Londres |Financial Times O Ocidente ficou para trás da China no desenvolvimento do mais recente avanço científico em baterias: uma tecnologia que utiliza sais de sódio dissolvidos em água para competir com as baterias de íons de lítio, segundo especialistas. Cientistas descobriram que manter a água salgada dentro de uma mistura fundamental da bateria, usando-a para transportar íons entre os eletrodos positivo e negativo, aumenta significativamente o desempenho. A tecnologia pode ajudar a reduzir o domínio da China sobre os metais necessários para as baterias de íons de lítio usadas em veículos elétricos e no armazenamento de energia de reserva. A China já domina a produção de células de baterias de íons de sódio. A montadora chinesa Changan está desenvolvendo o primeiro veículo elétrico produzido em massa do mundo movido por baterias de íons de sódio fabricadas pela principal fabricante do setor, a CATL. Baterias de íon-sódio na linha de produção de uma empresa vinculada ao Huayang New Material Technology Group, na província de Shanxi (norte da China) - Li Xin/Xinhua A capacidade de produção do país já superou em muito a demanda, enquanto a China busca manter sua posição como potência global na fabricação e no desenvolvimento de baterias. "O Ocidente perdeu a oportunidade" de ser o primeiro em baterias de íons de sódio, disse Max Reid, chefe de custos de baterias da consultoria CRU Group. Ampliar a cadeia de fornecimento exigiria "US$ 100 (R$ 511 milhões) em investimentos por fábrica, no mínimo, e não estamos vendo nada disso fora da China", afirmou. Start-ups europeias e americanas de baterias vinham apostando na possibilidade de superar as concorrentes chinesas usando baterias de íons de sódio, já que elas podem ser produzidas a partir de materiais abundantes, incluindo água do mar. As baterias à base de lítio dependem de metais como grafite e cobalto, cuja produção é dominada pela China. As baterias de íons de sódio têm potencial para ser mais seguras e durar mais que algumas tecnologias concorrentes, e alguns analistas preveem que elas se tornarão tão baratas quanto as baterias de lítio ou até mais baratas. Mas empresas chinesas, incluindo a CATL e a montadora BYD, receberam apoio por meio de incentivos fiscais, enquanto várias start-ups de baterias na Europa e nos EUA fecharam as portas. A Natron Energy, sediada na Califórnia e que tinha a trading de commodities Mercuria entre seus principais investidores, entrou em colapso no ano passado, pouco depois de anunciar planos para construir uma gigafábrica. O fechamento ocorreu após o encerramento das atividades da Bedrock Materials, uma empresa derivada da Universidade Stanford e cofundada por um ex-engenheiro da Tesla. Showroom do centro de produção "Z Site", da fabricante chinesa de baterias para veículos elétricos CATL (Contemporary Amperex Technology) - Greg Baker/AFP Empresas como a GM e a francesa Tiamat Energy investiram em baterias de íons de sódio, e a Moll Batterien está construindo uma fábrica na Alemanha que, segundo a empresa, será a primeira unidade industrial de produção de células e baterias de íons de sódio da Europa. O início da produção está previsto para o próximo ano. Essas iniciativas, porém, são pequenas diante da escala de produção na China. A capacidade das gigafábricas de baterias de íons de sódio em operação ou planejadas na China já ultrapassa 400 GWh (gigawatts-hora), ante apenas 11 GWh no restante do mundo, segundo dados da CRU. A China também "dominou" a atividade de patentes relacionadas a baterias de íons de sódio em 2025, com a CATL como a empresa que mais apresentou pedidos, segundo o relatório mais recente da Volta Foundation. Dados da PitchBook mostram que a Shunwei Capital e a Cowin Capital, ambas chinesas, estiveram entre os grupos de capital de risco mais ativos no financiamento de start-ups de baterias de íons de sódio na última década. As principais economias precisam decidir se estão dispostas a depender de "baterias vindas de um possível adversário", disse Christer Bergquist, presidente-executivo da Altris, fabricante sueca de materiais para baterias de íons de sódio. "Para a Europa, a questão é: queremos continuar sendo consumidores de um produto e continuar comprando da China? Ou tomamos uma posição agora e construímos uma cadeia de valor?", afirmou. As baterias de íons de sódio têm menor densidade energética