Dia das Bruxas ou Dia do Saci? Entenda a disputa pelo 31 de outubro

Dia das Bruxas ou Dia do Saci? Entenda a disputa pelo 31 de outubro

Em um cartum que circula pelo Brasil há mais de 20 anos, o Saci-Pererê aparece diante de uma abóbora de Halloween. Ele a transforma num prato de jerimum com carne seca. O desenho é de José Luiz Ohi e virou símbolo de uma briga que acontece todo dia 31 de outubro. Na mesma data em que o mundo comemora o Dia das Bruxas, o Brasil tem outra comemoração: o Dia do Saci. O Halloween é uma festa muito antiga. Teve origem entre os povos celtas, que durante a Antiguidade viviam na região que hoje é a Irlanda, e celebravam o chamado Samhain, festejo que marcava o fim da colheita e a chegada do inverno no Hemisfério Norte. Era uma época de bastante misticismo. Os celtas acreditavam que, naquela noite, o mundo dos vivos ficava mais próximo do mundo dos mortos. Para se proteger dos espíritos, acendiam fogueiras e usavam disfarces assustadores. Daria até para prever o futuro: descobrir a data da morte de uma pessoa ou o nome de seu futuro marido ou mulher, segundo as crenças deles. Com a chegada do cristianismo na região, a data passou a marcar a véspera do dia de Todos os Santos, em 1º de novembro. Na versão antiga da língua inglesa, o dia era conhecido como "all hallows' eve". Daí veio o nome Halloween. Quando o costume chegou aos Estados Unidos, por volta de 1840, surgiram as fantasias, as abóboras esculpidas e a tradição das crianças saírem de porta em porta pedindo doces e perguntando: gostosuras ou travessuras? No Brasil, o Halloween chegou de outra forma. O historiador Bruno Baronetti, pesquisador de cultura popular na USP, diz que a festa desembarcou por aqui pela influência dos filmes e desenhos americanos que passavam na TV brasileira. Por isso, diz ele, a data se firmou no país sobretudo como uma festa de consumo, e não como algo que faz parte da nossa história. "Pode se tornar uma manifestação cultural, mas ainda é algo mais comercial do que de uma tradição", afirma. Foi para fazer frente a isso que um grupo de escritores, jornalistas, professores e artistas inventou o Dia do Saci, em 2003. A escolha do 31 de outubro foi de propósito. A ideia era que, toda vez que alguém falasse em dia das Bruxas, houvesse uma chance de falar do Saci, do Curupira e de outras criaturas também. Algumas cidades brasileiros já criaram leis municipais instituindo o dia do Saci. O estado de São Paulo também o comemora há mais de 20 anos, mas não existe uma celebração nacional a essa figura, que é lembrada apenas no dia do Folclore, em 22 de agosto. Andriolli Costa, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e presidente da Rede de Estudos e Pesquisas em Folkcomunicação, diz que a escolha do personagem para 31 de outubro também teve um significado especial, já que o mito dele fala de esperteza, mas também de transformação. "Contra um oponente poderoso, melhor do que bater de frente é usar a sagacidade e o deboche do Saci-Pererê", afirma o pesquisador, em referência ao poder da cultura americana. A escolha também levou em conta o quanto o personagem já fazia parte da cultura brasileira. Suas histórias, transmitidas oralmente por diferentes gerações, ganharam ainda mais popularidade com a literatura e a televisão. Em 1918, Monteiro Lobato publicou um livro reunindo relatos sobre o Saci enviados por leitores de todo Brasil. Anos depois, o escritor levou o personagem às aventuras do "Sítio do Picapau Amarelo", que também ganhou adaptações para o teatro e televisão. Já o cartunista Ziraldo criou, na década de 1950, a "Turma do Pererê", uma série de histórias em quadrinhos protagonizada pelo mito. "Para muita gente, ele é uma das primeiras imagens que vêm à cabeça quando se fala em folclore brasileiro", afirma Costa. De gorro vermelho, cachimbo na boca e uma perna só, o Saci é travesso e esperto, costuma aparecer em redemoinhos de vento e se diverte pregando peças nas pessoas. Segundo algumas versões da lenda, seus poderes estariam concentrados no chapéu, e quem conseguisse tirá-lo de sua cabeça poderia controlar suas travessuras. Suas histórias foram se transformando ao longo dos séculos, incorporando elementos indígenas, africanos e europeus, até chegar à figura de hoje, que tem até uma versão da geração Z. "Nos contos mais antigos, o Saci podia atrapalhar o trabalho na roça e embaraçar a crina dos cavalos; hoje, ele também derruba a internet, embaraça fones de ouvido", diz Costa. Ele acrescenta que as histórias vão se atualizando pois acompanham a vida de quem está contando. O pesquisador estuda o folclore brasileiro há anos e não acha que seja preciso escolher um lado na rinha entre Saci e Bruxa. A vontade de se fantasiar e brincar de susto pode servir de porta de entrada para explorar as assombrações brasileiras. Para ele, o vínculo com a cultura precisa ser construído por boas memórias. Isso já acontece. Em Belém, no Pará, o Cortejo Visagento ocupa as ruas com gente fantasiada de Matinta Perera e de Moça do Táxi (assombrações da região amazônica). Já em Paraibuna, no interior de São Paulo, a Procissão do Corpo-Seco leva às avenidas uma representação gigante desse morto-vivo das histórias caipiras, e conduz o cortejo até a mata onde ele supostamente aparece. As brincadeiras, as festas, as comidas, as músicas e os ditados também são parte do folclore. Costa lembra que o Lobisomem e a Mula Sem Cabeça nasceram no mesmo caldeirão de onde vieram a Loira do Banheiro, sobre a qual ouvimos nos corredores da escola, e o Homem do Saco, contada pelos pais. A diferença é que esses últimos são tão populares no dia a dia que ninguém repara que estamos falando de mitos folclóricos. "Folclore é a possibilidade de entendermos como a cultura brasileira pode ser mágica, pode ser transformadora e sonhadora", diz Baronetti. "Ele traz os anseios, traz os sonhos, traz a esperança do povo brasileiro".

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