A editora canadense Boréal rompeu a parceria com o escritor haitiano-canadense Thélyson Orélien após concluir que há indícios do uso de inteligência artificial no seu romance "C’Était Ça ou Mourir". A decisão ocorre semanas após o livro ser retirado da lista de semifinalistas do Goncourt, o maior prêmio da literatura em francês. A polêmica começou em 21 de setembro, quando uma conta anônima no X afirmou ter submetido o romance ao Pangram, programa de detecção de IA. "Testamos vários trechos, de diferentes partes do manuscrito, e obtivemos quase sempre o mesmo resultado: 100% IA.", dizia a publicação. Dois dos responsáveis por essa conta foram posteriormente identificados como Samuel Fitoussi, colunista do jornal francês Le Figaro, e Pierre-Thomas Eckert, pesquisador da universidade espanhola Villanueva. A acusação ganhou repercussão na imprensa francesa, com diferentes veículos divergindo sobre o possível uso de IA na obra. Orélien sofreu mais um baque quando o jornal Libération recuperou um texto seu de 2012, que no prefácio plagiava o livro "O Despertar dos Mágicos", de Louis Pauwels e Jacques Bergier, originalmente publicado em 1960. Com isso, o Goncourt retirou Orélien da disputa, afirmando em comunicado que "os plágios dos quais o autor foi culpado ao longo do tempo e que acabam de ser revelados, assim como os resultados convergentes de diversas análises realizadas por pesquisadores e jornalistas confiáveis, que apontam que [o livro] é, muito provavelmente, em grande parte, produto de inteligência artificial". Na ocasião, a editora Boréal respondeu publicamente que era importante não tirar conclusões precipitadas: "Infelizmente, neste momento, não podemos confirmar nem negar as acusações que pesam sobre o autor." Nesta semana, no entanto, a Boréal voltou a falar sobre o caso com um novo posicionamento. Após uma investigação mais aprofundada, a editora confirmou indícios de que inteligência artificial foi usada no processo de escrita e afirmou que não fará novas tiragens do livro nem publicará outras obras de Orélien. Em nota, a editora afirmou que o autor se recusou a fornecer documentos para a análise. A Boréal reuniu, então, as versões do romance que tinha e encomendou uma análise externa, a qual identificou vestígios de marcadores de IA nos metadados de alguns arquivos. "Para nós, a questão fundamental é a confiança entre autores e editores. Após o surgimento das acusações, continuamos confiando em Thélyson Orélien, que nos assegurava nunca ter recorrido à tecnologia. Essa afirmação foi agora desmentida. Nessas circunstâncias, não podemos dar continuidade à nossa relação profissional." Tudo a Ler Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias Ao longo de todas as acusações, Orélien disse não ter usado IA na escrita. No começo do mês, em comunicado enviado à AFP, o autor chamou as acusações de "calúnia e heresia". Ele afirmou ter usado ferramentas de IA para pesquisa, principalmente para expressões estrangeiras. "Nenhuma frase deste livro foi criada por uma máquina, tampouco o sentido ou a estrutura de uma história que vem das minhas entranhas." "C’Était Ça ou Mourir" (em tradução livre, "era isso ou morrer") já vendeu mais de 35 mil exemplares e venceu os prêmios franceses Fnac, Méduse e Plume. A obra narra, em primeira pessoa, a trajetória de um professor que deixa o Haiti em meio à violência de gangues e entra em uma jornada perigosa atravessando 12 países até encontrar refúgio no Canadá. Em sua declaração mais recente sobre o caso, durante o festival Les Correspondances, na França, Orélien disse que vai se recolher até que as coisas se acalmem. "Há um desejo não apenas de atacar o livro, mas sobretudo a minha voz." Acusações de uso de inteligência artificial estão se tornando cada vez mais comuns no mundo literário. Neste ano, outros casos de repercussão foram o de Jerry Falade, autor de "Call Me, I’ll Hide the Body" que teve o livro cancelado pelo próprio agente nos Estados Unidos; Mia Ballard, que viu seu "Shy Girl" ser retirado das prateleiras do Reino Unido pela editora; e H.M. Wolfe, que teve o sucesso de seu livro "Daggermouth" questionado após suspeitas levantadas pela revista americana The Atlantic.
Editora rompe com escritor Th�lyson Or�lien ap�s investiga��o por uso de IA
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