Caio Fernando Abreu viveu e narrou intensamente hedonismo e depress�o de sua �poca

Caio Fernando Abreu viveu e narrou intensamente hedonismo e depress�o de sua �poca

[RESUMO] Caio Fernando Abreu morreu em fevereiro de 1996 em decorrência de Aids. Nesses 30 anos, firmou-se como grande contista e um dos mais pops escritores brasileiros, criador de um retrato vivo dos anos 70 e 80 que diz muitos aos jovens leitores de hoje. No texto a seguir, amigos relembram a trajetória singular, sardônica e angustiada do artista. Em dezembro de 1995, a astróloga Graça Medeiros acompanhou o amigo Caio Fernando Abreu em uma visita ao médico. Vivendo em Nova York, Graça vinha ao Brasil a cada 15 dias, trazendo na mala frascos do 3TC para o escritor. À época, o acesso a medicamentos contra o HIV era ainda bastante restrito no Brasil pelo SUS. Ao final da consulta, Caio perguntou ao médico se poderia ir à praia e ele o autorizou, para espanto de Graça. Assim que o amigo saiu para ir ao banheiro, ela tentou entender. "O médico disse que não havia mais o que fazer", conta Graça, amiga de Caio desde a época em que os dois eram jovens universitários em Porto Alegre, na segunda metade dos anos 1960. "Ele não tem mais glóbulos brancos", disse-lhe o médico, em referência às células responsáveis pela defesa do corpo humano. Era o início do fim da jornada de um peregrino que, ao longo de seus deslocamentos dentro e fora do Brasil, construiu uma obra que sintetizou as questões dos anos 1970 e 1980, sem se poupar do que aquele tempo reservou à sua geração. Da fronteira à Casa do Sol Quando Caio nasceu de parteira, em 12 de setembro de 1948, em Santiago do Boqueirão —"terra de macho, tchê, quase na fronteira da Argentina, já ouviu falar?", como brincava—, as ruas eram de terra batida, não havia luz elétrica e chegava a nevar nos invernos mais rigorosos. A mãe, Nair Loureiro de Abreu, era professora e sempre foi motivo de orgulho para o filho. Chegou a fazer faculdade e, vivendo em Porto Alegre, a cursar pós-graduação. Foi, porém, Zaél Abreu, que seguiria na carreira militar até 1964, quem despertou nos cinco filhos o hábito da leitura, lendo para eles antes de dormir. Caio, "talvez por defeito de fabricação", como disse ao jornal O Globo, começaria a escrever aos 6 anos. Ainda menino, passou a enviar textos para concursos locais. O primeiro, "O Príncipe Sapo" , foi publicado na revista Cláudia, em 1966. Anos depois, Caio comentou assim sua estreia: "Numa tarde de novembro de 1966, eu estava em meu quarto no IPA, internato em Porto Alegre, lendo Graciliano Ramos, quando vieram trazer um envelope grande chegado de São Paulo. Era um exemplar da revista Claudia com este conto publicado e uma carta de Carmen da Silva [psicanalista e escritora]. Um ano antes eu enviara o texto a ela pedindo apreciação, e não recebera resposta. A carta explicava: Carmen queria me proporcionar a surpresa da publicação. Foi naquele momento que me tornei definitivamente escritor". Foi na capital gaúcha, já vivendo em uma pensão na rua general Vitorino, no centro da cidade, que escreveu seu primeiro romance, "Limite Branco", publicado em 1971. A escritora Hilda Hilst sugeriu o título. O livro conta os conflitos do processo de amadurecimento de Maurício, jovem que se muda do interior para a cidade grande. Ao reeditá-lo, pela Nova Fronteira, 25 anos depois, Caio confessou ter ficado "chocado com a sua, por assim dizer, inocência". Em 1968, mudou-se para São Paulo e foi trabalhar como redator na primeira equipe da revista Veja. Ficou pouco tempo no posto e na capital. Era o início do período mais repressor da ditadura. "Tive de sair de São PauIo, perseguido pelo Dops", contou ao jornal O Globo. Caio passou mais de um ano em exílio político e literário na Casa do Sol, em Campinas. Ali conviveu com Hilda Hilst, proprietária do local, fabulando versos e histórias ao longo da noite, e tomou contato com o ocultismo. E também ali finalizou "Inventário do Irremediável" (1970), seu primeiro livro de contos, publicado pela editora Movimento. "Foi na casa de Hilda que dei forma