Cadeira vazia, oficina do diabo e editorial emocionado

Cadeira vazia, oficina do diabo e editorial emocionado

No calor do cancelamento do debate da Globo, que ocorreria na noite da quinta (1º), a Folha publicou o editorial "Ataque de juízes prejudica neutralidade da eleição". O texto com a opinião institucional do jornal suscitou mais manifestações do que o normal, com questões que merecem ser discutidas. Alguns leitores, como Diogo Molina, de Itajubá (MG), elogiaram o posicionamento. Para outros, como Abel Cabral, de Campinas (SP), a Folha foi leniente com abusos anteriores e agora paga o preço. "Existe muito mais de desrespeito à Constituição nas práticas do STF. E eis que, de repente, a imprensa se vê vítima." Ele reconhece, porém, que "a imprensa não pode ser calada". José Hamilton Cruz, também de São Paulo, afirma, a partir do editorial, que "a Folha já tem elementos suficientes para classificar o Brasil como uma ditadura" e que "a esquerda utiliza garfo e faca para implantá-la no Brasil". Já Marcia Meireles se viu "meio desentendida com a leitura do editorial". A paulistana diz que concorda com "o enunciado e com informações do texto". "Mas enxergar equivalência entre os malfeitos de meritíssimos e o golpe bolsonarista não dá, é excessivo." Em mensagens críticas ao editorial, alguns assinantes (e novos ex-assinantes) observaram que faltou menção à primeira da série de decisões judiciais, de Kassio Nunes Marques, em favor de Romeu Zema (Novo). Mais de um leitor lembrou que nem seria necessário que o jornal a incluísse no balaio do que chamou de "intervenções impróprias", mas é incompreensível que o jornal nem ao menos a tenha citado. "Reconheço a diferença [da decisão sobre Zema] em relação ao caso de Renan Santos (Missão): discutir a contagem de uma bancada não equivale a dispensar o requisito mínimo de representação. Essa diferença pode justificar avaliações distintas. Justamente por isso, seria esclarecedor que o jornal a examinasse e explicitasse seu critério. Se a preocupação editorial é a previsibilidade das regras e a interferência de magistrados no processo eleitoral, por que o caso do Novo não integra a análise?", questiona o paulistano Fernando, que prefere não divulgar o sobrenome. Outra observação: "Considero necessário fundamentar melhor a atribuição de intenção de favorecimento a Lula (PT). Uma decisão produzir efeitos politicamente convenientes a alguém não demonstra, por si só, que tenha sido proferida com essa finalidade". A demanda pode até soar ingênua. Mas é importante por chamar a atenção para a maneira como argumentos sobre excepcionalidade e censura ("cadeira vazia … tem uma longa tradição no Brasil", "agora se decide o que uma emissora pode transmitir ao público") acabam nublados pelo palavrório carregado ("agonia para favorecer o incumbente", "símbolo do desprezo", "casuisticamente, não se aplica", "só os petistas comemoraram" —e será mesmo verificável que as comemorações tenham se limitado aos petistas?). Thiago Netz, de São Paulo, lamenta pelo editorial "provavelmente escrito às pressas", "após a patacoada perpetrada pela desistência dupla do debate da TV Globo: o candidato Flávio Bolsonaro (PL) e a rede de televisão". Ele observa que não há "uma linha falando da desistência, minutos após decisão esdrúxula que autorizou Renan Santos, mas muito a reclamar da decisão de Gilmar Mendes. Para piorar, decisão também esdrúxula do presidente do TSE foi relegada ao olvido. (...) Sobre a decisão da emissora de cancelar, não há mais que quatro palavras." "O editorial é uma opinião, mas essa opinião na forma e nos termos em que foi apresentada mostra que o jornalismo da Folha, em especial o praticado por sua diretoria, carece de mais esforço para não se deixar levar por leituras rasas e parciais", afirma Netz. Não é de hoje que o jornal parece priorizar o tom inflamado em seus editoriais de destaque, talvez um reflexo da ascensão da linguagem populista e radicalizada. Num contexto em que as redes sociais já garantem inflamação permanente e ao alcance de qualquer um, não seria inútil repensar se esse tipo de abordagem é o que melhor atende aos interesses dos assinantes e, principalmente, aos da própria Folha. O drama e a hipérbole ("corroendo", "audaciosas", "impróprias", "partidárias", "desespero da autopreservação", "rasgam a toga", "fazem o diabo"...) ocorrem à custa de explicações e justificativas mais didáticas e sóbrias. Já o editorial do jornal O Globo sobre o mesmo tema conseguiu expor melhor seus argumentos e conjugar firmeza com clareza. Moderar o tom não significa, portanto, abrir mão da gravidade, e nem é preciso ir longe para verificá-lo. Um dos editoriais marcantes na história recente do jornal, "Nem Dilma nem Temer" (2016) não era nada suave ao pedir a saída da então presidente e do vice. Ainda assim, conseguia se apoiar mais em argumentos do que nas rajadas verbais. A comparação entre o texto da quinta-feira e o de 2016 (feita com auxílio da IA do Google Gemini Pro e a partir da classificação e da contagem dos termos) indica o quanto a Folha pode estar pesando a mão. O texto de dez anos atrás, com 500 palavras, tem 8 "qualificadores morais/axiológicos". Isso significa 1 desses trovões a cada 62 palavras. O texto da quinta-feira, com 346 palavras, tinha 18 desses, ou 1 a cada 19. A métrica, apesar de amadora, sinaliza que o jornal está 325% mais disposto àquilo que ficou conhecido como lacração. Na última década, a hostilidade em relação ao jornalismo também aumentou, e as crises dessa indústria se intensificaram, incluindo as de identidade e de credibilidade. Não ajuda nada o fato de os editoriais serem textos de opinião sem assinatura nem rosto num mundo dominado pela comunicação personalista dos influenciadores. Nessa realidade guiada por algoritmos e descargas dopaminérgicas, escolhas imediatas e "polarização", um jornal generalista é um bicho exótico. Se é capaz de ponderar, de buscar o contraditório e de exercitar a dúvida onde imperam as certezas, esse bicho acaba por ser encarado também como uma espécie mitológica de monstro indesejável. Abrir mão dessas qualidades, porém, não o torna menos monstruoso. Apenas adianta sua extinção. No ano passado, ao comentar reação do STF ao presidente americano, outro editorial da Folha concluiu que "apenas os Bolsonaros e os Trumps lucram quando a irracionalidade que irradiam passa a ser utilizada por seus opositores". O mesmo parece se aplicar ao jornal e à incorporação dos trejeitos da "besta do populismo autoritário". O caso eleitoral da Nossa Senhora Aparecida fica para a coluna regulamentar, que vai ao ar na noite deste sábado. Agradeço a leitores e comentaristas pelas contribuições e pela paciência. 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