A primeira evidência direta do uso da maconha como planta psicoativa (capaz de produzir alterações no funcionamento do sistema nervoso) tem cerca de 2.800 anos de idade e vem das sepulturas de antigos aristocratas nômades do sul da Sibéria, de acordo com um novo estudo. No sítio arqueológico apelidado de Tunnug 1, onde foram achados restos mortais de pessoas e cavalos, os pesquisadores também encontraram muitas sementes da erva Cannabis sativa. Além disso, cabelos humanos que também foram preservados no local trazem, em sua composição química, moléculas provavelmente derivadas de THC ( tetrahidrocanabinol). Trata-se do composto que é o principal responsável pela alteração de consciência ligada ao uso da planta. As conclusões da equipe de cientistas sobre os achados na Sibéria acabam de sair no periódico especializado americano Science. Liderados por Gino Caspari, do Instituto Max Planck de Geoantropologia, na Alemanha, os arqueólogos enxergam associações entre o uso da erva e os complexos rituais funerários das culturas de cavaleiros das estepes –cerimônias que chegaram a ser descritas até pelo chamado "pai da História", o escritor grego Heródoto, que viveu no século 5º a.C. A possível conexão da Cannabis com os povos cavaleiros da Ásia Central já vinha sendo investigada antes, em parte graças à inspiração do próprio Heródoto, em parte por conta de pistas arqueológicas e biogeográficas (a área de estudo que investiga a distribuição dos seres vivos pelo planeta). As parentes selvagens da atual maconha domesticada estão presentes numa área que vai das montanhas do Cáucaso (área tradicionalmente vista como a fronteira entre a Europa e a Ásia) até o oeste da China. São plantas que conseguem colonizar com facilidade solos perturbados pela presença de grandes manadas de herbívoros, o que significa que elas podem ter se multiplicado justamente graças ao aparecimento das culturas de pastores nômades que se espalharam pela Ásia Central e regiões vizinhas alguns milênios antes da Era Cristã. Grosso modo, o período também coincide com o processo de domesticação dos cavalos, animais que acabariam dando aos seus criadores uma série de vantagens logísticas e militares no confronto com agricultores sedentários ao longo da história. Antes mesmo da expansão dos cavaleiros, porém, tudo indica que variedades de Cannabis estavam sendo domesticadas em território asiático, de início para fins práticos, como a fabricação de cordas (é o chamado cânhamo) e de óleo. Já o processo que levou ao uso ritual ou recreativo da erva, envolvendo práticas mais semelhantes ao hábito de fumá-la, por exemplo, ainda conta com uma série de lacunas. Alguns sítios arqueológicos que sugerem esse tipo de uso tinham mais ou menos a mesma idade que os textos de Heródoto (cerca de 2.500 anos, portanto). O historiador grego usa o termo "kánnabis" (daí a origem do nome científico) e associa a planta aos citas, justamente um dos povos de cavaleiros das estepes entre a Ásia e a Europa, falantes de idiomas aparentados aos que existem no Irã e no Afeganistão atuais, que costumavam atacar populações agrícolas. Heródoto conta que os citas, após os funerais de seu povo, costumavam montar tendas de feltro, dentro das quais colocavam pedras aquecidas no fogo. "Os citas, então, tomam as sementes desse cânhamo", escreve ele, "e as jogam nas pedras aquecidas, e as sementes queimam como se fosse incenso, produzindo um vapor tão espesso que nenhum vapor de banho da Grécia o supera". A ideia, portanto, é que a fumaça das sementes queimadas de Cannabis, inalada dentro das tendas, seria a forma inicial do uso da planta para alterar a consciência. As descobertas no sítio Tunnug 1 parecem corroborar a ideia de que esse cenário é no mínimo alguns séculos mais antigo que as descrições de Heródoto. As sepulturas ali encontradas fazem parte de um teso funerário –ou seja, um pequeno morro artificial construído para abrigar os corpos de membros da aristocracia e, provavelmente, também os de cavalos e seres humanos sacrificados em honra deles. Os tipos de bens funerários (oferendas aos mortos) encontrados no teso batem com o estilo associado aos antigos citas. No complexo, os pesquisadores acharam mais de mil sementes de Cannabis e, na câmara funerária central, os cabelos humanos. As datações das sementes correspondem, muito provavelmente, à primeira década do século 8º a.C. (ou seja, um pouco antes do ano 790 a.C. no nosso calendário). Com a ajuda de sofisticadas "balanças" moleculares, os pesquisadores identificaram nos cabelos humanos a presença de CBN (canabinol), molécula derivada da erva que provavelmente é resultado da degradação do THC no organismo –isso porque o CBN também costuma ser identificado nos cabelos de consumidores atuais da droga. Os pesquisadores destacam que os achados são relevantes não apenas pela data mais antiga, mas porque, segundo eles, trata-se do primeiro caso em que tanto os restos das plantas quanto seus traços biomoleculares no organismo de seus consumidores aparecem no mesmo contexto arqueológico. Entre as possibilidades de conexão entre a Cannabis e os rituais funerários, eles especulam que ela pode ter sido usada como uma espécie de incenso ao ser queimada, ou mesmo como forma de tentar acalmar as pessoas que seriam submetidas ao sacrifício.
Arqueologia revela uso da maconha h� 2.800 anos na Sib�ria
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