final aos textos, inscrevendo-os no Prêmio Fernando Chinaglia [da União Brasileira de Escritores, que venceu em 1969], para autores ainda inéditos", disse na introdução da segunda edição do livro, publicada em 1995, com o título "Inventário do Ir-remediável’. A mudança na grafia do título era tentativa de dar um viés mais otimista à obra. Para o autor, "o mais marcante neste ‘Inventário’ é a excessiva influência de Clarice Lispector", a quem conheceu em Porto Alegre e de quem se tornou amigo, além do "nouveau-roman francês de Robbe-Grillet, Natalie Sarraute e Michel Butor", "do realismo-mágico latino-americano" e de "vagas alegorias sobre a ditadura militar". London, London Em 1973, Caio fez novos deslocamentos. Viveu em Estocolmo, Amsterdã e Londres. Nessa época, trabalhou como garçom, lavador de pratos e modelo vivo. Na capital inglesa, morou em "casas abandonadas onde ainda havia móveis, livros", segundo recordaria. Foi nessa período que teve seu envolvimento mais intenso com drogas, "tomando heroína", conforme declarou ao Globo. Foi preso "numa livraria, roubando a biografia de Virginia Woolf, escrita por Quentin Bell". "Fiquei três dias na prisão. Desde então, ela me protege." Isso não significa, porém, que Caio a poupasse de sua língua ferina. Em agosto de 1979, já de volta a São Paulo e à editora Abril, foi apresentado por seu então namorado e colega da hoje extinta revista Pop, Celso Curi, à escritora Maria Adelaide Amaral, que trabalhava na Abril Cultural. "Foi como se a gente tivesse se conhecido desde sempre", ela recorda. Caio a apelidou de Levinha, por sua estatura e peso. A amizade teve direito à leitura compartilhada dos diários de Virginia Woolf. Num dado momento, os dois amigos chegaram ao trecho em que a autora demonstra certa satisfação com a morte da escritora Katherine Mansfield. Caio pegou o telefone no mesmo instante: "Levinha, ela era uma naja!". Entre São Paulo e Porto Alegre No final dos anos 1970, escreveu aquele que seria o ponto de virada em sua vida literária: "Morangos Mofados". "Foram contos feitos numa época em que ele estava bem na vida", conta Graça. "Astrologicamente é muito significativo. Foi um renascimento." Após acordo que não se concretizou com outra editora, Caio apresentou o livro ao editor Luiz Schwarcz, futuro fundador da Companhia das Letras, que o publicou pela Brasiliense em 1982. O livro faz sucesso até hoje. Em 2027, deve estrear uma adaptação teatral do conto "Aqueles Dois", produzido por Dea Martins, amiga de Caio desde 1987, com direção e dramaturgia de Andre Magalhães. A atriz Marisa Orth, então estudante da Escola de Arte Dramática da USP, recorda-se do impacto provocado pela leitura dos contos na época. "Foi um absurdo para a minha geração." Os dois foram apresentados pela também atriz Grace Gianoukas, no restaurante Ritz, em São Paulo. Marisa era uma das vocalistas do grupo Luni, banda de destaque na cena experimental paulistana dos anos 1980. Ao apresentá-los, Grace disse: "Marisa, este é um fã seu". Marisa via nele o refinamento de "um homem antigo, apesar de jovem". Caio foi um ídolo e também um incentivador de jovens artistas talentosos daquele período. Grace Gianoukas o descobriu durante uma viagem, quando leu "O Ovo Apunhalado", reunião de contos de 1975, publicado na volta do escritor ao Brasil. "Fiquei completamente arrebatada", contou. Em 1983, Caio lançou "Morangos Mofados" na Feira do Livro de Porto Alegre, cidade em que morava na ocasião. A gaúcha Grace entrou na fila e falou: "Não tenho dinheiro pra comprar teu livro, mas queria te convidar pra ver minha peça". Caio foi e mandou uma mensagem, no programa da peça, dizendo que havia adorado o espetáculo. No ano seguinte, voltou a São Paulo e a convidou para morar com ele. "Caio me adotou, como fez com muitos artistas", conta Grace. Hoje ela desenvolve o projeto Grace Gianokas lê Caio Fernando Abreu, que une leitura, debate e oficina literária. "Faço o que posso para que as pessoas conheçam a obra dele e possam se sensibilizar", ela diz. Amargo regresso Em 1990, "Os Dragões Não Conhecem o