As recentes eleições de meio de mandato nos Estados Unidos revelaram uma fragmentação na base mais fiel do presidente Donald Trump, a classe trabalhadora branca americana e os homens brancos jovens sem ensino superior. Ainda que falar em uma perda desse pilar eleitoral dos republicanos seja, no mínimo, precipitado, o resultado das urnas nas chamadas midterms mostrou que também nesses setores até aqui tão aliados ao movimento trumpista há insatisfação com as políticas de Trump 2.0. Nos votos para a Câmara, na qual os democratas conseguiram maioria de pelo menos 253 cadeiras em um total de 435, a base fiel de Trump constituiu o único grupo demográfico que destinou mais votos aos republicanos do que aos democratas. Ainda assim, foram menos votos do que em 2024, quando Trump se elegeu. A média de todo o eleitorado mostra uma migração de 15 pontos percentuais para os democratas, que ficaram no final com 56% dos votos. Entre brancos sem ensino superior, ou seja, a classe trabalhadora, houve migração de 14 pontos para os democratas, ainda que republicanos tenham levado 59% do apoio. Entre homens brancos, ainda que 56% tenham apoiado o partido de Trump, houve uma migração de 15 pontos para os democratas. E entre o eleitorado branco de 18 a 29 anos, houve uma migração de 30 pontos para os democratas, que terminaram com 60% do apoio desse subgrupo. Os dados são das projeções do jornal The New York Times. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Ou seja, esses grupos continuam sendo os mais fiéis a Trump e aos republicanos, mas estão se fragmentando. As pesquisas de intenção de voto prévias à ida dos americanos às urnas já mostravam isso. Mas Trump, do Salão Oval da Casa Branca, dizia que essa base lhe asseguraria mais uma vitória. Em outubro, às vésperas das eleições, pesquisa do NYT mostrou que 46% da classe trabalhadora branca desaprovava Trump; também entre eles, 53% diziam desaprovar a gestão do presidente na economia. É um cenário bem diferente do observado nas midterms de 2018, quando Trump estava na metade de seu primeiro mandato. À época, 65% desse grupo dizia aprovar como Trump lidava com a economia. Não fica difícil calcular, assim, que a economia é o fator que tem fragmentado a base do Maga neste momento. "Isso, sem dúvida, tem a ver com o preço do diesel e o efeito das tarifas comerciais", diz Jorge Antonio Alvez, professor de ciência política na Universidade da Cidade de Nova York. "Mas mais interessante ainda é que a corrupção foi importante ou crucial para a maioria dos eleitores. Tem um efeito da percepção dos benefícios privados para o presidente e sua família que está ajudando a amolecer o apoio dessa base." O cenário econômico fala por si. O preço da gasolina está em alta, em grande medida devido à guerra no Irã. O valor médio do galão (cerca de 3,8 litros) saía a US$ 2,7 em janeiro, antes do começo do conflito no Oriente Médio. Em maio, ultrapassou US$ 4,3. Neste início de novembro, está em quase US$ 4, segundo os dados oficiais. Para o diesel, o salto foi ainda mais expressivo: US$ 3,6 em janeiro, US$ 5,5 em maio e, finalmente, US$ 6,2 agora. As tarifas impostas para importações por Trump também tiveram peso, especialmente alto para estados como os que fazem parte do antigo Cinturão da Ferrugem, a histórica base da classe trabalhadora. No Michigan, as tarifas custaram US$ 27 bilhões ao estado até aqui; se dividido pelo número de lares, o peso médio para cada família é de US$ 6.480. Os dados são da Fundação Nacional da União dos Contribuintes. Puxada pelo aumento dos combustíveis, pelas tarifas e, também, pelo boom no investimento em inteligência artificial, a inflação aumentou. O acumulado anual em setembro ficou em 3,7%, após a alta de 3,4% em agosto. Isso corrói o poder de compra das famílias, impacta a área que foi mais mencionada nos EUA nos últimos meses: o custo de vida. Ainda assim, acadêmicos dizem que é preciso cautela ao dimensionar a ruptura dessa base. "A mudança no voto pode ser uma mescla de duas coisas: muitos republicanos insatisfeitos não terem saído para votar e um grupo, mais modesto, ter realmente mudado o seu voto", diz Ernesto Calvo, professor de política na Universidade de Maryland. Ou seja, em um país no qual o voto não é obrigatório e no qual boa parte do trabalho dos partidos é convencer o eleitor a sair de casa e ir às urnas, é possível que o apoio democrata tenha crescido porque eleitores não muito animados decidiram se abster, e a amostra de votantes, assim, pode ter sido dominada pelos que decidiram apoiar a oposição. Calvo afirma, também, que é preciso considerar que muitos eleitores podem aceitar apoiar democratas para o Congresso, mas se mantêm fiéis aos republicanos para a Presidência. Nesse cenário, a dúvida é para onde essa base migraria. "Isso revela é que a base dura do trumpismo está sim se mostrando mais diversa e menos apegada ao Partido Republicano", diz Alvez. "O que fica difícil de dizer com certeza é se isso é uma procura de um candidato mais centrista, ou de alguém que represente o movimento de verdade." Se a linha escolhida for a segunda, há um nome que se destaca, o do vice-presidente J. D. Vance. Vance se tornou conhecido por um livro que escreveu, "Hillbilly Elegy" (algo como "lamento caipira"), no qual fala justamente sobre uma fatia dos EUA, o antigo Cinturão, afetada pelo desmonte de indústrias, o que empobreceu a população. É a base de um ressentimento que colaborou para que a classe trabalhadora branca migrasse seu voto dos democratas, como o era nos anos 1970 e 1980, para os republicanos. Vance é um dos nomes mais cotados para potencialmente ser o candidato republicano à Casa Branca em 2028. E nestas midterms, diferentemente de seu chefe, o vice-presidente ao menos demonstrou publicamente ter entendido o recado das urnas e afirmou que a culpa pela derrocada republicana nas midterms foi a guerra no Irã e a alta no custo de vida. Além disso, acadêmicos apontam para o fato de que a base de apoio a Trump não esteve ao seu lado somente por promessas econômicas, mas, talvez em até maior medida, por fatores raciais. "O acesso ao poder em detrimento de outros grupos raciais é a moeda de troca política preferida da população branca de classes mais baixas", escreveu Saida Grundy, professora de sociologia da Universidade de Boston, em um artigo de opinião sobre o tema no jornal britânico The Guardian em junho. Assim, é preciso considerar que o realinhamento ideológico, em grande escala pautado em um debate racial, foi o que ajudou na migração de eleitores brancos da classe trabalhadora para o Partido Republicano nas últimas décadas. A economia pode estar ajudando a fragmentar essa base, mas o cenário total é muito mais complexo.
Classe trabalhadora branca, base de Trump, distancia-se do presidente
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