Em menos de nove meses, o Brasil sediará a Copa do Mundo feminina de futebol, com 32 países. A competição promete ser um sucesso de público, com estádios cheios e os jogos da seleção brasileira lotados. Baseio-me na Fifa, que projeta mais de 2 milhões de torcedores. Se ocorrer, a média por partida será superior a 31 mil pessoas. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Caso esse cenário se concretize, e sendo brasileiros a maioria dos presentes –haverá muitos torcedores estrangeiros, porém em menor número–, estará comprovado que nos encantamos com um grande evento, com algo fora do trivial. E há interesse especial pela seleção, mesmo sem que se saiba o nome das jogadoras. Tem a Marta!, dirão. E eu digo: a Marta todo mundo conhece!, mas só ela. Ou você sabe quem foi a artilheira do Campeonato Brasileiro que acaba de acabar? Não é vergonha não saber. No dia a dia, o futebol feminino, o dos clubes, vive na obscuridade. Quem esteve ligado nos jogos da final Corinthians x São Paulo, cravará: você está errado, os estádios, em Itaquera e no Morumbi, tiveram respectivamente mais de 20 mil e quase 50 mil torcedores, estavam festivos, baita sucesso. Baitas exceções. Fiz um levantamento demorado, consultando o boletim financeiro de cada uma das 167 partidas do Brasileiro da Série A, e cheguei a estas conclusões: 1) é um torneio deficitário e 2) com amplo desinteresse do torcedor em ir às arenas. Arenas, frise-se, é modo de dizer. Várias das praças esportivas nas quais as jogadoras se apresentam são básicas, com muros e/ou árvores, não arquibancadas, atrás dos gols. Caso da bucólica Frimisa, em Santa Luzia, na Grande Belo Horizonte, onde o América, da capital mineira, mandou três partidas. O número de torcedores nelas? Zero. Portões fechados, não por punição, mas por opção, a fim de reduzir custos operacionais (seguranças, faxineiros, porteiros, bilheteiros etc.). Abrir um estádio é caro. Com o baixo interesse das pessoas, as partidas pesam na conta dos times. Das 167 do Brasileiro, 162 ficaram no vermelho no boletim financeiro. Escaparam os duelos da decisão, que geraram juntos uma arrecadação de R$ 601,2 mil, e, na fase classificatória, dois jogos do Corinthians no Parque São Jorge e o Cruzeiro x Atlético-MG na Arena do Jacaré, em Sete Lagoas. O total do prejuízo operacional é de R$ 3,402 milhões. Com raras exceções, desprestígio. Teve Fla-Flu (Fla-Flu!) para 208 torcedores no estádio Luso-Brasileiro. Teve Bahia x América-MG, no Pituaçu, para 20 fãs, ou menos que as 22 jogadoras em campo. A média da fase classificatória, tirando os jogos com mando do Corinthians (a Fiel sempre vai em várias centenas), foi de 358. A CBF, que repassa verba aos 18 times participantes (cada um assegura ao menos R$ 720 mil), celebrou o aumento na audiência televisiva a partir das quartas de final. É bom ter mais gente no sofá? Sim, nada contra. Mas qualquer um que tenha ido a um estádio sabe que a emoção não se compara. Para a confederação, cabe aos clubes empreender ações que estimulem os torcedores a comparecerem. Respondendo à pergunta feita parágrafos atrás, a artilheira do Brasileiro de 2026 foi Marília Furiel, do Cruzeiro, com 11 gols em 18 partidas. Pronto. Se você só conhecia a Marta, tem um nome para guardar até a Copa. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Deficit�rio e desprestigiado
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