São Paulo Os aeroportos da Zurich Airport Brasil começaram a recuperar a demanda perdida neste ano devido à guerra do Irã, que elevou o preço do QAV (querosene de aviação) e impactou a oferta de voos ao redor do mundo. É o que diz o CEO da companhia, Ricardo Gesse, em entrevista à Folha. "Sim, existem cortes de demanda, sim, o mercado é afetado porque o preço sobe, mas eu não vejo essa crise como algo drástico. Não sei o que vai acontecer no futuro, mas, com as oscilações de preço que vemos hoje, eu acho que há uma perda, mas não é uma perda tão significativa", afirma Gesse. O CEO da Zurich Airport Brasil, Ricardo Gesse, no aeroporto internacional de Florianópolis - Alexandre Cypriano - 9.out.26/Folhapress De origem suíça, a Zurich Airport administra quatro aeroportos no Brasil: os de Florianópolis, Vitória, Macaé (RJ) e Natal. O terminal potiguar foi o primeiro a ser concedido na rodada de leilões do setor feita pelo governo federal, em 2011. À época, o Consórcio Inframerica ganhou a concessão do terminal, mas anunciou sua devolução amigável em 2020, citando impacto no tráfego de passageiros devido à crise econômica atravessada pelo Brasil à época. Em leilão realizado em 2023, a Zurich Airport levou o contrato ao oferecer R$ 320 milhões pelo aeroporto. O terminal de São Gonçalo do Amarante (RN) foi o primeiro aeroporto concedido no programa de concessões do setor do governo federal. O ativo foi arrematado primeiro pela Inframerica, que anos depois devolveu a concessão. Por que decidiram entrar no negócio? Aquele contrato era diferente do contrato que a gente tem, ele demandava pagamentos maiores ao governo, pagamentos de outorga anuais para o governo, um modelo que foi mudando ao longo do tempo. E, naquela época [quando o aeroporto foi concedido] existia uma projeção de tráfego [de passageiros] muito maior. Foi na época do Cristo Redentor decolando na [capa da] revista The Economist [2009]. Essa projeção de tráfego da época acabou se frustrando, e a Inframérica, outro operador, optou por devolver o ativo. Mas o aeroporto é um ativo muito bom, tem um potencial muito grande, por isso que houve interessados para essa licitação, nós não fomos os únicos. E quando a gente fez o bid [processo de licitação] para essa concessão, nós 'bidamos' num contrato diferente e com um sistema de pagamento diferente. Basicamente era uma outorga que a gente pagou e depois uma outorga variável, crescente ao longo do contrato. Isso tem uma previsibilidade maior para quem faz o lance. Esse sistema de pagamento é muito mais vinculado ao nível de receita da concessionária do que o contrato anterior, que era com outorgas fixas anuais. Com a Zurich Airport Brasil, nos aeroportos que temos, já investimos R$ 1,4 bilhão e pagamos em outorga R$ 1,3 bilhão. Uma parte desses investimentos era obrigatória, e outra parte é por conta do crescimento do negócio. A Zurich Airport tem um aeroporto regional, o de Macaé, no Rio de Janeiro. Nos últimos anos, tivemos um baque nesse segmento, com a saída da Voepass e o fechamento de rotas por outras companhias. O quão importante é a aviação regional para a companhia e como veem esse segmento hoje? A companhia aérea está atrelada ao dólar, atrelada ao preço do petróleo, variáveis que a empresa não consegue controlar. Existe uma dificuldade sempre maior quando se fala de empresas regionais, que são empresas de características menores, atendendo mercados menores, de potencial menor. Por outro lado, temos pelo menos duas companhias aéreas com uma flexibilidade de frota, para conseguir fazer destinos menores e regionalizar a malha delas. Tem a Azul, que tem desde o A330 até o Cessna Grand Caravan, ela coloca as aeronaves conforme o potencial que o mercado tem. A Azul tem a flexibilidade de começar um destino com uma aeronave de nove lugares e mudar para uma aeronave de 42 lugares, de 72, de 130. Ela consegue fazer esse papel, testar os mercados, o que é muito bom. Não é uma companhia aérea regional, mas é uma companhia aérea que opera voos regionais devido à flexibilidade de frota. E recentemente teve a Latam entrando [em rotas regionais]. Um grande player, uma empresa normalmente muito mais focada em grandes hubs e na aviação internacional, que acaba de receber o E2 [da Embraer], e obviamente está atendendo mercados menores. Macaé é um desses mercados atendidos. O voo da Latam vai começar em fevereiro e também traz uma aeronave menor, mais eficiente. Não temos companhias aéreas regionais, mas temos companhias aéreas que conseguem suprir uma parte desse gap fazendo voos regionais por conta da sua característica de frota. Todos os quatro aeroportos têm crescido em um ritmo sustentável? Foi o que esperavam quando entraram nas concessões? Com certeza. Quando a gente chegou aqui, em Florianópolis, havia 3,8 milhões de passageiros. No ano passado teve quase 5,2 milhões, sendo quase 1,3 milhão em voos internacionais. Houve um desenvolvimento do passageiro internacional muito grande desde que a gente chegou, de 2018 a 2025. Quando se fala de Vitória, teve também o desenvolvimento de tráfego, mas teve um desenvolvimento imobiliário na