Investidores globais estão evitando títulos americanos. As discussões sobre a perda de força do dólar estão ganhando espaço. Governos estrangeiros estão retirando seu ouro dos cofres nos Estados Unidos. Quase dois anos após o início do segundo mandato do presidente Donald Trump, a economia mundial busca cada vez mais maneiras de se distanciar dos Estados Unidos. Preocupações com uma dívida de US$ 40 trilhões (R$ 205,7 trilhões), o uso excessivo de sanções para resolver problemas de política externa e a disposição de Trump para levar os limites do Estado de Direito ao extremo estão levantando dúvidas sobre a atratividade dos Estados Unidos como porto seguro para investimentos globais. Apesar das promessas de empresas e países estrangeiros de investir nos Estados Unidos —em muitos casos, para conquistar o apoio da Casa Branca—, o capital começa a buscar destinos alternativos. Participação do dólar nas reservas globais cai, enquanto países buscam reduzir a dependência dos EUA - Pedro Affonso/Folhapress "Fatores geopolíticos e a transformação do dólar em uma arma por meio de sanções financeiras dos EUA estão levando bancos centrais e outros investidores oficiais a tentar diversificar seus ativos para longe do dólar", disse Eswar Prasad, ex-chefe da divisão da China do Fundo Monetário Internacional (FMI). Os Estados Unidos ainda não são um país evitado pelos investidores. Investidores privados continuam direcionando dinheiro para os mercados financeiros e as ações americanas, a infraestrutura de inteligência artificial está em forte expansão e nenhuma moeda rival está prestes a derrubar o dólar. Em depoimento ao Congresso na terça-feira (15), o secretário do Tesouro, Scott Bessent, disse continuar confiante na credibilidade do sistema financeiro americano. Ele argumentou que os leilões de títulos seguem funcionando com sucesso e que o dólar continua forte, considerando sua participação nas transações globais. "Os EUA são, de fato, o líder, e o líder não teme a concorrência", disse Bessent. "A concorrência nos torna melhores." Mas começam a aparecer fissuras no domínio econômico americano. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisõesO exemplo mais evidente está no mercado de títulos. Os rendimentos têm disparado à medida que investidores preocupados com o aumento da dívida nacional exigem uma taxa de retorno maior para comprar títulos do Tesouro americano. Nesta semana, o rendimento do Treasury de dez anos superou 5%, atingindo o maior nível desde 2007. Com a situação fiscal de longo prazo dos Estados Unidos parecendo instável, alguns países começam a questionar se os EUA são um investimento prudente. Neste mês, o fundo soberano da Noruega, o maior do mundo, disse que planeja reduzir suas posições em títulos do Tesouro americano enquanto busca retornos maiores em outros mercados. E HÁ AINDA O FUTURO DO DÓLAR Quase 90% das transações cambiais globais são realizadas em dólares. Mas a participação da moeda nas reservas mantidas pelos bancos centrais vem caindo de forma constante na última década, para 56% no fim de 2025, ante 64% em 2015. No ano passado, Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, disse que a formulação errática de políticas nos Estados Unidos estava criando as condições para um "momento global do euro". Os Estados Unidos se aproveitaram do status especial do dólar para usá-lo como instrumento de política externa, impondo sanções severas a adversários como Irã e Rússia. À medida que os EUA ampliam o uso de sanções para tentar resolver conflitos globais, a permanência do dólar como moeda de reserva mundial passou a ser questionada com mais frequência.Embora o euro e o renminbi chinês não pareçam prontos para superar o dólar tão cedo, o surgimento de moedas digitais de bancos centrais, stablecoins e criptomoedas oferece aos adversários dos EUA novos caminhos para contornar o sistema financeiro americano em transações internacionais. A China lidera o desenvolvimento de uma plataforma de moeda digital para transações internacionais com Hong Kong, Tailândia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. O sistema permitiria movimentar dinheiro com mais rapidez e taxas menores do que as possibilitadas pelas transações bancárias tradicionais. Um projeto semelhante de pagamentos internacionais, liderado por alguns dos principais países industrializados do Grupo dos Sete e por instituições financeiras ocidentais, também está em desenvolvimento, mas não avançou tanto quanto a iniciativa chinesa, conhecida como mBridge. Rússia e Índia disseram na semana passada que trabalham em um plano que permitiria usar moedas digitais de bancos centrais para liquidar pagamentos do comércio internacional. Esse mecanismo permitiria aos dois países ampliar sua relação comercial e reduzir a dependência de instituições financeiras ocidentais que podem ser alvo de sanções americanas. "A história do afastamento do dólar é uma das histórias mais antigas que existem", disse Josh Lipsky, presidente da área de economia internacional do Atlantic Council. "Os países vêm pensando em maneiras de contornar o dólar, e a tecnologia está tornando isso um pouco mais barato e fácil do que antes." Enquanto alguns países apostam no dinheiro digital, outros estão recorrendo ao ouro diante das preocupações com a estabilidade dos Estados Unidos.Em 2025, as reservas internacionais mundiais mantidas em ouro superaram as reservas oficiais estrangeiras em títulos do Tesouro americano. Neste ano, o preço do ouro ultrapassou US$ 5.000 (R$ 25,6 mil) por onça troy pela primeira vez na história, enquanto bancos centrais aumentaram suas compras do metal em meio à intensificação dos conflitos globais e às preocupações com a inflação. A demanda por ouro é tão alta que alguns países também querem mantê-lo mais perto de casa. Com o aumento das tensões geopolíticas e Trump lançando ameaças de tarifas contra aliados europeus, alguns chegaram a tomar a rara decisão de transferir o ouro que mantinham em cofres do Fed (Federal Reserve) de Nova York. "É como se os países não confiassem nos EUA", disse Daniel Tannebaum, que trabalhou no OFAC (Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Tesouro americano) e foi coordenador de compliance do OFAC no Fed de Nova York. "Acho, sim, que existe um fator de medo." Esse "fator de medo" também está gerando consequências para empresas americanas que tentam fazer negócios no exterior.Tannebaum, que é sócio da área de finanças e riscos da Oliver Wyman, afirmou que o uso agressivo de tarifas e controles de exportação pelos Estados Unidos tornou países e empresas europeus mais cautelosos em adotar tecnologia americana para setores sensíveis, como inteligência artificial. Eles temem que, se dependerem dos Estados Unidos para esse tipo de infraestrutura, ela possa ser usada contra eles caso Washington decida proibir ou desativar a tecnologia, como já fez durante disputas com China e Rússia.
Economia mundial busca alternativas aos EUA diante de d�vidas sobre d�lar
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