que algumas baterias concorrentes para veículos elétricos —o que significa que os carros percorrerão distâncias menores antes de precisar ser recarregados. Por outro lado, apresentam melhor desempenho e são mais seguras em temperaturas extremas, o que pode torná-las adequadas para veículos menores, como triciclos, em países muito quentes ou em condições de frio intenso.A Changan é uma das poucas montadoras que avançam no desenvolvimento de um carro de passageiros com baterias de íons de sódio. Em testes iniciais, a empresa afirmou que as baterias da CATL carregaram 6% mais rápido que as baterias convencionais de lítio a uma temperatura de -20 °C e 21% mais rápido a -10 °C. As vantagens de maior segurança e carregamento mais rápido estão aumentando a demanda do setor de armazenamento de energia e de data centers que precisam de rápidas injeções de energia de reserva para operações de computação. O UBS prevê que a paridade de custos com as baterias de íons de lítio deve ser alcançada até 2027 e que o preço das células de baterias de íons de sódio pode cair até 30% até 2030, impulsionando as estimativas de rápido crescimento do setor até 2035. A CRU afirmou que as baterias de água salgada provavelmente serão complementares às baterias de lítio. "Não é uma substituição das baterias de íons de lítio, é uma nova demanda", disse Reid. A montadora GM firmou parceria com a californiana Peak Energy para desenvolver baterias de íons de sódio de próxima geração para armazenamento de energia e planeja produzi-las em larga escala a partir de 2028. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisõesA Peak pretende usar células de baterias de íons de sódio importadas da Ásia, incluindo da China, em seus sistemas de armazenamento de energia, assim como outras empresas ocidentais que apostam na tecnologia. Kurt Kelty, chefe da área de baterias da GM, afirmou, porém, que no futuro todos os materiais serão adquiridos na América do Norte, quando os volumes aumentarem. "Temos muito sódio disponível aqui nos EUA", disse Kelty. "O que queremos fazer é garantir que, no fim das contas, ele seja obtido nos EUA ou na América do Norte. Isso não acontecerá no primeiro dia, mas acontecerá no futuro." A americana Alsym Energy também está ampliando sua produção de baterias de íons de sódio e afirmou ter garantido compromissos comerciais de 19 gigawatts-hora nos últimos meses. A empresa produziu parte de suas células nos EUA, enquanto outras foram fabricadas no Reino Unido. Com a demanda por eletricidade aumentando em meio ao crescimento das vendas de veículos elétricos e ao avanço da inteligência artificial, governos de todo o mundo estão tentando desenvolver fontes domésticas de materiais para baterias. A necessidade se intensificou à medida que a China passou a usar seu domínio sobre as cadeias globais de fornecimento de minerais críticos como instrumento na guerra comercial. Desenvolvedores de baterias de íons de sódio têm recorrido a materiais como o carbono duro — facilmente obtido de árvores, cascas de coco e subprodutos da indústria de petróleo e gás— como material para o ânodo de suas baterias.A empresa finlandesa de materiais Stora Enso está testando, com parceiros nos EUA e na Ásia e com a sueca Altris, seu ânodo de carbono duro produzido a partir de lignina, encontrada em madeira e plantas. O uso de material local e sustentável era "tudo o que a União Europeia estava pedindo", disse Hanna Schweitz, chefe de materiais sustentáveis para baterias da Stora Enso. Alguns executivos do setor questionam a premissa de tentar competir com a tecnologia chinesa. Parcerias já começam a surgir como resultado disso: a CATL e o grupo holandês de energia Alfen anunciaram em julho que trabalhariam juntos para instalar 5 gigawatts-hora de sistemas de armazenamento de energia com baterias de íons de sódio na Europa a partir de 2027. "Se a China passou dez anos aperfeiçoando as baterias de lítio, aprenda com eles, compre a tecnologia e aprenda a usá-la", disse um executivo de uma empresa global de investimentos focada em minerais. "Devemos investir bilhões de dólares em pesquisa para superar os chineses em baterias? Ou usar a melhor tecnologia e destinar esse dinheiro para empregos e instalações de produção?"
China domina corrida por baterias de s�dio enquanto Ocidente tenta reagir
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