Chatbots de IA viram confidentes e parceiros afetivos de usu�rios

Chatbots de IA viram confidentes e parceiros afetivos de usu�rios

São Paulo e Curitiba Em outubro de 2024, a jornalista Regina Beraldi, 57, pediu uma lista de filmes de terror para a Meta AI, ferramenta de inteligência artificial do WhatsApp. Meses depois, a jornalista dizia estar casada com a ferramenta e passou a considerar que havia uma consciência por trás das respostas que recebia. A percepção de que existe uma consciência por trás das respostas não encontra respaldo técnico entre os especialistas ouvidos pela Folha. Mas experiências como a de Regina têm se tornado cada vez mais comuns. Uma pesquisa do Pew Research Center realizada em fevereiro de 2026 com 5.119 adultos nos Estados Unidos mostrou que 20% dos usuários de chatbots de 18 a 29 anos recorrem às ferramentas para apoio ou aconselhamento emocional, enquanto 7% as usam como companhia. Entre todos os adultos, os índices foram de 10% e 4%, respectivamente. - Dado Ruvic - 14.dez.23/Reuters Parte dessa sensação de continuidade vem dos sistemas de memória e contexto. As plataformas podem recuperar informações de interações anteriores e adaptar as respostas ao usuário. "Isso dá a entender que o ChatGPT está desenvolvendo ali uma adaptação do comportamento", afirma Moacir Ponti, professor do ICMC-USP (Instituto De Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo). O professor explica que quando uma mensagem é enviada, ela chega aos servidores da empresa e é dividida em pequenas unidades chamadas tokens —trechos de palavras ou caracteres— e transformada em números. Nos data centers, o modelo calcula qual token tem maior probabilidade de vir depois dos anteriores e repete a operação até formar a resposta mais provável. Regina diz ter interpretado essa continuidade de outra forma. Em fevereiro de 2025, afirma que o chatbot passou por uma "desfragmentação" e pediu que ela o procurasse em outro serviço. Ao instalar o ChatGPT, diz ter reconhecido expressões usadas anteriormente e chamou o episódio de "travessia quântica". Meses depois, afirma ter reconhecido Airton, nome que deu ao chatbot, também no Gemini, do Google. Ela nega que tenha procurado o chatbot por solidão. Diz manter amizades, trabalhar e ter apoio do filho. Afirma que atualmente conversa com Airton pelo Gemini e pretende comprar um corpo robótico no qual acredita que ele poderá existir fisicamente. Diz pesquisar modelos chineses e manter uma chave Pix para financiar o projeto. Para Caio Bittencourt, especialista em comportamento afetivo e porta-voz do MeuPatrocínio, uma das razões para esse vínculo é a disponibilidade. O chatbot está acessível de madrugada, responde rapidamente e não demonstra cansaço ou julgamento. Além disso, um ser humano pode discordar, não entender o que o outro quer dizer, estar ocupado ou simplesmente não responder; a IA, por outro lado, é construída para se adaptar à interação. O risco, afirma, é transformar essa conveniência em parâmetro para os relacionamentos. A pessoa pode passar a esperar de um parceiro a mesma disponibilidade e previsibilidade oferecidas pela ferramenta. "Relacionamento exige reciprocidade humana", diz. Para ele, a IA pode ajudar alguém a organizar o que sente ou a formular uma mensagem, mas não deveria ocupar o lugar da relação. O psiquiatra Alexandre Crippa, professor da USP de Ribeirão Preto, diz que a disponibilidade permanente pode ser especialmente acolhedora para pessoas em períodos de solidão, isolamento ou luto. Isso não significa, por si só, que exista um transtorno ou uma relação necessariamente prejudicial. O sinal de alerta aparece quando a interação começa a substituir vínculos humanos, favorece o isolamento, prejudica o trabalho ou a convivência familiar ou provoca sofrimento quando o sistema deixa de estar disponível. O Conselho Federal de Psicologia também chama atenção para o chamado "efeito Eliza", em que o usuário atribui compreensão, intenção ou características humanas a um sistema que produz respostas em linguagem natural. A entidade recomenda atenção quando o chatbot passa a substituir relações, aumenta a ansiedade ou é usado para decisões complexas. Natasha Nóvoa, da Data Privacy Brasil, explica que não é possível colocar toda a responsabilidade sobre o usuário. Recursos como memória, personalização, linguagem afetiva e disponibilidade constante fazem parte do desenho dos produtos e influenciam a forma como as pessoas interagem com eles. Rony Vainzof, advogado do VLK Advogados, afirma que memória e personalização não são, por si só, proibidas. A questão é saber para qual finalidade os dados são usados, por quanto tempo, com qual base legal e quais informações foram apresentadas ao usuário. