Confus�o com juros no caso da Casas Bahia

Confus�o com juros no caso da Casas Bahia

A cobertura da recuperação judicial de gigantes do varejo brasileiro é complicada. São temas áridos tratados com frequência também em termos áridos, apesar de essas lojas e marcas fazerem parte do cotidiano de milhões de pessoas. A clareza é rara, e a mensagem passada aos pedaços não faz bem. Na última semana, um editorial da Folha colocou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nominalmente na história da Casas Bahia e da Marabraz, ambas enroladas sobretudo por mérito próprio: "Casas Bahia e Lojas Marabraz pedem recuperação judicial; política de gastos de Lula agrava os problemas", afirmava o subtítulo. Independentemente de opinião, cujo teor não cabe discutir neste espaço, o jornal estabeleceu uma associação factual bastante simplista, a ponto de flertar com a desinformação. Apesar de o texto reconhecer que "transformações do mercado, bem como deficiências de gestão ou estratégia comercial e disputas societárias, têm papel relevante nas crises", o destaque desmesurado ao presidente como fator agravante fazia mal ao argumento. Por mais desastrosa que seja a condução fiscal do país, e aqui não se nega que haja problemas nela, os casos específicos da Casas Bahia e Marabraz vão bem além dos juros catapultados pelo gasto irresponsável e pelo parlamentarismo orçamentário. O texto não esconde as variáveis da história, mas o destaque nesses termos ("política… de Lula agrava os problemas"), em plena campanha eleitoral, soa ou ingênuo demais ou publicitário demais diante das árvores de erros das varejistas (e de efeitos avassaladores como os das bets). O Estado de S. Paulo e O Globo seguiram a cantilena dos juros, de resto usados pela própria empresa para justificar ao mercado como chegara até ali. Mas o Estado tinha uma vantagem: ao menos em reportagem e em seu colunismo, conseguiu contrabalançar melhor essa versão. "Casas Bahia dá o alerta, mas mercado afasta crise generalizada no varejo e fala em ‘seleção natural’", informava reportagem na seção de investimentos do concorrente paulistano. Um dos especialistas consultados chamou a atenção para "a fragilidade financeira das varejistas" ter "raiz em decisões tomadas ainda em um período de juro baixo", notadamente na pandemia. A Casas Bahia já havia feito acordo extrajudicial com bancos (e apenas uma fração da dívida) em 2024 e operava com problemas havia anos. As peculiaridades foram aparecendo também na própria Folha ("Briga familiar atrasou modernização das Casas Bahia e contribuiu com a crise do grupo, diz especialista", "demitiu quase 12 mil funcionários desde 2023"). Faltou mostrar melhor como se estilhaçou a vitrine de otimismo do primeiro semestre deste ano. Em março, o CEO do grupo afirmou, na Folha, que "o pior momento da Casas Bahia" já havia passado e que a empresa tinha "uma das mais baixas alavancagens do varejo". O jornal noticiou, ainda, "R$ 10,2 bilhões de vendas pelo crediário em 2025". Em sua coluna no Estado, a investidora Camila Farani lembrou outra questão. "[O fundador Samuel] Klein manteve por décadas um esquema de aliciamento e exploração sexual de crianças e adolescentes dentro da própria estrutura da empresa", aponta ela, citando a investigação da Agência Pública. "O filho Saul Klein virou réu em maio deste ano, processado por favorecimento à prostituição, tráfico de pessoas envolvendo vítimas menores e participação em organização criminosa. O processo corre em segredo de Justiça. A defesa nega as acusações. O que não é segredo é o tamanho do estrago na marca", afirma Farani. Também no Estado, a tributarista Maria Carolina Gontijo, a Duquesa de Tax, usou o humor para explicar um varejo apegado a modelos ultrapassados. "E, nesse caso, resta recorrer aos famosos remédios antigos. Quando o concorrente começa a incomodar, pede para Brasília colocar mais um impostinho. Vamos proteger o varejo nacional." A ironia veio a calhar. A Folha informou, na última quarta (19), que a taxa das blusinhas pode voltar porque "deputados e senadores têm considerado que o assunto tratado na MP [que isenta importações de até US$ 50 da cobrança de 20%] foi ficando mais delicado com os pedidos de recuperação judicial de grupos como Casas Bahia e Marabraz, que podem contaminar o debate". O movimento não foi à toa, uma vez que o enrosco das varejistas também virou moeda eleitoral na campanha de Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. Se no caso dos editoriais parece ter havido precocidade, na cobertura ainda faltam detalhes sobre as confusões em que as próprias empresas se meteram, além de quanto das dívidas envolve dinheiro do contribuinte brasileiro. Para piorar, agora o Metrópoles relata haver uma investigação da Polícia Federal a respeito de suspeita de manipulação no registro de bônus da Casas Bahia. A empresa também é uma das investigadas pelo esquema bilionário de fraude no ICMS descoberto dentro da Secretaria da Fazenda do governo Tarcísio no estado de São Paulo. Newsletter da Ombudsman Inscreva-se para receber no email a coluna que discute a produção e as coberturas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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