Los Angeles | The New York Times A era dos magnatas de Hollywood já deveria ter acabado. Você não ouviu falar que o cinema está morto? Até mesmo a Warner Bros. Discovery, que está entre os maiores estúdios do mundo, começou a parecer uma relíquia de um passado glorioso. Mas, então, apareceu um "garoto". David Ellison, filho do cofundador da Oracle, o bilionário Larry Ellison, tinha apenas 23 anos quando chegou à capital do cinema em 2006. O pessoal de Hollywood ria dele pelas costas. Era um investidor ingênuo pronto para ser explorado, mais um ricaço fascinado por celebridades com um talão de cheques na mão. Uma matéria da revista GQ de 2015 saiu com a manchete "O Garoto que Paga a Conta do Filme". David Ellison, CEO da Paramount, participa de evento de cinema em Las Vegas (EUA) - Caroline Brehman - 16.abr.26/Reuters Na segunda-feira (21), depois de uma sequência notável e quase inconcebível de negociações e manobras arriscadas, Ellison —agora com 43 anos— estava prestes a adicionar a Warner à sua Paramount Skydance. O negócio lhe daria o controle de duas corporações que ajudaram a inventar as indústrias do cinema e da televisão. Um acordo com 12 estados resolveu o processo antitruste que era o único obstáculo restante para a aquisição no valor de US$ 111 bilhões (R$ 566,32 bilhões). David Ellison já era uma figura incomum na Hollywood moderna: proprietário controlador que também era CEO e produtor de cinema e TV —e que colocava a mão na massa. A incorporação da Warner Bros. Discovery vai expandir seu poder a uma escala sem precedentes, abrangendo uma gama mais vasta de mídias do que os impérios de magnatas clássicos como Jack Warner e Louis B. Mayer. Nem mesmo Bob Iger, apesar de toda a sua liderança imponente como CEO da Disney ao longo de décadas, acumulou todas essas funções. "David está prestes a se tornar o equivalente hollywoodiano a uma mescla do Super-Homem, de Júlio César e de Midas. Não vai ficar só sentado à mesa. Vai exercer uma influência extraordinária sobre os outros que terão um lugar em torno dela", comentou Joseph M. Singer, investidor cinematográfico experiente e ex-executivo de estúdio. Singer se opusera publicamente à venda da Warner Bros Discovery para a Paramount Skydance, mencionando preocupações com a perda de empregos em consequência da fusão e com os cerca de US$ 79 bilhões (R$ 403,06 bilhões) em dívida líquida que o conglomerado carregaria no fechamento do negócio, entre outras apreensões. "Acredito que as intenções de David são boas e suas ambições, genuínas. Mas continuo preocupado com o fato de que essa concentração de poder não atende aos interesses do nosso negócio. Espero estar errado", declarou Singer na segunda-feira. Outros críticos não foram tão generosos. Nesse mesmo dia, um agente de alto escalão e dois produtores de cinema, em caráter particular, compararam Ellison a Michael Corleone em "O Poderoso Chefão" —coincidentemente, um filme da Paramount. O personagem começou como um sujeito fora do esquema e acabou se tornando o chefe, consolidando seu poder com uma eficiência surpreendente. Don Corleone em cena de 'O Poderoso Chefão' (1972) - Divulgação Os laços da família Ellison com o presidente americano —que incluíram um jantar oferecido por David Ellison em abril "em homenagem à Casa Branca de Trump"— fizeram com que muitos democratas e um grupo considerável em Hollywood ficassem desconfiados de seu poder crescente. O império que ele construiu agora vai abranger a CNN e a CBS News; a HBO, a MTV, o Comedy Central e a TNT; os serviços de streaming Paramount+ e HBO Max; e dois dos estúdios de cinema mais antigos de Hollywood. Dito de outra forma: Ellison logo vai comandar o Batman, Harry Potter, o Capitão Kirk, a Mulher-Maravilha, Ethan Hunt (da série "Missão: Impossível"), Maverick e Bob Esponja. "Somos veementemente contrários ao acordo que permite que David Ellison assuma o controle da Warner