"Ceci n'est pas une pipe." "Isto não é um cachimbo", provocou-nos René Magritte em "A Traição das Imagens", contrapondo a frase à imagem de um cachimbo. O que, afinal, seria um cachimbo? Talvez segurá-lo e sentir seu peso e formato nas mãos? Sovar o tabaco em seu fornilho com os dedos, dando então lugar à combustão e ao seu cheiro? A tragada áspera que queima a faringe, desce seca pela garganta e contrai os bronquíolos? Ou o alívio súbito que oferece a um fumante dependente, quando cheiro, nicotina, memória e recompensa convergem? Cada etapa carrega um fragmento de sua própria realização, espalhado e reintegrado nas camadas corticais e no sistema límbico. Helena, minha filha de 8 anos, reconheceria um cachimbo embora nunca tenha encontrado um fora da imagem. Ela aprendeu as palavras cachimbo e "pipe" sem nunca ter segurado o artefato em mãos. Como ela pode reconhecer como cachimbo algo cuja realidade material nunca experimentou? Além disso, há muitos cachimbos, de tamanhos, formas e cores diferentes. Qual é o cachimbo real de Magritte? Hipoteticamente, a realidade de um cachimbo só estaria completa depois que a sua quintessência impregnasse os sulcos e reentrâncias de cérebro em formação de Helena. Como pai, espero que um cachimbo nunca seja um cachimbo para ela. Conhecendo-a, no entanto, sei que, sem o estímulo nicotínico, ela logo se desinteressaria do objeto e o deixaria sobre o sofá. Os dois shih tzus de casa, no entanto, reagiriam de outra maneira. O cachimbo seria roído, disputado e destruído em dias. Realidade crua, sem representação? Hesito. "What Is It Like To Be a Bat?", questionou Thomas Nagel, delineando a intransponibilidade do "mundo ao redor" ("umwelt") de morcegos, que enxergam sem ver pelo sentido da ecolocalização. Qual a experiência de Diva e Ravioli diante de um cachimbo? Não sei, e talvez não possa saber: seus mundos são feitos de cheiros e mordidas, não de imagens e nomes. Para eles, cinco cachimbos seriam cinco experiências distintas; o amadeirado e curvo de hoje não guarda parentesco com o cachimbo da paz, longo e frágil, da semana seguinte. O cachimbo existe ao ser roído: é um osso, é um brinquedo, é um plástico. Quantos cachimbos são necessários para constituir um cachimbo? A classificação é um dos problemas centrais da inteligência artificial. Em um teste Captcha, minha filha distingue um cachimbo, uma faixa de pedestres e um semáforo quase sem esforço. Por sua vez, os Claudes, tendo devorado as imagens de todos os cachimbos já fotografados, desenhados, rascunhados e representados, já não claudicam mais nessa tarefa, aprendendo a encontrar regularidades estatísticas entre representações. Helena constrói seu "umwelt" individual, enquanto Claude vive em um modelo de mundo estéril. Se de Diva e Ravioli não sei como é, da máquina a dúvida é anterior: haveria um como é ali? Helenas e Shi Tzus desenvolvem suas categorias enquanto habitam mundo que essas categorias descrevem; Claudes e ChatGPTs têm na traição das imagens sua própria realidade: o cachimbo é apenas, e integralmente, representação. Michelangelo, conta a lenda, golpeou o joelho de seu Moisés exigindo que falasse: "Perché non parli?" Quinhentos anos depois, construímos algo que fala sem ter joelho onde bater: a resposta sem a escultura. Claude e Helena também divergem no uso excessivo do travessão e, mais seriamente, na obstinação. Ao aborrecer-se com a inutilidade do artefato, o tédio e a curiosidade infantis transportariam Helena para atividades que despejassem mais dopamina em seu "nucleus accumbens" —atividades essas que seriam naturalmente filtradas pelo cérebro auxiliar materno. Claude, no entanto, não desistiria do enigma da obra de Magritte, pintada em 1929. Imagino se, cento e poucos anos depois da tela, o artista pedisse a uma máquina mais avançada e independente (desalinhada) a solução final para sua charada. Ao ser instada a não apenas identificar um cachimbo, mas a fazer a representação e a realidade coincidirem, talvez uma solução gestada em vastos data centers, do Texas à Islândia, fosse transformar obras de arte, fumantes, cachimbos, neurônios, morcegos, shih tzus e esculturas renascentistas em cachimbos de papel: o clássico experimento mental de Nick Bostrom sobre clipes de papel, agora em trajes surrealistas. Observando o processo se desenrolar, Magritte talvez desse uma última tragada em seu "pipe" enquanto assistisse à realidade queimar em sua própria representação. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
A trai��o dos cachimbos de papel
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.