"Se você concorda que o nosso país não tem que se curvar para os interesses dos Estados Unidos e de nenhum outro país, compartilhe!", publicou nas redes sociais a conta Núcleo PT de Roma. "Com Washington, a palavra é soberania e ‘interferência’. Mas quando chegamos à China, parceria estratégica. Curioso, não?", postou o perfil Liga Conservadora Brasil-Alemanha. Na reta final da disputa presidencial, lulistas e bolsonaristas no exterior se movimentam para mobilizar um contigente recorde de eleitores até o próximo domingo (4). São 918,9 mil brasileiros aptos a votar fora do país, um grupo que não para de crescer e que tem se interessado mais em ir às urnas, apesar dos obstáculos do voto presencial. Agrupados no sistema eleitoral como se fossem uma 28ª unidade federativa, chamada de ZZ, os brasileiros que moram no exterior já superam o eleitorado de três estados –Roraima (401,5 mil), Amapá (577,5 mil) e Acre (614,4 mil). O crescimento é constante, com alta de quase 360% em 16 anos. Desde 2022, o aumento foi de 31,8%, ante 1,4% do total do eleitorado. Essa alta reflete a maior presença de brasileiros no exterior. Segundo o Itamaraty, no ano passado o número de brasileiros fora do país atingiu o recorde de 5,3 milhões. Há quatro anos, eles eram 4,6 milhões. A tecnologia também ajuda. Desde a pandemia do Covid-19, ficou mais fácil transferir o título para outro país de forma remota, sem precisar ir a um consulado. Com o aplicativo e-título, o imigrante também consegue regularizar sua situação e quitar dívidas com a Justiça Eleitoral. Ainda assim, votar fora do país exige esforço. Em muitos casos, é preciso viajar até uma embaixada ou posto consular. Na Itália, por exemplo, só é possível votar em Roma e Milão. Na França, em Paris e Marselha. O voto é igualmente obrigatório para quem mora fora. "As coisas não param para você votar, como no Brasil, e pode ser necessário se deslocar, perder um dia de trabalho. São custos de tempo, energia e dinheiro", diz Teresa Schneider Marques, professora de ciência política da PUC-RS e pesquisadora da Uerj sobre participação política transnacional. "Isso é o que mais explica o fato de muitas pessoas não votarem." Nestas eleições, será possível votar em 186 cidades de 134 países. Os que reúnem mais eleitores são EUA, com 265,4 mil, Portugal, com 134,8 mil, e Japão, com 88,4 mil. A abstenção no exterior é historicamente mais alta do que no território brasileiro, mas isso vem mudando. No segundo turno de 2022, a abstenção foi de 55,4%, quatro pontos percentuais a menos do que em 2018 (59,7%). Como houve aumento no número de eleitores inscritos, foram mais de 100 mil votos válidos a mais em quatro anos. Autora de uma pesquisa sobre a participação do eleitorado brasileiro na França em 2022, Schneider Marques identificou um motivo, ao menos local, para o aumento do interesse em ir às urnas. Enquanto estudos de voto transnacional de outros países já mencionaram como incentivos a necessidade do eleitor de reivindicar sua identidade nacional ou o resultado de um aprendizado cívico, seu trabalho encontrou o que ela chamou de "sentimento de urgência". Eleições Hoje Receba no seu email destaques das campanhas, pesquisas e disputas nos estados "No nosso caso, o sentimento de urgência ganhou disparado. Em 2022, muitas pessoas foram votar porque tinham a sensação de que aquela eleição podia mudar o rumo do país para uma democracia ou para uma ditadura", diz à Folha. O imigrante-eleitor, diz a professora, costuma ter mecanismos peculiares de decisão. "O contexto importa muito, porque ele vê a eleição como um processo global. Ele não vê mais a força política para a qual vota, seja esquerda ou direita, como isolada", afirma. "Ele percebe que as relações entre o país em que mora e o país de origem afetam a forma como ele é visto, tanto no meio social, quanto no mercado de trabalho." O modo dos principais partidos de lidar com o eleitorado no exterior tem estratégias diferentes. O PT tem uma secretaria de Relações Internacionais, chefiada pelo senador Humberto Costa, conectada com 26 núcleos fora do país. "O objetivo do núcleo é despertar na população brasileira que vive na Itália tudo o que o PT defende. Tem muitos brasileiros que vêm trabalhar que a gente consegue sensibilizar", afirma Gabriela Lima, responsável por Bolonha, no norte da Itália, com que cerca de 50 inscritos. Ela também atua como delegada de fiscalização no local de votação, em Milão, e tem contato direto com a secretaria de Relações Internacionais e com a Fundação Perseu Abramo. Diz receber material de campanha digital, mas nenhum recurso de apoio. No PL, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, atualmente nos EUA, chegou a ser nomeado em 2024 secretário de Relações Internacionais, mas a família se beneficia principalmente da afinidade com comunidades no exterior com forte presença nas redes sociais. Como a Liga Conservadora Brasil-Alemanha, que tem 105 mil seguidores no Instagram e apoia o senador Flávio Bolsonaro (PL). Segundo a criadora da conta, Samia Sittel-Faraj, que mora em Bonn, a iniciativa envolve produção e divulgação de conteúdo e mobilização de brasileiros no exterior para que participem do processo eleitoral. A atuação, afirma, é voluntária, sem vínculos partidários e recebimentos de recursos, embora tenha contato com representantes do PL. "Neste momento, estamos divulgando a plataforma do PL para o cadastramento de fiscais eleitorais no exterior." Para a professora Schneider Marques, a atuação dos partidos brasileiros junto ao eleitorado no exterior ainda é aquém do que ocorre em outros países. Uma das razões é a ausência de representantes no Congresso eleitos pelos brasileiros no exterior. Na Itália, são 12 vagas no Parlamento preenchidas com o voto de expatriados. A existência dessa figura favorece campanhas partidárias fora do país mais organizadas. "No Brasil, os partidos ainda não avançaram tanto nesse sentido, mas acredito que é uma tendência e uma necessidade. Essas comunidades só vão crescer, o número de votos só vai se ampliar. Em um contexto de eleições acirradas, o voto no exterior pode fazer a diferença."
Eleitorado brasileiro no exterior bate recorde e atrai aten��o de lulistas e bolsonaristas
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