Paraíso", livro de contos seguinte, vencedor do Prêmio Jabuti, ganhou edição na Inglaterra. Caio foi para o lançamento e decidiu permanecer em Londres. Sem dinheiro, bateu na porta de um restaurante francês no bairro Camden Town, onde já havia trabalhado nos anos 1970. Para chegar a ele, passava ao lado de uma livraria, onde sua obra estava em destaque na vitrine. Com amargor, Caio dividiu essa cena com vários amigos. Prêmios literários e o sucesso editorial de "Morangos Mofados", que rendeu ainda adaptações cinematográficas de alguns contos, não mudaram sua situação financeira e profissional. Para escrever seu segundo e último romance, "Onde Andará Dulce Veiga?" (1990), publicado pela Companhia das Letras, o autor recebeu US$ 350 por mês, o que hoje equivaleria a R$ 1.750. "Eu complementava com o que chamo de biscates culturais. Se não tinha dinheiro para jantar fora, fazia arroz integral com ovo frito. Andava a pé, pegava ônibus. Cortaram a luz. Cortaram o telefone", contou em entrevista. "Concordo com Hilda Hilst quando diz que hoje, no Brasil, escritor vale menos que um pato morto. Não há respeito. Não há divulgação. Não há amor pelo autor brasileiro. Nós estamos todos profundamente solitários, desencantados, separados." A situação de penúria agravou os tormentos pessoais do autor. "Ele não ficava muito tempo nos lugares. Ele tinha uma impaciência, uma angústia", conta Maria Adelaide Amaral. "Tristeza é uma palavra muito banal para definir o que ele me passava. Raramente ele estava contente. Nunca vi o Caio feliz. Era como se a vida fosse insuficiente." "A vida para o Caio era mais difícil, mais dura, ele via a vida através de uma lente de Caio Fernando Abreu", afirma Celso Curi. "Uma vez ele falou: ‘Vou colocar o tarô para você’. Num momento, disse: ‘Tenho pena de você: você vai morrer lúcido’." O ator Marcos Breda, que protagonizou a adaptação cinematógrafica do conto "Sargento Garcia", de "Morangos Mofados", e montou textos de Caio no teatro, viveu com o autor no Rio em 1987 e foi seu amigo até o fim da vida, afirma que "esse desencanto" o acompanhava desde o início de sua trajetória, mas era temperado com "um senso de humor afiadíssimo". Um país desconhecido Esse sarcasmo foi posto à prova quando surgiram os primeiros sintomas do HIV/Aids. "Voltei da Europa em junho [de 1994] me sentindo doente. Febres, suores, perda de peso, manchas na pele", ele narrou em sua última "carta para além dos muros", em 18 de setembro de 1994. Publicadas no Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo, no qual colaborou por dez anos, as cartas foram escritas quando estava internado no Hospital Emílio Ribas, em São Paulo. Os amigos já notavam sua perda de peso, feridas nasais e queixas de dores no corpo. Quando decidiu fazer o teste de HIV, disse a Graça que faria uma camiseta onde estaria escrito: "Negativo!" Graça foi buscar o exame. A pedido do amigo, abriu o resultado. Foi até seu flat, na sua Frei Caneca, e disse: "Não dá para fazer a camiseta". O vírus permeava a mente do autor havia mais de uma década. Apareceu pela primeira vez em "Pela Noite", do livro "Triângulo das Águas" (1983), também vencedor do Jabuti. A novela conta a história de dois homens, Pérsio e Santiago, que se conhecem numa sauna e vivem uma jornada pela noite gay paulistana. "Tenho milhões de medos. [...] Medo de ficar só, medo de não encontrar, medo de Aids. Medo de que tudo esteja no fim, de que não exista mais tempo para nada", diz Pérsio. "Os Dragões Não Conhecem o Paraíso" traz dois contos com a temática, "Linda, Uma História Terrível" e "Dama da Noite" —este último, conto em forma de monólogo dramático, adaptado por Gilberto Gawronski para o teatro. A história tem como narradora uma figura ambígua em termos de gênero. Ela relata a "grande merda" que fizeram com a "cabecinha" do "boy" e toda a geração dele, que "já nasceu de camisinha em punho, morrendo de medo de pegar Aids". "Não existia a figura ‘drag queen’ como apresentei na montagem", conta Gawronski, que carregava o exemplar de "Morangos Mofados" consigo no Posto 9 [na praia de