de dados sobre o tema, como a África Subsaariana, onde a ONU é mais presente com operações de paz e ajuda humanitária. A empresa de pesquisas não tem, contudo, outros levantamentos semelhantes recentes, e tampouco há séries históricas longas e completas de outras pesquisas que mostrem com alto nível de confiança a mudança da opinião pública sobre a ONU em nível global por décadas ou anos. Isso, somado ao fato de que a ONU é um guarda-chuva de dezenas de agências, operações e organizações, significa que é difícil traçar conclusões gerais e mesmo correlações simples entre o trabalho da organização internacional e percepções sobre ela. Há ainda uma grande discrepância entre países. Em alguns casos os números parecem mais óbvios, como em Israel e nos territórios palestinos, onde a aprovação líquida (percentual dos que aprovam menos o dos que desaprovam) é 61% negativo e 45% negativo, respectivamente. O conflito israelo-palestino é parte constituinte dos 81 anos de história da ONU e tem provocado críticas de todos os lados, seja pela percepção de parcialidade ou pela ineficácia em solucionar a crise. Outros casos são menos evidentes, como a desaprovação líquida de 58% na Rússia, um membro permanente do Conselho de Segurança da organização, com enorme poder em razão de sua capacidade de veto no colegiado máximo. No Brasil virou meme a ideia de que a ONU não faz nada diante das graves crises humanitárias e guerras simultâneas, o que se reflete na aprovação líquida negativa de 4%, um pouco abaixo da América Latina e Caribe, mas não muito distante da aprovação líquida regional de 4% positivo. A pesquisa não divulgou esses dados desagregados por país. Outro fator captado pela pesquisa foram as percepções sobre a ONU por idade. A Gallup ouviu pessoas acima de 15 anos, e os resultados mostram que a faixa etária de 15 a 29 anos é a que mais aprova a organização, em todas as regiões, incluindo no Oriente Médio e no Norte da África —onde, porém, os mais jovens ainda mostram reprovação líquida de 20%, contra 36% negativo para maiores de 50 anos. De acordo com Trithart, há uma generalização que se reflete em narrativas sobre a ONU de que a organização vive uma crise de legitimidade em particular entre os mais jovens e a geração Z, mas os dados dessa e de outras pesquisas não indicam isso. Entre as hipóteses levantadas pelo especialista estão a possibilidade de que os mais jovens se preocupam com questões fundamentalmente transnacionais, como a crise climática, ou que cresceram sob o impacto da pandemia da Covid-19, e que portanto entendem mais facilmente que algum nível de cooperação internacional é necessário —e que a ONU é esse canal. "As pesquisas mostram que as pessoas querem, majoritariamente, a ONU fazendo mais, tendo mais autoridade e sendo mais ativa, não menos", afirma Trithart.

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