Como esc�ndalo banc�rio est� derrubando aliado de Trump no Paraguai

Como esc�ndalo banc�rio est� derrubando aliado de Trump no Paraguai

Bloomberg Funcionários do braço de investimentos do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) desconfiaram que havia algo errado quase assim que entraram no Ueno Bank, no Paraguai. O edifício de escritórios moderno em Assunção, apelidado de "The Matrix", estava superlotado de funcionários jovens. As paredes de vidro, a madeira polida e as obras de arte sofisticadas pareciam mais adequadas a uma startup com muito dinheiro em caixa do que a uma instituição que atendia parte da população mais pobre do país. Executivos do banco ofereceram um almoço em uma sala privativa, com chefs e garçons, o que funcionários do BID, acostumados a ambientes menos ostensivos, consideraram um excesso espalhafatoso. Santiago Peña solicitou a renuncia do cargo de Presidente - Cesar Olmedo/Reuters O BID Invest avaliava adquirir uma participação no Ueno, mas a visita, em 2025, levantou sinais de alerta demais, segundo pessoas familiarizadas com o episódio que pediram anonimato por não terem autorização para falar com a imprensa. Um porta-voz do BID Invest se recusou a comentar. Um ano e três meses depois, o rápido colapso do banco repercute na política, no meio empresarial e na vida de poupadores comuns, que acordaram nesta semana sem conseguir acessar suas contas. O acionista controlador, Miguel Vázquez, um dos homens mais ricos do Paraguai, está preso. O presidente Santiago Peña, que havia sido investidor na empresa controladora do banco, ofereceu sua renúncia diante da ameaça de sofrer um processo de impeachment. O presidente do Banco Central, ex-funcionário do Ueno, pediu demissão. Agora, manifestantes ocupam as ruas para exigir explicações sobre o que aconteceu e quem é responsável. Nem mesmo o BID Invest, que concedeu um empréstimo de quase US$ 20 milhões (R$ 110 milhões) ao Ueno em 2024, recebeu todo o dinheiro de volta, segundo as pessoas familiarizadas com o caso. A Câmara dos Deputados do Paraguai aprovou por unanimidade, na quinta-feira (5), o impeachment de Peña. Uma sessão posterior do Senado para decidir se aceitaria a renúncia do presidente —o que lhe garantiria maior imunidade do que a destituição— fracassou depois que parlamentares deixaram o plenário em protesto. Peña ou um representante poderá agora apresentar sua defesa na sexta-feira (6), segundo o presidente do Senado. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisões Peña pediu um prazo adicional de 72 horas para apresentar sua defesa na sexta (6). Em uma publicação nas redes sociais, afirmou que havia recebido as acusações no fim da noite de quinta e não tivera tempo suficiente para responder. Horas depois, o Senado votou contra o pedido. O escândalo marca a rápida queda de Peña e representa mais um revés para os esforços do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de ampliar a influência americana na América Latina. O secretário de Estado, Marco Rubio, havia apresentado o Paraguai como um modelo para a região, destacando a histórica lealdade do governo a Taiwan em uma área dominada por investimentos chineses. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, reuniu-se com Peña em Washington apenas duas semanas atrás. Há apenas um mês, Peña tranquilizava a população, afirmando que não havia motivos para preocupação com o Ueno, e defendia a fiscalização exercida pelo Banco Central paraguaio. PRIORIDADE DIGITAL O Ueno fazia parte da narrativa de sucesso do Paraguai: uma fintech de rápido crescimento, com operações centradas no ambiente digital, que levava novos clientes —muitos deles em situação de pobreza— ao sistema financeiro formal pela primeira vez. A instituição parecia integrar uma onda de jovens empresas financeiras em toda a América Latina que desafiavam os bancos tradicionais e permitiam que consumidores em ascensão social tivessem acesso ao crédito. Após a fusão com o Visión Banco, em 2024, e uma ofensiva agressiva para atrair recursos públicos, o Ueno se tornou o sexto maior banco do Paraguai em depósitos. Os depósitos do setor público dispararam depois que Peña assumiu a Presidência, em 2023, e chegaram a cerca de 5 trilhões de guaranis (R$ 4,78 bilhões), ou 29% do total de depósitos do banco, no fim de junho. Na madrugada de terça-feira (3), reguladores assumiram