Ipanema, no Rio]. "Eu a apresentava em boates numa época em que não havia antirretroviral [medicamento para tratar infecções por retrovírus, como o HIV] nem nada. Era impactante falar sobre isso." Em "Onde Andará Dulce Veiga?", a personagem Márcia, filha da protagonista Dulce Veiga, a cantora desaparecida inspirada em Odete Lara, queixa-se de carocinhos ao redor do pescoço. "Eram grânulos ovalados, fugidios. Exatamente iguais aos que haviam surgido, há alguns meses, no meu próprio pescoço. Não só no pescoço, nas virilhas, nas axilas", afirma o protagonista e narrador, indicando sintomas da doença. Na vida real, o impacto foi doloroso. Em crônicas e cartas, Caio afirmou ter perdido o controle após o terceiro dia. O amigo e secretário Gil Veloso, ao visitá-lo, encontrou-o nu e em estado de delírio. "Percebi que ele estava muito frágil e mentalmente muito abalado, não estava dizendo coisa com coisa." Preocupado, decidiu chamar a ambulância para interná-lo e desceu para a recepção. Notou uma movimentação na janela do quarto e correu de volta. Conseguiu contê-lo a tempo. "Ele se retraiu como uma criança", contou Gil. Uma cena semelhante já havia sido relatada em "Pela Noite". Num diálogo com Santiago, Pérsio afirma: "[...] Estou doente, descobri que estou com Aids, tenho um compromisso, tentei pular da janela." Caio foi internado no pronto-socorro do Hospital Emílio Ribas. Inicialmente, segundo Dea, seria colocado junto de um paciente com tuberculose. Ao saber que Caio era um escritor conhecido, o médico transferiu-o para um quarto privado, com vista para os muros do hospital, que inspiraram o título da série de crônicas "Cartas para Além dos Muros". "É no corpo que escrever me dói agora. Nestas duas mãos que você não vê sobre o teclado, com suas veias inchadas, feridas, cheias de fios e tubos plásticos ligados a agulhas enfiadas nas veias para dentro das quais escorrem líquidos que, dizem, vão me salvar. [...] Dói muito, mas eu não vou parar. A minha não desistência é o que de melhor posso oferecer a você e a mim neste momento. Pois isso, saiba, isso que poderá me matar, eu sei, é a única coisa que poderá me salvar." A última partida Graças a um multivitamínico, suplemento alimentar que combina várias vitaminas e minerais em uma única fórmula, conseguido por meio de Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, Caio pôde receber alta e ir para Porto Alegre. Os amigos fizeram uma vaquinha e lhe compraram um laptop, entregue a ele por Celso Curi. Ao longo de 16 meses, dedicou-se apenas à literatura, como sempre sonhou: reescreveu os contos de "Morangos Mofados", reeditou "Inventário do Ir-remediável" e organizou sua última coletânea, "Ovelhas Negras", lançada em 1995. Sua obra, que já havia passado por reedição ao longo dos últimos dez anos, estava completa. "Na hora que ele percebeu que esse estado de saúde era muito frágil, estourou certa urgência. Essa urgência não era característica da escrita dele", afirma Gilberto Gawronski. Em fevereiro de 1996, viajou à Praia do Rosa, no litoral sul de Santa Catarina, acompanhado por Dea Martins. Estava bastante magro, utilizando um graveto como bengala. Apesar da saúde fragilizada, do corpo febril e da oposição de Dea, entrou no mar. Logo veio um cãozinho de rua e o seguiu na água. "Esse cachorro vai me curar como curou São Lázaro", disse Caio, em referência à parábola bíblica do homem enfermo, cujas feridas foram lambidas por um cachorro. Os dois amigos almoçaram em um restaurante local, onde Caio foi confundido com Betinho, que também sofria em decorrência da Aids, e voltaram para o chalé. Deitado, ele admirou a paisagem, de onde se podia ver o mar, um lago e a mata. Com a piora de seu estado de saúde, foi levado dias depois de volta a Porto Alegre por um helicóptero do Grupo RBS, que havia lhe cedido o chalé. Era sua última partida —e o fim da jornada de um peregrino que entrelaçou vida e literatura em busca de algo que tão bem sintetizou sua personagem Dulce Veiga: "Nada além: eu quero encontrar outra coisa".

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