A criminalidade já foi tão descontrolada em Caracas que Miguel Dao, negociador profissional de sequestros, chegou a ser contratado para garantir a libertação de três reféns diferentes em um único dia. Mas já faz três anos que Dao não tem um único sequestro para negociar. A taxa de homicídios em Caracas despencou nos últimos anos, uma mudança notável para uma cidade que já foi conhecida como a capital mundial dos assassinatos. Roubos nas ruas são raros. Sequestros, tanto os casos prolongados com pedidos de resgate elevados quanto os sequestros-relâmpago, que duram cerca de um dia, praticamente desapareceram. Dao, ex-diretor do equivalente venezuelano ao FBI, afirmou ser crítico do regime autoritário do país. Mas classificou a forte queda da criminalidade ocorrida sob sua gestão como uma "conquista sob qualquer critério". "Eu os aplaudo por esse triunfo", disse Dao, 77, proprietário de um escritório de advocacia em Caracas. "Só não sei se vai durar." Os devastadores terremotos de junho evidenciaram o quanto essa nova sensação de paz pode ser frágil, quando surgiram temores de que o tecido social da cidade pudesse se deteriorar. Ainda assim, a criminalidade permaneceu, em grande parte, sob controle, e os visitantes que estiveram na cidade depois dos tremores ficaram surpresos com a sensação de segurança em Caracas. A sensação de segurança na capital, e em algumas outras partes da Venezuela, figura entre as maiores reviravoltas da América Latina nessa área. Essa mudança costuma ser ofuscada pelas transformações em outro país autoritário, El Salvador, onde o presidente Nayib Bukele reduziu a criminalidade em grande parte por meio do encarceramento em massa, inspirando imitadores em toda a região. Diferentes fatores —alguns dignos de pesadelo— impulsionaram os avanços de Caracas na segurança. À margem do sistema judicial, esquadrões policiais executaram milhares de jovens pobres, segundo investigadores das Nações Unidas, em uma campanha que tinha como alvo o grupo demográfico com maior probabilidade de ingressar em gangues criminosas. A migração em massa também teve seu papel, com integrantes de gangues representando uma pequena parcela dos milhões que fugiram do colapso econômico da Venezuela. Morei em Caracas quando ela ainda era uma das cidades mais letais do mundo. Os sequestros dominavam as conversas em jantares. As pessoas deixaram de sair à noite. Ataques fatais cometidos por ladrões de smartphones tornaram-se tão comuns que receberam o nome de "Morte por BlackBerry". Em uma reportagem no necrotério da cidade, escrevi sobre como a Venezuela havia registrado mais de 16 mil assassinatos em um único ano, três vezes o número de mortes de civis decorrentes da violência no mesmo período no Iraque, quando a guerra naquele país estava no auge. Hugo Chávez, então líder da Venezuela, reagiu denunciando-me em rede nacional de televisão. Minha família e eu nos escondemos até que ele voltasse sua ira para outra coisa. Quando deixamos a Venezuela, em 2011, o medo constante da criminalidade violenta já estava incorporado à rotina da população. Quando voltei a Caracas neste ano, fiquei atônito. Uma cidade lendária por incutir medo até em viajantes experientes parecia mais segura do que outras grandes cidades latino-americanas, como Bogotá ou São Paulo. Diversos passeios guiados a pé estavam ajudando os próprios caraquenhos a redescobrir sua cidade. Em praças bem iluminadas, casais descansavam em bancos muito depois do anoitecer. A vida noturna havia retornado com força total a áreas que antes eram consideradas proibidas. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Um dos aspectos mais estranhos dessa nova normalidade era o quanto as pessoas comuns —e os líderes da Venezuela— falavam pouco sobre ela. Em vez disso, muitos em Caracas pareciam concentrados apenas em conseguir pagar as contas. Ao contrário do que ocorre em El Salvador, as autoridades não se gabavam constantemente da redução da criminalidade. Luiz Izquiel, criminologista, atribuiu essa ambivalência aos métodos brutais usados pelo regime para reduzir os índices de criminalidade. (A ditadura venezuelana não respondeu a diversos pedidos de comentário.) "Uma coisa é Bukele se gabar de ter criado uma das maiores prisões do mundo", disse Izquiel, em alusão ao Cecot, o complexo penitenciário que simboliza as políticas de segurança de El Salvador. "Outra bem diferente seria Delcy comemorar o assassinato de milhares de venezuelanos em nome da paz", acrescentou, referindo-se a Delcy Rodríguez, que substituiu Nicolás Maduro na liderança da Venezuela