Bros. Discovery. Trata-se de um péssimo negócio para o futuro do cinema, do entretenimento, do jornalismo independente e de uma democracia forte neste país", afirmou, em comunicado, uma campanha chamada "Block the Merger" (Bloqueiem a fusão), organizada pela Future Film Coalition, organização sem fins lucrativos que reuniu milhares de assinaturas de profissionais do cinema e da televisão. Ellison chegou a um acordo nas ações antitruste movidas pela Califórnia e outros 11 estados depois de meses de batalha jurídica e política. Os processos alegavam que a fusão reduziria a concorrência no cinema e na TV a cabo. Os estados cederam depois que Ellison concordou com concessões, incluindo um compromisso de lançar pelo menos 30 filmes anualmente ao longo de cinco anos, gastar o montante adicional de US$ 1,5 bilhão com produção nacional e criar um conselho autônomo para garantir a independência editorial da CNN e da CBS News. Em um email enviado aos funcionários da Paramount na segunda-feira, Ellison escreveu que espera que a aquisição da Warner seja concluída em cerca de duas semanas. Ele exercerá o controle da Paramount e da Warner por meio da participação de 77,5% de sua família nas ações com direito a voto da empresa. "É a primeira vez, desde a época de Walt Disney, que uma família vai ser proprietária e controladora de um grande estúdio de Hollywood com esse nível de gestão ativa", destacou Gerry Cardinale, membro do conselho da Paramount e fundador da RedBird Capital, a segunda maior investidora no negócio de Ellison para a aquisição da Warner Bros. Discovery. "Está havendo uma troca de guarda", acrescentou Cardinale, referindo-se não só à ascensão de Ellison, mas também a um modelo de gestão exercido pelo próprio dono que Hollywood praticamente abandonara. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisõesAcumular todo esse poder talvez seja mais fácil do que o exercer. Além da dívida gigantesca, a nova companhia de Ellison vai precisar lidar com um setor de TV a cabo que está encolhendo, já que os espectadores continuam cancelando assinaturas. Também precisará integrar duas empresas enormes —prometeu uma economia de US$ 6 bilhões (R$ 30,61 bilhões) — enquanto lida com turbulências internas e pressões políticas e editoriais na CBS News e na CNN. Apesar de possuir dois grandes serviços de streaming, Ellison ainda vai competir com a Netflix e o YouTube. Ele também enfrenta o problema mais básico de Hollywood: como produzir filmes e séries de TV que sejam assistidos por um número suficiente de pessoas. Depois de um sucesso excepcional em 2025, a Warner Bros. teve um desempenho muito ruim nas bilheterias em 2026. Ela ocupa o sexto lugar entre os sete maiores estúdios em participação no mercado doméstico este ano, segundo dados da Rentrak, que acompanha as vendas de ingressos. A Paramount está em sétimo. Cada uma detém cerca de 5% do mercado, em comparação com os 24% da líder Universal, líder, e com os 21% da Disney. Na segunda-feira, contudo, Hollywood se concentrou menos nos desafios de Ellison do que em sua ascensão notável. Foi há apenas 13 meses que ele fechou um negócio de US$ 8 bilhões para comprar a Paramount, que abriga a CBS, a MTV, o Nickelodeon e o estúdio de cinema que leva o mesmo nome. Quatro meses depois, Ellison lançou uma oferta pesada pela Warner Bros. Discovery, que já havia concordado em se vender para a Netflix. Em fevereiro, ele já dera um jeito de tirar a Netflix do caminho e fechou o negócio. Doze procuradores-gerais democratas do estado entraram com uma ação para impedir a aquisição da Warner. Milhares de profissionais do cinema e da TV se opuseram publicamente à fusão. O Sindicato dos Roteiristas dos Estados Unidos também entrou com um processo judicial. Nada disso o impediu.
Como David Ellison, da Paramount, foi de 'garoto' a novo colosso de Hollywood
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