o controle do banco e declararam que a instituição estava insolvente e tinha capital insuficiente. Mais tarde, no mesmo dia, autoridades fizeram uma operação na mansão de Vázquez em Assunção, repleta de obras de arte. A polícia encontrou carros de luxo alinhados na garagem, entre eles um Porsche, um Bentley e um Mercedes-Benz, que, segundo a imprensa local, valiam mais de US$ 1,4 milhão (R$ 7,7 milhões). Ainda não está claro o que acontecerá com os recursos públicos após o fechamento do banco. O seguro de depósitos do Paraguai garante valores de até US$ 38 mil (R$ 209 mil), e os parlamentares aprovaram na quarta-feira (4) uma lei que determina que o Banco Central acelere o pagamento das garantias aos clientes com dinheiro retido na instituição. Mais de 1 milhão de paraguaios —em um país com pouco mais de seis milhões de habitantes— abriram sua primeira conta bancária por meio do Ueno, segundo o banco. Até os jogadores da seleção paraguaia de futebol —que se tornaram heróis alguns meses atrás ao derrotar a poderosa Alemanha— foram afetados pela crise. Eles tentam recuperar o equivalente a milhões de dólares depositados no Ueno, patrocinador oficial da equipe. A intervenção no banco ocorreu poucos dias depois de a imprensa local noticiar que reguladores haviam descoberto que o Ueno concedera empréstimos a empresas ligadas ao Grupo Vázquez, holding controlada por Miguel Vázquez, em valores muito superiores aos limites legais e sem a classificação adequada. Em 2025, a equipe do BID Invest já havia identificado problemas semelhantes em empréstimos entre empresas do mesmo grupo. Outros aspectos das operações do banco também haviam despertado preocupação no BID Invest. O Ueno informava uma taxa de inadimplência de apenas 2%, metade da registrada por concorrentes mais experientes. O Ueno Bank passou a ser alvo de crescente escrutínio público no início de setembro, quando o jornal local ABC começou a publicar documentos internos e correspondências do Banco Central que apontavam preocupações com as práticas de concessão de crédito da instituição. O Banco Central abriu uma investigação formal sobre o Ueno ainda naquele mês e, posteriormente, obrigou o banco a revisar seus balanços. Após as correções, o índice de solvência da instituição caiu para menos da metade do mínimo exigido. POBREZA NO PARAGUAI O colapso representa um golpe especialmente doloroso para um país que passou anos projetando estabilidade política e econômica a investidores estrangeiros, apesar de ser uma das nações mais pobres da América do Sul. A crise também expôs divisões dentro do Partido Colorado, que domina a política paraguaia há quase sete das últimas oito décadas, enquanto as atenções se voltam para quem assumirá o lugar de Peña. "A questão central agora é como a situação política vai se desenrolar", disse Luis Breuer, ex-funcionário do Banco Central e do FMI (Fundo Monetário Internacional). "Se o Paraguai entrar em um período de instabilidade política, já que o próprio vice-presidente também é alvo de questionamentos de alguns setores da sociedade, isso poderá ter um impacto sistêmico sobre a economia, afetando a todos, e não apenas os depositantes de uma instituição." As perspectivas políticas de Peña desmoronaram na quinta (5), quando o líder histórico de seu partido, o ex-presidente Horacio Cartes, defendeu seu impeachment. Cartes havia impulsionado a carreira política de Peña ao nomeá-lo ministro da Fazenda, antes de seu movimento político levá-lo à Presidência, em 2023. A relação entre os dois, porém, se deteriorou mais recentemente, à medida que Peña construiu sua própria base de poder dentro do Partido Colorado, ainda liderado por Cartes. Trump suspendeu em outubro de 2025 as sanções financeiras impostas a Cartes pelo governo de Joe Biden dois anos antes, por acusações de corrupção que o ex-presidente paraguaio negou. Peña comemorou publicamente a decisão, embora tenha afirmado que seu governo não havia feito pressão sobre Washington para obtê-la. Em março, o Ueno Bank vendeu US$ 350 milhões (R$ 1,93 bilhões) em títulos nos mercados internacionais de capitais, em uma emissão recorde para a dívida corporativa do Paraguai. Na terça-feira (3), os papéis eram negociados a US$ 0,85 por dólar. No fechamento do mercado na quinta-feira (5), valiam menos de US$ 0,10.

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