Confus�es de Aparecida e perguntas para o diretor de Reda��o

Confus�es de Aparecida e perguntas para o diretor de Reda��o

Com pouco mais de uma semana de idade, o episódio da Nossa Senhora Aparecida parece já ter ficado distante, meio soterrado pela polêmica do debate, mas deixou questionamentos. Parte dos leitores criticou o tratamento do caso. "Nunca vi a Folha usar tanto 'fake news' e 'notícia falsa' para dizer que o caso é mentira", escreveu um deles. "Ao mesmo tempo, publica reportagens e artigos dando conta de que, sim, há pastores próximos ao Bolsonaro que defendem tirar Nossa Senhora como padroeira, que há preocupação da CNBB." Havia questões misturadas —e um caso anterior semelhante. Boatos de fato circularam nas redes, e a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) apontou o criador do perfil Dilma Bolada como o marco zero deles. O dono do perfil negou. Na quinta (24), porém, Maria Cristina Fernandes, colunista do Valor e comentarista na CBN e na GloboNews, levou à TV uma apuração. "Tem um movimento na Igreja Católica de reação a uma parcela de evangélicos que está mobilizando um projeto de lei para tirar a Nossa Senhora de Aparecida da condição de padroeira, que pode, sim, surtir efeito entre os católicos a favor do Lula", disse a jornalista, cujas quatro décadas de cobertura política incluem o acompanhamento da Igreja desde os anos 1990. Horas depois, diante da repercussão, a emissora colocou no ar "uma correção", sem Maria Cristina, e resumindo a questão apenas ao projeto de lei. Outra profissional anunciou que "essa proposta foi apresentada em dezembro de 2007, mas arquivada (...) em 2008. Nós pedimos desculpas pelo erro." Nem todo mundo comprou o rótulo de "fake news" de cara. O Jornal da Globo se referiu a "conteúdos digitais que associavam a família Bolsonaro a uma alegada intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil". Também com o cuidado de não tachar o caso, uma reportagem da Folha reconstruiu a história da relação da família Bolsonaro com JB Carvalho, que defendeu mudança no título de padroeira. Outro texto se concentrou no que o transformou no projeto de lei de 2007, pelas mãos do pastor Victorio Galli, que integraria, anos mais tarde, o governo Jair Bolsonaro. Entre uma coisa e outra, ele tentou criar o Dia Nacional da Igreja Assembleia de Deus, também arquivado. Galli tenta agora voltar à Câmara pelo PP-MT. Em entrevista ao UOL, ele defendeu o projeto. Questionado se pretenderia desarquivá-lo ou apresentar novo texto, disse que "tem tantas outras coisas para tratar, então a gente vai vivendo e aprendendo com as experiências". Para o leitor Thiago Cândido, de São Paulo, faltou reportagem também diante da ordem do ministro André Mendonça para derrubar postagens sobre a santa: "A Folha só reproduz o 'notícias falsas etc.' e não fez matéria explorando as postagens censuradas, mais de mil". Ele pergunta o que está faltando ao jornal, "braços ou vontade editorial mesmo?". Vale voltar ao caso dos boatos da taxação do Pix, do início de 2025, tratado pelo jornal mais como "crise do Pix" do que como "fake news". "Um vídeo do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) criticando o aumento da fiscalização viralizou nas redes. (...) Ele não endossa as afirmações falsas veiculadas nas redes nos últimos dias, de que transações no Pix passariam a ser taxadas, mas diz que ‘não duvido que possa ser’." Predominou a interpretação de que havia problema de comunicação do governo. Naquela ocasião, Hélio Schwartsman ensinou: "Se algo é enunciado como uma simples possibilidade futura, não pode por definição ser classificado como falso, a menos que viole alguma lei fundamental da física". "O jornal só denomina notícia falsa/fake news a informação incorreta de que Flávio Bolsonaro defendeu a remoção de Nossa Senhora de Aparecida como padroeira do Brasil, algo que não aconteceu, até onde se sabe. Os outros movimentos foram noticiados com destaque e didatismo pela Folha", afirma Sérgio Dávila, diretor de Redação. Ele também responde abaixo a algumas outras perguntas sobre a cobertura das eleições, cujo primeiro turno acontece neste domingo (4). Na eleição de 2022, a Folha mantinha o slogan "em defesa da democracia". Por que não o adotou agora? Qual é o critério? (Lucas de Andrade e Silva) Na avaliação do jornal, naquele momento, o presidente que ocupava o cargo e suas ações representavam um risco à democracia, daí a necessidade da mudança temporária do slogan. A decisão foi divulgada na época e seu caráter temporário também —reportagem dizia que o slogan permaneceria até que fossem realizadas as eleições de 2022. As preocupações do jornal foram justificadas, como comprovaram os movimentos golpistas que culminaram no 8 de Janeiro e o julgamento e condenação posteriores de Jair Bolsonaro, hoje em prisão domiciliar. Não é o caso agora, em que há um presidente comprometido com a democracia e o processo eleitoral ocorre dentro da normalidade. Não está um pouco descarada demais a campanha pró-Flávio da Folha? (Ana Carolina Marconi). Há opção pelas candidaturas de Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas? (Leitora que não autorizou sua identificação) A Folha não tem preferência partidária. Segue valendo o norte de praticar um jornalismo independente, crítico, pluralista e —frise-se— apartidário. Quanto a uma suposta preferência por Flávio ou Tarcísio, ela não encontra respaldo nos fatos. Para ficar em apenas dois editoriais e uma reportagem recentes: "Flávio é inexperiente e herdeiro de visão golpista", "Duvidar de eleições é golpismo de Flávio Bolsonaro", "Tarcísio encerra mandato com piora gradativa nas contas e aponta investimento maior em PPPs". Manchetes sucessivas para a atuação de lobista identificada como "amiga de Lulinha" e os furos tomados nos casos Master e Dark Horse podem ter contribuído para a percepção de favorecimento ao candidato do PL? Sobre a percepção mencionada pela ombudsman, de fato alguns dos principais furos dos casos Master e Dark Horse foram dados pela concorrência. No entanto, a Folha também se destacou na cobertura com informações exclusivas, caso de "Seis fundos investigados no caso Master têm ligação com operação que mirou PCC", sobre Master, e "Fundo de aliado de Eduardo que administrou dinheiro de filme comprou casa no estado em que deputado vive", sobre Dark Horse. Em relação ao noticiário envolvendo um dos filhos do presidente, seria antijornalístico brigar com a notícia. Ela existe, como comprovam três inquéritos em andamento no STF, originados de material encontrado na investigação da máfia do INSS. Newsletter da Ombudsman Inscreva-se para receber no email a coluna que discute a produção e as coberturas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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