região de Vitória, porque é um aeroporto central muito importante. Estamos falando de um investimento de R$ 1,8 bilhão, não feito pela Zurich Airport, mas feito por investidores que acreditam no desenvolvimento da região. Vitória se destaca pelo "real estate" [mercado imobiliário]. Se eu vou para Natal, eu também vou falar de desenvolvimento do turismo, de dobrar o número de movimentos de passageiros internacionais e de um tráfego que é um dos tráfegos que mais crescem no Brasil hoje. Se eu falar de Macaé, eu falo também de um aumento de mais de 40% na quantidade de voos offshore, que são esses voos de helicóptero [para plataformas de petróleo], e o fato de a gente prestar uma série de serviços lá para os operadores para facilitar a vida deles, claro, e para a gente aumentar nossa receita. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisõesPor que houve esse crescimento tão grande dos passageiros de voos internacionais no aeroporto de Florianópolis? Por alguns motivos, mas o primeiro foi que Florianópolis sempre teve uma vertente natural para o Mercosul. A população argentina aqui sempre foi muito grande, um destino tradicional e consolidado na Argentina. A gente conseguiu fomentar o destino do Chile. A gente teve uma invasão de chilenos, entre aspas, rivalizando com os argentinos em número de passageiros. A gente não tinha nenhum voo regular para Santiago. Hoje a gente tem dois voos por dia regulares. No ano passado, a gente tinha três voos por dia regulares, fora os voos de alta temporada. A gente conseguiu atrair a Copa Airlines, começaram com três vezes por semana, hoje já vão operar seis vezes por semana a partir de dezembro. A gente atraiu TAP, de Portugal, começaram com três [frequências], hoje já estão em quatro vezes. O preço da passagem aérea aumentou neste ano devido à alta no preço do petróleo, reflexo da guerra no Irã. Isso pode impactar a demanda dos aeroportos? É lei da oferta e da demanda: o preço aumenta, e a demanda diminui. O que a gente percebeu foi que as companhias aéreas, de maio em diante, até julho, agosto, diminuíram a quantidade de assentos, fizeram cortes na demanda. É justamente para voar um pouco menos, gastar um pouco menos. Registramos uma perda de assentos importante durante esses meses. Mas o que percebemos, a partir de agosto e setembro, é que essa demanda vem voltando. O preço [do petróleo] vem aumentando, é um preço ainda instável. Mas percebemos que essa demanda vem voltando. O ponto é o seguinte: claro que isso atrapalha muito, combustível é o principal custo da companhia aérea, então dependendo do preço do petróleo, você vai ter de 35% a 50% do preço de um voo sendo o combustível de aviação, isso é muito significativo. Por outro lado, você tem o dólar também que ajuda a balancear essa conta. O dólar não está em R$ 6,50, o dólar está em R$ 5,08 hoje, em R$ 5,10. Isso atenua um pouco o preço da passagem. E tem outra coisa também: historicamente, as companhias aéreas, em vários momentos, conviveram com um barril do petróleo a US$ 80, US$ 90, US$ 100, US$ 110. É uma variável que ela [a companhia aérea] sabe trabalhar, sabe onde fazer os cortes, sabe como gerenciar demanda. Sim, existem cortes de demanda, sim, o mercado é afetado porque o preço sobe, mas eu não vejo essa crise como algo drástico. Não sei o que vai acontecer no futuro, mas, com as oscilações de preço que vemos hoje, eu acho que há uma perda, mas não é uma perda tão significativa. Estamos em meio às eleições presidenciais e para governador. Eventuais trocas de governo influenciam ou impactam, de alguma forma, os investimentos nos aeroportos? A política de concessão de aeroportos é uma agenda de Estado. Tivemos vários governos que passaram. Começou lá no governo Dilma, entrou no governo Bolsonaro, governo Lula. É uma política bem consolidada, uma política de Estado, uma política que deu certo. Os aeroportos concedidos deram certo. A Zurich Airport deve participar do leilão do aeroporto de Brasília, marcado para dezembro? Sobre novos leilões, não falamos de maneira antecipada, mas afirmamos que o Brasil é um mercado prioritário. RAIO-X | RICARDO GESSE, 50 Formado em Economia, com especializações na área de Marketing, Gestão de Qualidade e Processos, é CEO da Zurich Airport Brasil desde 2020. Em Florianópolis, foi diretor de Operações desde o início da administração privada do aeroporto, em janeiro de 2018, até dezembro de 2019, quando se tornou diretor-geral. Em 2020, liderou a unificação da gestão dos aeroportos de Florianópolis, Macaé e Vitória. Foi gerente-executivo de Operações da Gol e gerente de Logística, Processo e Contrato da TAM. RAIO-X | ZURICH AIRPORT BRASIL Controladora: Flughafen Zürich, empresa suíça Atuação: administração de quatro aeroportos no Brasil, por meio de concessões Principais aeroportos: Florianópolis (SC), Vitória (ES), Macaé (RJ) e Natal (RN) Passageiros (2025): cerca de 11,4 milhões nos quatro aeroportos Principais concorrentes: Aena, Motiva, Fraport e Vinci Airports
Aeroportos recuperam demanda ap�s impacto da guerra, diz CEO da Zurich Airport
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