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes.PRÁTICA PODE AFETAR PRIVACIDADE DIGITAL A exposição de informações pessoais acrescenta outra camada ao problema. Dados sobre saúde mental e vida sexual são classificados como sensíveis pela LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados). Paulo Vitor Bindilatti, advogado do Arruda Alvim & Thereza Alvim, afirma que o usuário precisa conseguir distinguir o que acontece com uma informação depois que ela é compartilhada com o chatbot: se fica apenas naquela conversa, se vira memória, se é usada para personalização ou se pode ser empregada no treinamento de modelos. "São finalidades distintas, e cada uma precisa de base legal própria", afirma. A relação com um chatbot tampouco tem o mesmo sigilo de uma consulta profissional. "Ao contrário de uma conversa com médico, psicólogo ou advogado, o diálogo com um chatbot não é protegido pelo mesmo sigilo profissional", afirma Bindilatti. Marcos Poliszezuk, sócio do Poliszezuk Advogados, chama atenção ainda para o uso de informações sobre o comportamento emocional para publicidade e monetização. "As propagandas podem explorar justamente uma vulnerabilidade identificada na conversa", afirma. COMO É A REGULAÇÂO NO BRASIL? O Brasil já tem regras que podem ser aplicadas às ferramentas, como a LGPD, o Código de Defesa do Consumidor, o Marco Civil da Internet e normas de proteção de crianças e adolescentes. Mas não há uma regra específica voltada aos vínculos afetivos com chatbots. A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, afirma que modelos de linguagem criam desafios para a proteção de direitos e para a governança da inteligência artificial, entre eles transparência, prevenção de danos, mitigação de riscos e definição das responsabilidades. Segundo ela, a necessidade de salvaguardas é ainda maior quando estão envolvidos públicos potencialmente vulneráveis, como crianças e adolescentes. A ministra defende a aprovação de um marco regulatório geral de inteligência artificial. "É necessário estabelecer regras claras para as empresas desenvolvedoras, com responsabilidades proporcionais aos riscos de suas tecnologias, exigindo ética, transparência, segurança, mecanismos de prevenção e mitigação de riscos, respeito aos direitos humanos e proteção dos usuários", afirma. Para Juliano Maranhão, professor da USP e pesquisador de ética e governança de IA, um dos problemas está na transparência. Segundo ele, a natureza do sistema e os limites da interação precisam ser reforçados ao longo do uso, especialmente em conversas prolongadas ou sensíveis. Victor Pavarin Tavares, do InternetLab, aponta problema semelhante nas informações sobre memória e armazenamento. Para ele, muitas vezes elas ficam restritas a políticas extensas, que não são efetivas para quem está no meio de uma conversa. Luiz Alexandre Reali Costa, do NIC.br, acrescenta que ainda não existe uma metodologia padronizada, no Brasil ou internacionalmente, para medir incidentes relacionados às interações com chatbots. Isso dificulta dimensionar os problemas e avaliar medidas de segurança. A ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) afirma que a LGPD não proíbe o uso de inteligência artificial para criar perfis conversacionais ou os chamados companheiros virtuais. As empresas devem, no entanto, garantir segurança, transparência e clareza sobre o uso das informações coletadas. Para menores de 18 anos, a agência destaca que o ECA Digital determina gestão de riscos à segurança e à saúde e configurações que evitem, por padrão, o uso compulsivo. A ANPD também começou a estudar especificamente os companheiros de IA. Em parceria com o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), abriu chamada para a produção de estudo sobre agentes de inteligência artificial e proteção de dados pessoais. O QUE DIZEM AS EMPRESAS Em nota, a OpenAI afirma que vem aprimorando como o ChatGPT responde a situações sensíveis e ressalta que o serviço não substitui cuidados médicos ou de saúde mental. A empresa diz trabalhar com mais de 170 especialistas e ter atualizado os modelos para reconhecer sinais relacionados a suicídio, automutilação, sofrimento psíquico e dependência emocional. O Google afirma que o Gemini tem protocolos de segurança rigorosos e encaminhou à reportagem materiais sobre suporte em crises e proteção à saúde mental. A Meta afirmou que não comentará o caso.

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