Quando o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reuniu com seus advogados e principais aliados políticos na segunda-feira (26), dia seguinte à derrota na disputa presidencial para Lula (PT), ele estava inconformado e se sentia injustiçado, segundo participantes do encontro. Na véspera, havia declarado que não reconhecia o resultado da eleição. Após quase cinco horas de reunião, ele parecia convencido a não seguir o caminho golpista de falar em fraude na votação, de acordo com os relatos. Um dos argumentos ouvidos pelo senador foi o de que repetir as atitudes de Jair Bolsonaro (PL) o levaria ao mesmo lugar: a prisão. O ex-presidente cumpre em regime domiciliar a pena de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Flávio decidiu evitar uma eventual prisão de outra forma ao fugir para os Estados Unidos, onde sua voz não seria censurada, segundo ele. De lá, o candidato derrotado voltou a insinuar que houve fraude na eleição, sem apresentar provas. Um dos aliados presentes na reunião de segunda teria pedido que Flávio lembrasse o que o pai havia feito e aonde tinha chegado com isso. O senador tinha acabado de visitar Bolsonaro naquela manhã. Ao sair da casa do pai, segundo ele mesmo relatou, recebeu uma intimação da Polícia Federal. No âmbito do inquérito que o investiga por suspeita de lavagem de dinheiro, a PF havia pedido, e o ministro Alexandre de Moraes havia autorizado, que seus passaportes brasileiros fossem cancelados. Já o documento italiano deveria ser entregue até o final da manhã seguinte. A fundamentação da solicitação não foi tornada pública. Após ser intimado, segundo os relatos, Flávio ligou para os advogados da campanha Tracy Reinaldet (criminal) e Maria Claudia Bucchianeri (eleitoral), mas não teria conseguido falar com eles. Recorreu então ao amigo e advogado Otto Medeiros, que lhe disse para ir ao seu escritório. FolhaJus A newsletter sobre o mundo jurídico exclusiva para assinantes da Folha O local recebeu, então, o que se tornou uma reunião de definições políticas e jurídicas a respeito do futuro do senador e da direita. Juntaram-se aos dois Tracy, Maria Claudia, o coordenador da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), o advogado e amigo Vicente Santini, a economista Daniella Marques e o senador eleito Guilherme Derrite (PP-SP). A opinião de que Flávio deveria abandonar a contestação das urnas teria sido unânime. Os advogados apontaram que a melhor estratégia seria uma ação eleitoral contra Lula por uso da máquina, para a qual diziam ver elementos consistentes. Ficou combinado que o candidato do PL participaria, na semana seguinte, de um evento no Congresso com os senadores da direita eleitos para apontar os rumos da oposição a Lula. O primeiro embate seria a disputa pela presidência do Senado. O senador também teria acertado com um de seus advogados que ele poderia buscar seu passaporte italiano pela manhã em sua casa e entregá-lo à PF. A reunião no escritório de Otto durou de 11h até cerca de 16h. Nesse intervalo, o advogado ofereceu um buffet de almoço. E ali mesmo o senador gravou um vídeo, seguindo o conselho do grupo, em que deixou de lado a tese de fraude e disse que entregaria seu passaporte, pois nunca havia pensado em sair do país. Até chegar ao tom considerado correto, Flávio fez a gravação três ou quatro vezes. O vídeo foi disparado em suas redes pouco antes das 17h. Quem esteve com Flávio naquela segunda diz que a intimação da PF agravou o estado do senador, já inconformado com a derrota. O mesmo medo de ser preso que seus advogados usaram como argumento para que ele não adotasse uma linha golpista acabou sendo a motivação de sua fuga, segundo disse em live nesta sexta-feira (30). Flávio afirmou, na transmissão em suas redes, que Bolsonaro presenciou a intimação da PF na porta de sua casa. "Ele me olhou com os olhos cheios de lágrimas, falou: 'já sabe aonde é que eles querem chegar com isso, né?'. Eu falei: 'pai, já sei aonde eles querem chegar, eu sei o que eu tenho que fazer", disse. O senador disse que, nos EUA, vai "continuar tendo voz ativa", ao contrário do pai. "Ele ficou no Brasil e onde ele está, né? [...] Como é que ele consegue orientar se ele não tem voz, se ele está censurado, injustiçado?", questionou. Tudo indica que Flávio, Fernanda e as duas filhas estavam em casa na tarde de segunda, quando o senador recebeu outro advogado e amigo, Frederick Wassef, que tem uma opinião mais radical do que o grupo com quem o senador havia acabado de se reunir. Wassef saiu da casa do senador por volta de 18h, cerca de 40 minutos após ter chegado. No dia seguinte, às 7h50 de terça-feira (27), o advogado com quem Flávio teria combinado de entregar o passaporte italiano enviou uma mensagem ao senador para acertar o horário —o WhatsApp exibiu apenas um tique e não houve resposta. Naquele dia, foram várias as mensagens e ligações do defensor para seu cliente, todas ignoradas. Também pouco antes das 8h, outro contato de Flávio, seu amigo Marcello Lopes, que chegou a atuar como seu marqueteiro na pré-campanha, enviou uma mensagem a Fernanda Bolsonaro, mulher do senador. Naquele momento, um portal argentino já noticiava que o candidato derrotado havia fugido do Brasil pela fronteira com o país do aliado Javier Milei. Fernanda teria respondido que Flávio estava deitado ao seu lado e que entraria em contato quando levantasse. A ida do candidato aos Estados Unidos foi reprovada por boa parte da direita, principalmente pelos integrantes mais moderados e por aliados do núcleo duro da campanha. Apesar de externarem um sentimento de compreensão com a atitude do senador, eles dizem o caminho político definido para a oposição não era aquele. A divulgação de uma carta de teor golpista por Flávio horas após sua chegada aos EUA apenas ampliou o isolamento do senador em seu próprio campo, e Tarcísio ganhou ainda mais força como alternativa para liderar a oposição e se candidatar em 2030. Flávio tem dito que o Brasil não vive uma democracia e que ele não tem a quem recorrer da suposta perseguição. Para seus advogados, contudo, ele deveria ter baixado a temperatura política e, a partir disso, seus inquéritos criminais poderiam ser arquivados por meio de uma defesa técnica.
Aliados avisaram Fl�vio Bolsonaro sobre risco de pris�o e de ele virar novo Jair
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