Istambul Incentivar medidas para diminuir a geração de lixo é uma das pautas prioritárias da Turquia para a COP31, a conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas que acontecerá na cidade de Antália em novembro. A presidência turca da cúpula quer reduzir pela metade o crescimento global de resíduos até 2035. O objetivo integra a chamada Agenda de Ação, com medidas voluntárias para engajar o setor privado e os governos no combate ao aquecimento global. O lixo não é um dos grandes culpados pela crise climática, provocada principalmente devido à queima de combustíveis fósseis para gerar energia. Mesmo assim, a contribuição dos resíduos não é desprezível. Em 2019, o setor lançou à atmosfera 2,3 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2e), a medida padrão dos gases do efeito estufa. Isso equivale a 4% das emissões globais daquele ano e ao dobro da poluição da aviação, que respondeu por 2% no mesmo período. Os dados são do relatório mais recente do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, publicado em 2023. Christian Mensah, conselheiro do campeão climático da COP31, na sede da Fundação Lixo Zero, em Istambul - 14.out.26 - Divulgação Governo da Turquia Os resíduos provocam grandes emissões de metano (CH4), um gás de efeito estufa cerca de 30 vezes mais potente que o CO2. O metano fica dez anos na atmosfera, enquanto o dióxido de carbono permanece por até um século. Essas características fazem do corte rápido nas emissões de resíduos um atalho para conter o aumento da temperatura da Terra no curto prazo. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisões"Lixo zero não é deixar de gerar resíduos, porque não comemos a casca da banana. Quando falamos em circularidade, nos referimos a uma situação em que, antes de começar qualquer trabalho, precisamos pensar em como descartar, minimizar ou reaproveitar os resíduos", diz Christian Mensah, conselheiro do campeão climático da COP31, cargo ocupado pelo empresário Samed Agirbas. A função do campeão climático é mobilizar empresas, indústrias e organizações sociais, além de ouvir as demandas desses agentes e transmiti-las para a presidência da conferência. "Até agora, o mundo só enxerga resíduos como lixo, não como recurso. Sempre pensamos em como nos livrar do lixo, nunca sobre como usá-lo", afirma Mensah, que atuou como chefe de relações intergovernamentais do programa das Nações Unidas para assentamentos humanos. PLATAFORMA DE ISTAMBUL Durante a COP31, a Turquia pretende alavancar a chamada Plataforma de Istambul. A iniciativa quer reunir soluções já existentes para reduzir resíduos, mas que estão pulverizadas em diversas áreas. O mecanismo foi apresentado durante um fórum realizado em junho pela Fundação Lixo Zero, criada em 2023 pela primeira-dama turca, Emine Erdogan, e atualmente presidida por Agirbas. A organização, aliás, é uma das vitrines do país para o setor de resíduos. Istambul pretende se tornar a capital mundial do lixo zero e atrair dez organizações internacionais do ramo nos próximos cinco anos. A Turquia, por outro lado, é um dos maiores produtores de plástico no planeta. "A ideia é lançar uma declaração durante a COP para endossar a Plataforma de Istambul, que todos os países poderão assinar", diz Mensah à Folha. Ele afirma que a Turquia está tomando medidas na direção de reduzir o uso de plástico. A agenda de resíduos não deve ser negociada formalmente em Antália. O processo das conferências exige consenso entre representantes de quase 200 países, e a presidência turca quer avançar no tema por fora da diplomacia. Neste ano, o comando das negociações ficará a cargo da Austrália, em uma parceria inédita na história das conferências de clima. Questionado se não seria necessário abordar o assunto de forma diplomática na COP, Mensah diz que isso só poderá ser decidido se os países estiverem a par da discussão. "Temos metas para a área de resíduos, mas não é como se fôssemos negociar nada, porque esta será uma COP da implementação", afirma. A última conferência, realizada em Belém (PA), também usou o mote da implementação, mas trouxe poucos avanços práticos. "Por enquanto, os resíduos ficam na Agenda de Ação, para termos controle sobre isso. Se levarmos para a sala de negociação, o que vai acontecer? Um novo Acordo de Paris", diz. Assinado por 195 países em 2015 na capital francesa, o tratado definiu a meta de conter o aquecimento global a 1,5°C, para evitar as piores consequências das mudanças climáticas. Porém, o acordo depende de compromissos voluntários dos países, que estão muito aquém do necessário para conter o problema. Como resultado, o limite de 1,5°C será rompido nesta década, e efeitos devastadores são esperados. "Se é uma COP da implementação, não queremos introduzir novas coisas para atrasar o progresso", afirma Mensah. Ao contrário das edições anteriores, a cúpula sediada na Turquia não terá a obrigação de abordar tópicos espinhosos. A COP29, por exemplo, precisava atualizar a meta global de financiamento climático, um dos temas mais delicados das conferências. Mensah diz defender um plano para cada país reduzir seus resíduos de forma gradual, além de mobilizar novas fontes de capital. Para o conselheiro da COP31, taxar empresas cujos produtos geram quantidades elevadas de lixo seria um caminho viável. "A regulação é necessária para todos jogarem o mesmo jogo. Algumas companhias geram lixo que pode ser usado nos produtos de outras empresas, e precisamos criar uma sinergia para transferir os resíduos entre os atores", afirma. "Ao usar a casca da banana para gerar energia, por exemplo, você reduz as emissões de metano e ainda cria oportunidades para a economia." O repórter viajou a convite do governo da Turquia
COP31 pretende estimular governos e empresas a reduzir gera��o de lixo
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