Vencer o Nobel não era o sonho de Annie Ernaux. Pelo contrário, ela diz em entrevista à publicação americana Vulture que sentia pena dos vencedores e ser laureada em 2022 causou uma "ruptura" em sua vida. "As intenções de Alfred Nobel eram nobres. Mas tudo o que vem depois —as montanhas de mensagens, os pedidos intermináveis— é um fardo", afirma a autora de "Os Anos". Aos 86 anos, a francesa falou na entrevita sobre protestos em seu país, o movimento MeToo e seu próximo livro —que escreve como se fosse o último e promete ser "politicamente incorreto". "Quando se escreve, não está escrevendo apenas para a época atual. Não se deve deixar limitar pela ideia de que aquele não é o tema certo para agora." Ser "incorreta" é algo a que Ernaux já está acostumada. Sua literatura sempre causou polêmica desde a classificação entre a autoficção e a autosociobiografia até os temas que aborda. "Acredito que tudo precisa ser oferecido de alguma forma, absolutamente tudo. Meus livros são todos testemunhos." Foi com essa perspectiva que relatou, em "Memória de Menina", o estupro que sofreu aos 18 anos. "Escrevi o livro antes do movimento MeToo. Entre os muitos motivos que me impediram de escrevê-lo por tanto tempo estava o medo de como contar essa história sem ser estigmatizada pelos leitores, especificamente pela ideia de que ‘ela pediu por isso’." A autora conta que se culpou por muito tempo pelo que lhe aconteceu. Ernaux declarou ainda sua admiração por Gisèle Pelicot. "É extremamente importante que essas questões ganhem visibilidade, no melhor sentido da palavra, para que, quando uma mulher for agredida por um homem, ela saiba que não está sozinha e que pode se manifestar." Para a francesa, o caso foi crucial para uma mudança de mentalidade em seu país. Ernaux enfrentou o machismo em toda sua carreira. "Digamos que, na França, meu Nobel foi muito contestado. Como o Nobel nunca havia sido concedido a uma mulher francesa, o fato de eu ser mulher já fazia com que minha conquista fosse considerada ilegítima." Ernaux diz ter aceitado o prêmio como um sacrifício, recebido em nome das pessoas que representa: as mulheres e os oprimidos. Afirma que não escreve apenas para si mesma. "O objetivo é nunca colocar em evidência um único indivíduo, mas aquilo que há de geral e coletivo em cada indivíduo." Tudo a Ler Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias Ativista, Ernaux diz ver seu posicionamento político como uma extensão de sua escrita. Ela declarou apoio à campanha do esquerdista Jean-Luc Mélenchon durante um comício em que apareceu usando um keffiyeh, lenço que simboliza a luta palestina. "Eu nunca havia discursado em um ato público antes e me lembro de ter pensado: ‘Este é o meu lugar’." Ela conta estar comprometida com a defesa de Gaza desde 1967, quando, durante a Guerra dos Seis Dias, afirmou entender que Israel era um "Estado colonialista". Sobre os protestos estudantis que tomaram a França no último mês, Ernaux se diz preocupada e triste por testemunhar um "país envelhecido que só se preocupa com os ricos". A violência policial vista nos protestos a tem impressionado. "É um nível de brutalidade tão alto que —eu ouso dizer— se trata de um método fascista."
Annie Ernaux diz que pr�mio Nobel '� um fardo' e critica viol�ncia policial na Fran�a
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