neste ano. Cerca de uma década atrás, Maduro deu início ao que chamou de Operações de Libertação do Povo, inaugurando incursões policiais altamente militarizadas em áreas de baixa renda. O objetivo declarado era desmantelar gangues armadas. Mas, em vez de reduzir a criminalidade por meio do sistema de Justiça, a estratégia consistiu, em grande parte, em execuções extrajudiciais. Tinha como principais alvos homens jovens e justificava suas mortes sob o rótulo burocrático de "resistência à autoridade". As forças de segurança venezuelanas mataram pelo menos 6.856 pessoas em apenas um período de 18 meses, entre 2018 e 2019, constataram investigadores da ONU, e depois frequentemente manipularam as cenas dos crimes para fazer parecer que as vítimas haviam resistido à prisão. O Tribunal Penal Internacional reagiu abrindo sua própria investigação. Mas, em julho, a Venezuela afirmou que se retiraria do TPI, seguindo o exemplo de países como Filipinas e Burundi, que também deixaram a instituição enquanto estavam sob seu escrutínio. O governo Donald Trump, que exerce um controle excepcional sobre o regime venezuelano, apoiou a medida em meio a seus esforços para desmantelar o TPI, motivados principalmente pelos mandados do tribunal contra líderes israelenses e pela possibilidade de o TPI examinar a conduta das Forças Armadas dos Estados Unidos. Autoridades do governo Trump anunciaram neste mês novas e abrangentes sanções contra o TPI, depois que a Noruega concedeu o Prêmio Nobel da Paz a Navi Pillay, advogada que atuou como juíza no tribunal. Especialistas em direito afirmam que o TPI mantém sua jurisdição sobre as atrocidades em questão, mesmo com a tentativa da Venezuela de deixar o tribunal. Enquanto isso, aqueles que perderam parentes nas operações policiais ainda tentam reconstruir a vida. Millanyela Fernández disse que Richard Jesús Briceño, seu filho, tinha 23 anos e não possuía antecedentes criminais quando uma unidade policial invadiu o bairro de La Vega, onde moravam, em 2021, e o matou a tiros diante de seus olhos. "Eles obrigaram meu filho a se ajoelhar e atiraram bem no peito dele, atravessando o coração", disse Fernández, 46, empregada doméstica. "Abri a janela e gritei para que ele não se ajoelhasse. Mas ele obedeceu às ordens deles, e eles o mataram."A nova líder da Venezuela, Delcy, fez uma menção incomum aos avanços na segurança em janeiro, afirmando que a taxa de homicídios do país havia atingido o nível mínimo de 3 por 100.000 habitantes em 2025. É inegável que a segurança melhorou em Caracas e em grande parte do restante do país, mas criminólogos demonstraram ceticismo em relação a esse número, que colocaria a Venezuela entre os países com as menores taxas de homicídio das Américas. O regime venezuelano não forneceu dados que sustentassem sua afirmação, e já faz anos que as autoridades não divulgam estatísticas abrangentes sobre a criminalidade —nem mesmo dados do Censo. Além da escassez de informações confiáveis sobre a atividade criminosa, as autoridades deixaram claro que qualquer pessoa que critique publicamente as políticas de segurança, ou até mesmo faça perguntas sobre a situação atual, poderá sofrer consequências. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Alguns em Caracas veem a calmaria como um alívio temporário, sustentado por políticas de linha-dura que começam a ser flexibilizadas. Delcy anunciou recentemente um plano para retirar postos de controle policiais de cidades de toda a Venezuela, o que pode eliminar um fator de dissuasão. Ainda assim, outros fatores contribuíram para a queda da criminalidade. Quando a economia venezuelana desmoronou, muitas pessoas simplesmente passaram a ter menos dinheiro e menos objetos de valor para serem roubados. A criminalidade nas ruas também perdeu parte do atrativo quando a Venezuela adotou informalmente o dólar americano e começou a introduzir sistemas de pagamento eletrônico. A escassez de moeda local em circulação reduziu as oportunidades de assaltos e sequestros-relâmpago. Após as incursões em áreas de baixa renda, as autoridades também fizeram operações em presídios, que haviam se tornado sedes operacionais de algumas gangues. O resultado, dizem alguns caraquenhos, é um verniz de segurança no qual a era das gangues de rua foi substituída por um sistema institucionalizado, em que forças policiais e militares exercem controle tanto sobre os territórios quanto sobre os esquemas de extorsão.
Caracas reduz criminalidade, mas paz � marcada por execu��es e repress�o
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