Antiga metr�pole asi�tica, Mohenjo-daro uniu menos desigualdade e prosperidade

Antiga metr�pole asi�tica, Mohenjo-daro uniu menos desigualdade e prosperidade

Uma das mais antigas metrópoles do mundo pode ter diminuído a desigualdade social com o passar dos séculos, chegando a níveis que se comparam aos dos atuais países escandinavos, segundo uma nova estimativa. Para os autores do estudo, é possível que a "cidade perdida" de Mohenjo-daro, no atual Paquistão, tenha ficado mais igualitária ao longo do tempo graças a uma mistura de participação popular e crescimento econômico. Os resultados, que saíram na edição deste mês do periódico especializado Antiquity, trazem novos dados para uma discussão que ganhou temperatura entre arqueólogos e o público nos últimos anos, em parte graças ao best-seller "O Despertar de Tudo", de David Graeber e David Wengrow. O livro da dupla, voltado ao público leigo, bem como trabalhos mais especializados, têm questionado a relação entre a chamada origem das civilizações e o surgimento da desigualdade social. Ocorre que, segundo a visão que predominou ao longo do século 20, as duas coisas estariam ligadas. De acordo com essa linha teórica, para que a complexidade social aumentasse, seria necessário o surgimento de divisões sociais na população. Em linhas gerais, a ideia é a seguinte. Enquanto a maioria dos habitantes de uma região ficaria "amarrada" à produção de excedentes de alimento, por meio da agricultura e da criação de animais, essa sobra de recursos poderia ser usada para sustentar especialistas (artesãos, sacerdotes e soldados, por exemplo). Esses novos grupos sociais, por sua vez, estariam sob as ordens de uma pequena elite ou mesmo de uma família real. Recursos e especialistas seriam usados ainda para dar forma a uma infraestrutura urbana, com templos, fortalezas e palácios, por exemplo. Dados arqueológicos de diferentes lugares, porém, sugerem que esse processo nem sempre é linear ou inevitável, e Mohenjo-daro, fundada por volta de 2500 a.C. e abandonada em 1700 a.C., costuma ser citada como um dos possíveis exemplos disso. Não se sabe o nome original da cidade (Mohenjo-daro, ou "teso dos mortos", é um apelido dado em épocas recentes), já que nenhuma escrita da região foi identificada ou decifrada até hoje. Com estimados 40 mil habitantes em seu auge, a metrópole foi basicamente construída com tijolos e contava com estruturas de grande escala, como tanques ou piscinas que podem ter sido usados em cerimônias, mas, até onde se sabe, não havia nada ali equivalente a palácios ou mesmo templos. Na nova pesquisa, assinada por Adam Green, do Departamento de Arqueologia da Universidade de York (Reino Unido), e seus colegas Iqtedar Alam e Cameron Petrie, da Universidade de Cambridge, mapas das construções de Mohenjo-daro em diferentes fases da evolução da cidade foram analisados para estimar um índice de "desigualdade residencial", co m base na mesma lógica dos estudos modernos sobre o tema. Trata-se, portanto, de uma aplicação do índice Gini, que também é empregado para medir –com muito mais precisão, é claro– a desigualdade econômica em países de hoje. O chamado coeficiente Gini fica entre 0 e 1, num espectro que vai de igualdade perfeita (ou 0, imaginando-se que todo mundo tenha exatamente os mesmos bens) a desigualdade completa (1, em que só uma pessoa detém todos os bens da população). Em 2025, o índice, no caso brasileiro, era de 0,511. No caso dos dados arqueológicos, essa lógica pode ser aplicada, por exemplo, a bens funerários (medindo a concentração de objetos de metal precioso em túmulos ou a decoração deles, digamos) ou, como no caso do estudo na Antiquity, ao tamanho e estrutura de construções que parecem ter sido residenciais. Uma coisa que chama a atenção em Mohenjo-daro é a presença de muitas possíveis casas com um tamanho que parece mais ou menos padronizado, várias delas ligadas a "quintais" ou "áreas de serviço" comuns, mais ou menos como se fossem apartamentos de hoje. A questão era saber se essa impressão se sustentava após uma análise quantitativa usando métodos modernos (já que as escavações originais na cidade começaram na primeira metade do século passado). Foi o que a equipe tentou fazer, analisando 309 áreas de Mohenjo-daro que parecem ter sido residenciais. Nessa análise geral, o índice Gini calculado foi de 0,44 –menos desigual que o do Brasil e que de quase todas as cidades da Eurásia na Antiguidade. Ainda assim, não seria o caso de classificá-lo como igualitário, em especial se comparado ao de sociedades antes da transição para a vida urbana. O cenário, segundo os pesquisadores, fica mais claro com uma análise mais detalhada, levando em conta tanto as diferentes regiões da cidade antiga quanto os períodos de sua formação. Quando eles descartam áreas que podem não ter função residencial e se fixam apenas nas com maior probabilidade de ter apenas moradias, o índice fica em torno de 0,30. E, nas áreas residenciais mais recentes (construídas a partir de 2100 a.C.), o número cai para 0,23. A queda na desigualdade não significa que o padrão de vida médio do "mohenjodarense" tenha piorado. Na fase mais igualitária, o tamanho médio das residências era de 141 metros quadrados, o que não difere muito da média nos séculos iniciais da existência da cidade. Embora seja muito mais difícil investigar como essas mudanças aconteceram, os pesquisadores apresentam algumas pistas. Mohenjo-daro e as regiões vizinhas são palco do surgimento de um sistema de pesos e medidas padronizado e de selos pessoais (uma forma primitiva de "marcas registradas", que podiam funcionar como carimbos). É possível que isso indique algum tipo de revolução comercial acontecendo na região com a ascensão da cidade, levando a avanços econômicos, e a ideia poderia ser corroborada pelo crescimento da área ocupada pela metrópole nos séculos posteriores de sua existência. Por fim, as áreas das grandes piscinas e outros espaços públicos poderiam sugerir locais para negociações e debates envolvendo uma parcela considerável da população, fazendo com que a prosperidade crescente ficasse mais bem distribuída. Ainda é difícil, porém, verificar se isso de fato aconteceu.

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